“Seja do que for que as nossas almas são feitas, a dele e a minha são iguais”
No passado Dia dos Namorados, estreou no cinema um filme adaptado da obra-prima da literatura inglesa de Emily Brontë, Wuthering Heights. Com Jacob Elordi e Margot Robbie nos papeis principais, o filme retrata a história de amor apaixonada e tumultuosa de Catherine Earnshaw e Heathcliff.
Mas será que o filme faz jus ao livro?
Escolha de atores
Creio que toda a gente conhece tanto Jacob Elordi como Margot Robbie. Ambos os atores são brilhantes em cada papel que fazem, desde a série Euphoria a Frankenstein, ou do Lobo de Wall Street ao Suicide Squad, marcam Hollywood e o cinema da melhor forma possível. Neste filme, mantêm o seu nível de rigor.
A intensidade doentia da personagem de Heathcliff e a rebeldia de Catherine foram bem retratados, no entanto, a adaptação não foi conseguida. Logicamente, a adaptação de um livro ao cinema acaba sempre por retirar partes que, para os leitores como eu, são inerentes à obra. Neste caso, não conseguiriam demonstrar a personalidade de Heathcliff através dessa adaptação.
Fonte: Printscreen
Esta personagem tem uma complexidade na sua essência pela violência que com que teve de lidar durante a sua infância, bem como a repressão e a desigualdade constantes por ser considerado diferente e, portanto, insignificante. Apesar de na generalidade dos filmes não achar pertinente escolher alguém que tenha o mesmo aspeto físico que as personagens da obra que estão a adaptar, neste filme seria importante para lhe dar um contexto literário. Heathcliff foi uma criança que foi trazida pelo pai de Catherine para lhe fazer companhia e ao irmão. Tinha pele escura, era considerado sujo e, consequentemente, sofria uma constante repressão da sociedade. Jacob Elordi é considerado, na generalidade, um ator atraente e que chama a atenção do público pela sua beleza.
A dita feiura da personagem é que explica os maus-tratos que sofre na história e que, posteriormente, o moldam na vida adulta e o tornam uma pessoa obsessiva e doentia.
No filme, esta complicação é demonstrada quase num time jump onde Heathcliff era uma pessoa normal, que sofria na infância, para se tornar uma pessoa doentia e sombria. Os padrões da personagem e do ator não se alinham, levando ao insucesso da demonstração da escuridão de Heathcliff.
O guião
Muito dificilmente um filme que é uma adaptação corresponderá e se manterá 100% fiel à obra. Isso é quase uma impossibilidade. Este filme, apesar de retratar a paixão e a intensidade do amor de Catherine e Heathcliff, é, de certa forma, uma deturpação da obra original.
O guião e a realização do filme arruinaram a complexidade da obra ao não abordarem os conflitos internos, profundos e, portanto, importantes das personagens. De um romance clássico da literatura inglesa, a história de Wuthering Heights foi transformada numa versão barata de Hollywood.
“O meu amor por Linton é como a folhagem das florestas. O tempo há-de mudá-lo, tenho perfeita consciência disso, como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas que existem por baixo: uma fonte de pouco deleite visível, mas necessárias. Nelly, eu sou Heathcliff, ele está sempre na minha mente, não como um prazer, do mesmo modo que eu não sou sempre um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser”.
Em primeiro lugar, o romance principal, a conexão profunda e indissociável de Catherine e Heathcliff foi fiel à obra. Foi possível observar os anos de amor e a construção do romance ao longo do filme, e ainda a obsessão e rebeldia que um tinha pelo outro. No entanto, a tensão emocional característica de Emily Brontë foi transformada em algo demasiado sexualizado. Cenas como estas aqui presentes, modificam o amor proibido e inalcançável da história em algo apenas cliché e característico dos filmes atuais.
Este facto vai ao encontro do estilo moderno e promocional do cinema atual, onde os realizadores procuram captar a atenção do público com cenas deste género (e ainda com a escolha de atores convencionalmente atraentes), ignorando a “alma” e a beleza de uma narrativa.
Fonte: Printscreen
A modificação de uma obra que é bonita (e sombria) numa versão mais sádica e excessivamente erótica é ainda demonstrada nesta imagem relativamente ao casamento de Isabella Linton e Heathcliff. Esta cena do filme é quase como uma afronta à essência da obra, alcançando o ridículo da sua adaptação.
Fonte: Printscreen
Fonte da capa: X
Artigo corrigido por: Lara Santos
AUTORIA
A Matilde é uma estudante do 1º ano de Jornalismo que sempre teve muito apego pela escrita. Desde escrever no seu diário até às suas primeiras tentativas de escrever livros em pequena, agora procura partilhar a sua paixão com os outros.
Apaixonada por viajar e conhecer o mundo, sonha viver no estrangeiro mas, acima de tudo, quer aproveitar tudo o que a vida lhe dará, cheia de aventuras e histórias para contar aos filhos.
É muitas vezes descrita como competitiva, adora desporto e esforça-se por dar o melhor de si em cada coisa que faz. Assim, a Magazine surgiu como uma oportunidade para fazer aquilo de que gosta, demonstrar a sua dedicação, e aprender e arriscar sem receios.





