Um, dois, três, uma insónia de cada vez.

Chamem-lhe o que quiserem: insónias, não conseguir dormir, falta de sono ou horários desregulados. Sofro disto desde muito nova. Não se preocupem. Isto não é uma viagem ao passado, mas sim um desabafo no presente. Em alguns parágrafos, vou queixar-me de não conseguir dormir e da tentativa falhada de me tornar uma morning person

  Tive aulas à tarde durante a maior parte da minha escolaridade. Enquanto assim foi, defendia este horário com unhas e dentes. “Mas assim sais da escola já é de noite”, ao que eu retorquia “Ya, mas passo a manhã a dormir e tu não”. Rainha das comebacks, eu sei. No entanto, foi depois de passar a ter um horário com aulas predominantemente durante a manhã que me apercebi de que a minha vida era uma mentira. Claro, custava ter de acordar cedo, mas, em contrapartida, tinha uma tarde inteira para laurear a pevide. 

Cresci no seio de uma família que preza as sestas e as horas extra para ‘descansar a vista’, ‘esticar o corpo’ ou até ‘aquecer’ (desculpas usadas pela minha mãe para não admitir que vai dormir). Aprendi a amá-las no meu 12º ano – aquele ano em que ninguém mexe uma palha e em que as tardes livres são tantas que se acaba a imaginação de coisas para fazer, culminando sempre num cochilo durante a tarde. 


Fotografia cedida por António Silva. Eu, refastelada a dormir a sesta no meio do chão, num parque de campismo, durante o verão. ‘É de pequenino…’.

Até então nunca as tinha prezado, sendo que, quando era pequena, recusava-me a ter de dormir à tarde. Dormir era à noite e nada de misturas. Nem na creche eu cedia – enquanto o resto dos miúdos dormiam, eu e a minha melhor amiga da altura ficávamos acordadas a tentar inventar o máximo de jogos possíveis quando tudo o que podíamos fazer era ficar deitadas e olhar para a almofada ou uma para a outra. Lembro-me de um em que as almofadas se transformaram em computadores. O que será que andávamos a teclar?

Como estava a dizer, de há uns anos para cá, tornei-me adepta das sestas ocasionais. Adepta, como quem diz. Continuo a não amar, porque soa-me sempre a perda de tempo e, principalmente, a perda de dia. Porquê desperdiçar a luz do dia a dormir quando posso fazê-lo à noite? Isto é tudo muito bonito, mas não o coloco em prática. Pelo contrário, tenho vindo cada vez mais a sucumbir perante o cansaço do meio do dia. Normalmente é essa a razão pela qual me encontram a dormir à tarde: não porque decidi arrochar, e sim porque se me esgotou a bateria. Mesmo assim, ainda não dominei a arte de tirar umas horinhas sem me sentir culpada. Além disso, parece que, quando acordo, estou ainda pior do que quando adormeci. Fico à nora e ainda mais cansada, o que me leva a concluir que talvez o melhor seja mesmo combater esta tentação.

Torna-se mais desafiante fazê-lo quando tenho dias particularmente atarefados, quando ando a dormir menos ou quando estou de férias. É o terceiro motivo que me traz aqui neste momento. Estas férias – ou pausa letiva, se formos sinceros – têm sem dúvida servido para meter em dia todas as horas de sono de que o 3º Semestre me privou. Nesta altura, até diria que já estão mais que compensadas. “Mas, Mariana, o que tem isso de mal? Se estás de férias – em pausa letiva! –, faz todo o sentido que aproveites para descansar”. Certo, não há nada de mal em hibernar ocasionalmente quando os deveres acalmam. O problema é quando essas sestas malandras atrapalham todo o meu horário do sono.

Se passar a tarde a dormir, muito dificilmente terei sono durante a noite – pelo menos a horas decentes. Juntar a isto o facto de dormir toda a manhã faz com que seja impossível dormir a “horas normais”. Aliás, escrevo-vos este texto às quatro da manhã, que bem poderiam ser seis, pela forma como a carruagem tem andado. Este desnorte já dura há algumas semanas. Claro que é motivado, entre outras coisas, pela falta de horários fixos. Durante a época de aulas, que remédio tenho eu senão cedo erguer. E mesmo assim não significa que me deite à hora a que devia. Contudo, o caso acaba por não ser tão grave.

Sei que, de momento, tenho liberdade para dormir a horas malucas, mas isso não quer dizer que esteja satisfeita. O horário escolar impõe rotinas e despertadores aos quais nos fartamos de chamar nomes, mas a verdade é que são eles que nos disciplinam. Isto em conjunto, claro. Porque eu até posso, com a maior boa vontade, ativar uns cinco despertadores para amanhã acordar cedo e fazer render o meu dia. E faço-o muitas vezes, crente de que desta vez irá resultar. No entanto, os alarmes tocam, a Mariana acorda as cinco vezes e as cinco vezes os desliga, aconchegando-se como se nada fosse. Falta de força de vontade? Preguiça? O que quiserem. Mas não me orgulho disto.

A porra fica séria quando uma das minhas metas é, de facto, tornar-me uma morning person. Citando o Dicionário Cambrige, trata-se de uma pessoa que se sente desperta e cheia de energia durante as manhãs. Confere mais ou menos. Não me considero aquela pessoa com um mau acordar ou que não sorri para ninguém antes das tantas da manhã, mas também não sou a pessoa que às dez horas já fez mundos e fundos. Em suma, quero tornar-me mais ativa durante o dia e não durante a noite. Sempre preferi o dia, mas tendo a passar muitas noites acordada sem qualquer necessidade. A história termina comigo a aproveitar umas míseras horas de “sol” (maldito sejas, inverno) e a deprimir por isso mesmo. 

 Inclusivamente, sei que sou mais feliz nos dias em que saio da cama mais cedo e que, pela hora de almoço, dou por mim a pensar na quantidade de coisas que já fiz, quando o habitual seria estar a acordar a essa hora. Relembro que estamos a falar do período de férias. Se nada me fizer levantar da cama – como um compromisso –, por mais que me convença a mim própria, na noite anterior, de que ‘amanhã é que é’, acabo por ser acordada porque o comer está na mesa. Não me interpretem mal – eu não me estou aqui a queixar para que o ciclo se repita. Eu quero quebrá-lo e meter este objetivo em ‘papel’ pode ajudar-me a cumpri-lo. 

Fonte: samadimd.com

Adoro as madrugadas a devorar uma temporada de seguida tanto quanto qualquer um de vocês, mas têm de ser ocasionais, excecionais. Não podem ser a regra. Pior ainda é quando quero acorar cedo para passar a manhã a estudar. Resulta se for estudar para fora de casa (lá está, um compromisso), mas se depender apenas de mim… só mais cinco minutos. Já dei por mim a implorar ao meu pai que me despejasse um copo de água em cima, mas acordo sempre seca e arrependida. 

No verão, como os dias são mais longos, passar a manhã a dormir não tem um efeito tão negativo em mim. Porquê? Porque mesmo que eu só acorde ao meio dia, tenho sol (como quem diz ‘luz do dia’) até às oito da noite. É batota, eu sei, mas funciona. Orgulhar-me-ei muito mais da pessoa que sou quando me tornar uma morning person. Com este título vem produtividade, disciplina, persistência, determinação. E vem também conseguir adormecer a horas de pessoa normal, em vez de estar para aqui cheia de genica a ver o sol nascer. 

Passar a madrugada em branco não tem de ser sinónimo de ficar a olhar para as paredes. Hoje, por exemplo, estou a escrever um artigo para a secção de Opinião, ou seja, estou a ser produtiva. Ainda assim, preferia estar a fazê-lo pela frescura da manhã, com os passarinhos a chilrear e a luz a irromper-me pelas janelas e não ao som ensurdecedor do ressonar do meu pai. Corta um bocado a vibe, para ser sincera.

Resumindo e concluindo, a meta é levantar-me da cama às oito, nove (consoante aquilo que o dia exigir de mim) e ser produtiva durante a manhã, não responder ao chamamento da minha cama ao longo a tarde e, o mais tardar à meia noite (riso nervoso), estar a contar carneirinhos. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Deitar tarde e tarde dormir dá preguiça e faz(-me) deprimir. 

Artigo revisto por Catarina Cravinho Gramaço

Fonte da foto da capa: Dreamstime

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