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The Life of Kanye

“Vocês estão a assistir à maior estrela rock do mundo inteiro”, foi esta a mensagem que Kanye West quis transmitir aos quase 153 mil espectadores que assistiram ao festival de música britânico Glastonbury, em Junho do ano passado. Apesar de uma petição com mais de 135,000 assinaturas quase que levou ao cancelamento da atuação do rapper, a verdade é que nenhum outro evento musical foi tão mediatizado como este.

Então, será West a maior estrela rock do planeta? O seu lifestyle pode-nos ajudar a responder a essa pergunta: as suas incongruências têm-se multiplicado consoante os últimos meses – desde disputas com outos rappers no Twitter, asserções sobre a inocência de Bill Cosby a comentários misóginos e sexistas dirigidos a outras cantoras.

Mas controvérsias atrás de controvérsias, os fãs começaram a questionar o estado do novo álbum do artista. Pois bem, o processo deste também não tem sido fácil. O trabalho para o seu sétimo disco de estúdio começou em Novembro de 2013, cinco meses depois de ter editado Yeezus, o tão aclamado LP lançado em Junho desse mesmo ano. Rapidamente, o primeiro de muitos títulos foi anunciado: So Help Me God. O plano era o seguinte: um lançamento para 2014, escolhendo a música “God Level” como o primeiro single. Mas nada aconteceu e West passou o resto do ano sem dar notícias.

Em 2015, as atenções viraram-se para Kanye, quando o artista lançou duas novas músicas: “Only One” – um tributo à sua filha, North West – e “All Day” – single cuja sua estreia ocorreu nos Brit Awards. Ambas contam com a participação de Paul McCartney.

No dia 3 de Maio, o rapper anunciou, via Twitter, que pretendia mudar o nome do tão aguardado disco; desta vez, para SWISH.

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Contudo, noutro tweet, afirmou que a decisão não era a final, e que estava aberto a sugestões para o nome: “(…) posso mudá-lo novamente, mas é esse o nome por agora”, escreveu na rede social.

Não é a primeira vez que estas indeterminações se apoderam do trabalho do artista. Em 2010, My Beautiful Dark Twisted Fantasy – considerado o “magnum opus” da carreira de Kanye – esteve para se chamar “Good Ass Job”.

Por esta altura, a vida pessoal entrou em destaque, ao ser anunciado que Kanye West e Kim Kardashian estavam à espera do segundo filho, através de um teaser da série Keeping Up With The Kardashians. E, assim, em Dezembro do mesmo ano, nasceu o segundo filho do casal, Saint West.

Se calhar foi pelo crescimento da sua família, ou pela exposição que esta teve em 2015; independentemente da razão, o artista decidiu afastar-se um pouco da música e dedicar-se a novas venturas: política e moda. E em Agosto, enquanto recebia o Michael Jackson Vanguard Award, nos MTV Video Music Awards, anunciou que se iria candidatar para as presidenciais americanas em 2020: “quanto me candidatar à presidência, prefiro não concorrer contra ninguém. Gostava que fosse mais na onde de ‘quero trabalhar contigo’”, explicou West.

Dois meses depois, lançou a sua primeira coleção de roupa para a marca Adidas, com o nome, “Yeezy Season 1”. A ambição valeu a pena, e certas peças de vestuário, como camisolas ou calças de fato-de-treino, esgotaram em minutos. Todavia, entre opiniões não muito favoráveis, vários fãs criticaram o novo estilista graças aos preços exorbitantes a que os produtos eram vendidos. Botas a 600 dólares (cerca de 540 euros) e suéters a 1690 dólares (aproximadamente 1516 euros) são uns dos exemplos.

E a música? Numa entrevista à revista Q, West afirmou que o seu álbum SWISH não devia sair para as lojas em breve: “não estou muito preocupado com o ano em que sai. Estou preocupado com a vida e o corpo de trabalho que conseguirei pôr cá fora enquanto viver”, continuo.

Talvez estes subterfúgios funcionem para se esquivar às suas responsabilidades enquanto artista; ou talvez os tenha utilizado como uma forma de proporcionar algo aos seus fãs enquanto esperam pelo tão aguardado álbum.
Seja qual for a razão, só na passagem de ano novo é que se escutou novo material.

O rapper disponibilizou na sua conta do Soundcloud “FACTS”: tema produzido por Metro Boomin e Southside.

https://soundcloud.com/kanyewest/facts-explicit

A reação por parte dos fãs e da crítica foi negativa, fazendo com que West apagasse a faixa da internet. Poucos dias depois, para compensar os mesmos, as músicas “Real Friends” e “No More Parties in L.A” (esta com a colaboração de Kendrick Lamar) foram lançadas como singles promocionais.

A partir daqui, SWISH começou a ganhar formato, como também uma data de lançamento agendada para o dia 11 de Fevereiro. Com isto, West revelou a tracklist do álbum.

“Estou contente por ter concluído o melhor álbum de todos os tempos”, escreveu o cantor no Twitter.
Certas músicas anunciadas no alinhamento final já eram conhecidas pelo público, como as duas anteriormente mencionadas, mais “Wolves”, música que o cantor estreou na festa do 40º aniversário do programa Saturday Night Live.

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Contudo, Kanye não ficou muito satisfeito com o resultado final, apesentando várias hesitações em relação ao lançamento oficial. Naquele momento, os fãs não sabiam se haveria mesmo um álbum à venda no dia 11.

Progressivamente, as decisões de West foram efémeras e no dia 26 de Janeiro, anunciou que pretendia, outra vez, mudar o título do novo disco: desta vez para “WAVES”.

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Mas não foi a única coisa que anunciou. Afinal, o álbum existe e o seu registo seria apresentado ao vivo num evento a ter lugar no Madison Square Garden, em Nova Iorque, no dia em que chegasse às lojas – haveria também uma exibição específica sobre o trabalho que passaria por salas de cinema espalhadas pelo mundo.

O que faltava fazer até lá era esperar, correto? Todavia, até ao dia 11, o sempre confuso rapper decidiu, de novo, mudar o título – agora para “The Life Of Pablo” -, alterar o alinhamento e revelar a capa do seu trabalho:

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Quando do dia 11 chegou, milhares de pessoas reuniram-se na cidade que nunca dorme para assistirem ao tão aguardado projeto de West. Para aumentar as expectativas, um livestream foi disponibilizado na plataforma de streaming TIDAL, de modo a que utilizadores pudessem acompanhar o evento mundialmente.

Às 21:15, o espetáculo começou. West, ao lado do seu cunhado Lamar Odom, entrou na sala, pousou o seu portátil, pegou no microfone e dirigiu-se para plateia: “I’m gonna play the album for you, okay?”.

E assim o fez: as luzes iluminaram o resto da arena e “Ultra Light Beam” – canção que conta com a participação de Chance The Rapper, Kelly Price e Kirk Franklin – começou a tocar.

Enquanto se ouvia o disco na íntegra, várias personalidades do mundo da moda, como Naomi Campbell, Ian Connor e Veronica Webb, apresentavam a nova coleção do artista, que segue o nome “YEEZY Season 3”.

Posterior à cerimónia, as típicas inconsistências voltaram a surgir e, no seu Twitter, o cantor afirmou que o álbum não estava acabado e que seriam acrescentadas mais sete faixas ao projeto apresentado na noite de quinta-feira.

Para a surpresa de muitos, as G.O.O.D Fridays revelaram para a Internet o single “30 HOURS”: uma música com grandes influências synthpop caracterizada por um tom mais melancólico e nostálgico:

https://soundcloud.com/kanyewest/30-hours

Dias depois, Kanye voltou a utilizar o Twitter para, numa outra tentativa, revelar o alinhamento final –agora o definitivo – do novo esforço:

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Até aos dias de hoje, “The Life Of Pablo” ainda não foi comercializado e só se encontra disponível para quem utiliza o TIDAL. Esta decisão levou a que o álbum fosse altamente pirateado; e centenas de downloads já foram feitos. Kanye, por sua vez, ficou exaltado com a circulação ilegal da sua discografia e, entretanto, ameaçou processar os websites mais famosos que proporcionaram ficheiros com o LP do cantor – The Pirate Bay e Torrent Freak são os mais utilizados.

Peter Sunde, cofundador do Pirate Bay, disse: “ele deveria estar contente que alguém se interessa minimamente em ouvir as canções dele, por isso inscrevem-se no nosso site para conseguirem ter uma qualidade semelhante à do TIDAL”. Sendo Kanye West a “maior rockstar do planeta”, este não está a faltar a uma das suas principais funções: entreter a sua audiência. Embora o seu foco primordial seja um pouco ambíguo, os seus mais devotos fãs limitam-se a fazer aquilo que até agora fizeram: esperar, mais uma vez.

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