Redes sociais: a contribuição para o desaparecimento da privacidade

Vivemos numa nova era. Numa era em que numa questão de poucos minutos podemos obter uma panóplia de informação acerca da vida de alguém. Numa era em que o registo fotográfico ou de vídeo de todas as nossas ações se tornou essencial para sermos considerados “normais”. Numa era em que, através de uma aplicação instalada no nosso telemóvel, nos podemos tornar nos influenciadores e, consequentemente, sermos remunerados por isso. Mas principalmente numa era em que, na minha opinião, já não existe privacidade, a não ser para aqueles que não utilizam redes sociais.

As redes que se foram criando e desenvolvendo ao longo dos anos têm cada vez mais vindo a alterar a sociedade em que vivemos, seja pelo fornecimento de informação pessoal que disponibilizam, ou pela necessidade que criam nos seus utilizadores de estarem constantemente atentos às mesmas. As pessoas parecem estar mais absorvidas a cada dia que passa, e qualquer dia certamente não saberemos comunicar uns com os outros sem ser através de tecnologia.

A maioria da população pode achar que está apenas a navegar pelo Facebook, a enviar mensagens ao seu grupo de amigos no WhatsApp, a contribuir com mais uma visualização em vídeos do Youtube, ou até mesmo publicar registos do seu dia a dia na sua página de Instagram. Mas, na realidade, está completamente dependente destes hábitos, que têm causado alterações significativas nas nossas atitudes e rotinas.

Como não me quero estar a estender muito acerca do tema, correndo o risco de tirar o tempo precioso a quem necessita do mesmo para ir atualizar o seu perfil do Facebook ou ir ver aquele conjunto de vídeos em reprodução automática no Youtube, decidi escolher apenas uma rede para desenvolver melhor as minhas ideias. Escolhi o Instagram, não só por ser uma das redes mais utilizadas atualmente, mas também por ser a que me fez perder mais horas da minha vida, que podiam ter sido direcionadas para outro tipo de atividades que me cultivassem, em vez de ter danificado a minha massa encefálica.

Começou por ser um sítio onde as pessoas publicavam momentos do seu dia a dia, e passou a ser a razão de as pessoas em restaurantes serem vistas a parar antes de iniciarem a refeição e colocarem o seu telemóvel na posição ideal para registar algo que antigamente tinha como único propósito servir de alimento. As raparigas jovens passavam agora a adotar uma expressão característica denominada como “duck face”, que se tornou rapidamente alvo de chacota. Surgiam fotografias de partes do corpo como pés e coxas colocadas com um belo oceano como plano de fundo, a fazer contraste com um areal, para que se soubesse que aquela pessoa tinha estado na praia, entre muitas outras típicas publicações que rapidamente se tornaram banais. Enfim, durante algum tempo era apenas mais uma rede, mas o seu número de utilizadores ia crescendo cada vez mais e creio que Mark Zuckerberg previu que isso fosse acontecer quando decidiu comprar a aplicação por apenas um bilião de dólares.

Hoje o Instagram tem inúmeras utilidades, mas a meu ver alterou bastante o modo como socializamos e expomos a nossa vida, como aliás qualquer outra rede social. E o principal e infeliz objetivo nos perfis pessoais da maioria dos seus utilizadores é o de criar uma imagem de uma vida ideal e agradável aos olhos dos seus seguidores. As pessoas precisam cada vez mais de feedbacks, dos tão conhecidos likes, aquela palavra que desde a chegada do Facebook entrou nas nossas vidas e passou a contribuir para a satisfação pessoal e alimentação do ego de muitos. O uso desta aplicação expandiu-se progressivamente e chegámos ao extremo de as pessoas decidirem partilhar os seus conteúdos consoante a hora do dia, para que possam obter o maior número de visualizações e consequentes likes e comentários. O objetivo é conseguir o maior número de followers, pois é através deste pequeno grande detalhe que aparentemente uma boa parte das pessoas se define hoje em dia. Proveniente do aumento de followers, surgem os tão falados “Instafamous”. Estes são os tais influenciadores que aparentemente começaram a fazer lucro com a aplicação pelo simples facto de terem publicações que, por terem obtido um elevado número de “likes”, chamaram a atenção de marcas. E, por fim, a mais recente “inovação” do Instagram; os Instastories são mais uma porta de entrada para a vida de qualquer um que decida registar o seu dia a dia, uma vez que contam a história da vida dessa pessoa. E, por incrível que seja, observo uma maior necessidade no registo de quase todos os momentos do dia no Instastory pela parte dos utilizadores da aplicação, sendo que já nem preciso de perguntar aos meus amigos como foi o fim de semana, porque já vi tudo o que fizeram, com quem, onde, como e quando através do ecrã do meu telemóvel. E, claro, as pessoas esquecem-se de que a partir do momento em que algo é publicado, isso se torna, precisamente, público, permitindo a qualquer pessoa que possa visualizar esse conteúdo tirar partido do mesmo da maneira que quiser.

Acredito que nem para toda a gente seja essencial obter likes; no entanto, acho que estamos a perder demasiado tempo a captar todos os momentos que conseguimos, sem pensarmos que esse mesmo momento não se vai repetir, e que, em vez de pegarmos no telemóvel para o registar e colocar numa rede social, podemos apenas aproveitá-lo e vivê-lo. Dou como exemplo os concertos, onde antigamente a única coisa que nos poderia distrair do artista em palco era o acender de um isqueiro; tornaram-se hoje num constante levantar de aparelhos para registar todo e qualquer momento, quando o objetivo seria ver o concerto e não o ecrã do telemóvel da pessoa que se encontra à nossa frente.

As pessoas deixaram de experienciar as coisas com os seus cinco sentidos apenas e decidiram, por alguma razão, que era boa ideia introduzir como sexto sentido aparelhos eletrónicos, que, como já devem ter percebido ao longo deste texto, aparentam estar cada vez mais a controlar-nos. Chegámos a um ponto em que as pessoas que observamos na rua já não comunicam normalmente – e não estou a falar daquelas que não se conhecem e que poderiam estar a comunicar por estarem a partilhar um espaço público -; estou mesmo a referir-me a casais, grupos de amigos e até mesmo crianças.

O ecrã quase é mais significativo do que a vida humana, no sentido em que as pessoas prestam por vezes mais atenção ao aparelho eletrónico que “contém a sua vida” do que àqueles de carne e osso que fazem parte da mesma vida. Deixámos de passear nas ruas para passear em perfis neste tipo de aplicações. Um like e um comentário substituíram as palavras ditas pessoalmente. As partilhas das nossas experiências servem para contar aos nossos familiares como é que estamos em vez de ligarmos a contar. As crianças já não precisam de brincar na rua porque os pais têm um aparelho com jogos suficientes para que se entretenham.

Vivemos numa era em que estamos a criar uma geração que se isola cada vez mais devido ao uso constante destas aplicações. Numa era em que, através de pequenos símbolos chamados “emojis”, conseguimos ter conversas. Numa era em que, cada vez mais, o importante é destacarmo-nos no digital e não no mundo real. E numa era em que criámos o ideal de que, se não estiver publicado nas redes, é como se nunca tivesse acontecido.

A nossa sociedade vai ficando cada vez mais prisioneira destas necessidades tecnológicas, causadas por aquilo a que chamamos, ironicamente, de “redes” sociais.

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