Moda e Lifestyle

Um guarda-roupa sem rótulos

A moda vive, repetidamente, um momento de viragem. Das passerelles de New York às de Paris, Milão e Londres, as fronteiras entre o masculino e o feminino esbatem-se a um ritmo inédito. A Fashion Week da temporada primavera-verão 2026 confirmou aquilo que já se vinha a desenhar: a moda quer ser 100% mista.

Uma das mudanças mais simbólicas aconteceu na Dior, onde Jonathan Anderson assumiu a direção criativa tanto das coleções femininas como masculinas, até então separadas entre Maria Grazia Chiuri (mulher) e Kim Jones (homem). Logo na sua estreia, Anderson optou por baralhar códigos: integrou nas silhuetas femininas elementos da coleção masculina apresentada meses antes, como a icónica Bar Jacket encurtada ou a capa, inicialmente em tons de azul escuro, agora reinterpretada em cinzento e bordeaux. O gesto é mais do que estético, é conceptual. Trata-se de questionar a própria necessidade de dividir o guarda-roupa por género.

O mesmo movimento ecoa noutras maisons de haute couture. Na Versace, os looks masculinos e femininos dialogaram no mesmo desfile; na Celine, Michael Rider apresentou um desfile primavera-verão 2026 assumidamente co-ed; e na Louis Vuitton, Pharrell Williams, à frente da linha masculina, fez da inclusividade o seu manifesto.

“Dizem que crio roupa masculina… Eu diria que crio peças para seres humanos”

Pharrell Williams, antes da apresentação do seu primeiro desfile. 

Esta visão rapidamente transbordou das passerelles para o star system. Na última Fashion Week, várias celebridades apropriaram-se de peças originalmente pensadas para o “outro” género, reforçando a ideia de que o estilo é hoje uma ferramenta de expressão individual e não uma afirmação binária.

Anya Taylor-Joy marcou presença num desfile da Dior envolta num longo casaco bege com mangas em pelo sintético e capa fluida (uma peça da linha masculina).

Fonte: Vogue

Também Jennifer Lawrence adotou o mesmo modelo da Dior Homme, comprovando que a sofisticação não conhece rótulos. 

Fonte: Colagem feita pela redatora | Getty Images

Do outro lado, Jacob Elordi surgiu em looks da Chanel assinados por Matthieu Blazy, incluindo um blazer de alfaiataria e uma camisa rosa pastel produzida com os tecidos da Charvet.

Fonte: Colagem feita pela redatora

A tendência prolonga-se: Greta Lee usou o primeiro look do desfile masculino de Jonathan Anderson para a Dior.

Fonte: Colagem feita pela redatora

A$AP Rocky vestiu Chanel num desfile Métiers d’art inspirado no universo do Superman.

Fonte: Colagem feita pela redatora

Rihanna foi das primeiras a apostar nas peças masculinas da Dior, incluindo o Book Tote “Dracula”, que se tornou viral.

Fonte: Colagem feita pela redatora

Harry Styles subiu ao palco dos Grammy Awards 2026 com um blazer da Dior feito sob medida, reinterpretando a icónica Bar Jacket criada por Christian Dior, em 1947.

Fonte: Colagem feita pela redatora

Paralelamente, o chamado “normcore 2.0” regressa com nova força. Popularizado em 2010 pela estética despretensiosa de Jerry Seinfeld e Carolyn Bessette-Kennedy, este estilo privilegia conforto, neutralidade e funcionalidade. Hoje, ganha uma dimensão política ao dialogar com filosofias não-binárias e identidades fluidas: vestir-se deixa de ser alinhar com um género e passa a ser libertar-se de um enquadramento normativo.

No entanto, a ascensão do modelo co-ed também levanta questões. O cancelamento da edição masculina de junho da Fashion Week de Londres pelo British Fashion Council revelou os desafios económicos e estruturais do setor. Alguns críticos, como o jornalista Jacob Gallagher, do New York Times, alertam para o facto de que a fusão de desfiles pode, por vezes, diluir a visibilidade da moda masculina.

Entre estratégias económicas e convicções ideológicas, a moda mista instala-se como reflexo de uma sociedade em transformação. Em 2026, o estilo, em vez de afirmar, dissolve fronteiras.

Fonte da Capa: Colagem feita pela redatora

Artigo revisto por Inga Carvalho

AUTORIA

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Vive num mundo onde mil e uma curiosidades vagueiam nos seus pensamentos, Ambre, aluna do 2.° ano da licenciatura em Jornalismo, sonha em, talvez um dia, poder conciliar todos os seus desejos… Animais, ciência, moda e cultura são algumas das milhentas paixões que tecem a tão confusa teia que é a sua mente. Por enquanto (e como sempre fez), refugia-se na escrita, um sítio em que pode expressar cada milímetro que percorre o seu espírito. Para explorar o tão vasto universo da escrita, Ambre aventura-se no desafio de ser Editora de Ciências, na ESCS Magazine - a melhor revista de Benfica.