Anatomia de uma Época Perfeita
O futebol tem memória curta, mas o verão de 2025 foi especialmente cruel para o FC Barcelona Femení. Sob a asfixia financeira que afeta o clube como um todo, o mercado de transferências parecia ditar o fim de uma era antes mesmo de a bola rolar. Não se perdeu apenas qualidade, mas também experiência.
As saídas de Fridolina Rolfö e de Ingrid Engen (esta para o rival Lyon) a custo zero, a par da partida de Ellie Roebuck, deixaram os adeptos apreensivos. Mas o verdadeiro choque foi a venda das jovens Lucía Corrales e Jana Fernández para o London City Lionesses, equipa recém-promovida à primeira divisão inglesa.
Num plantel que já na época anterior se tinha revelado curto para a maratona de quatro competições, ver os talentos da casa pararem de acreditar no futuro do projeto gerou um alarme sem precedentes. Este ceticismo alimentava-se do final da temporada anterior, quando o Barça perdeu o seu primeiro Clássico da história contra o Real Madrid e caiu diante do Arsenal na final da Champions. Para a imprensa e para os rivais, as bicampeãs europeias tinham batido no teto.
A única contratação sénior foi o regresso de Laia Aleixandri, acompanhado pela promoção forçada das jovens Aïcha Cámara e Clara Serrajordi. Com apenas vinte jogadoras profissionais, o plantel parecia estar em desmantelamento e as dúvidas sobre a capacidade de manter o nível da elite eram legítimas.
Fonte: El Periodíco
A resposta inicial no relvado deu uma falsa sensação de tranquilidade, com seis vitórias consecutivas na Liga F e um categórico 7-1 ao Bayern Munique na estreia europeia. Contudo, a introdução da nova fase de liga na Champions esticou a corda, e o plantel curto rapidamente expôs as suas fragilidades, trazendo de volta o fantasma das dúvidas. A rotação era impossível, a primeira derrota chegou em novembro contra a Real Sociedad e o pior cenário materializou-se logo a seguir: uma onda devastadora de lesões graves retirou Patri Guijarro por três meses, Aitana Bonmatí por cinco, e causou a rotura de ligamentos que afasta Laia Aleixandri dos relvados por um ano. Com o melhor meio-campo do mundo desfeito, o coração da equipa ficou entregue à capitã Alexia Putellas, aos 32 anos. Ainda assim, numa campanha de sucesso, seguraram o primeiro lugar na fase de liga da Champions, garantindo o bilhete direto para os quartos de final. Em janeiro, com a jovem Vicky López, de 19 anos, a ocupar um dos lugares vazios do meio-campo, o Barça ergueu a Supertaça de Espanha ao vencer o Real Madrid por 2-0. Primeiro troféu.
Fonte: FCBFemeni no X
A maturidade da equipa testou-se a sério na primavera, quando o calendário ditou três clássicos consecutivos. Dois a contar para a Champions e um na Liga F. O Real Madrid, consciente do plantel curto das catalãs, acreditava que podia surpreender. A resposta do Barça foi a demolição habitual. Venceu por 6-2 em Madrid, carimbou um 3-0 para o campeonato e fechou a eliminatória europeia com 6-0 no Camp Nou esgotado. Esta sequência consagrou Clara Serrajordi, a jovem que parecia uma aposta de desespero e que assumiu o lugar de Aitana sem que se notasse qualquer quebra de rendimento. Logo a seguir, a 22 de abril, veio o segundo troféu. Com uma vitória no dérbi frente ao Espanyol, sagraram-se campeãs da Liga F com quatro jornadas por disputar. Faltava confirmar a final europeia. A exigente meia-final contra o Bayern Munique testou os corações dos adeptos. Após um 1-1 na Alemanha, a decisão mudou-se para um Camp Nou em ebulição, mais uma vez esgotado. Num jogo tenso (5-3 no agregado), os golos de Salma Paralluelo, Ewa Pajor e Alexia selaram a passagem à final, num duelo marcado pelo emocionante regresso de Aitana aos relvados.
Fonte: FCBFemeni no X
O ritmo era imparável. Duas semanas depois, chegou o terceiro troféu. A Taça da Rainha foi conquistada com um sólido 3-1 frente ao Atlético de Madrid, carimbando o pleno nacional e limpando todas as dúvidas internas antes do teste em Oslo. A final da Champions vinha carregada de um desejo de vingança pela final perdida em 2025 e trazia o reencontro mais esperado contra o Lyon. Após uma primeira parte tensa (0-0), o Barcelona ativou o modo avassalador. Ewa Pajor bisou em quinze minutos, quebrando a sua maldição pessoal de cinco finais perdidas e garantindo o prémio de melhor marcadora com onze golos. Nos descontos, Salma Paralluelo fechou a contagem num 4-0, devolvendo ao Lyon a moeda de exibições passadas. Quarto título. Alexia Putellas coroou a época perfeita como a melhor jogadora da prova.
A euforia, no entanto, durou pouco. Três dias após levantar a Champions em Oslo, o Barça despediu-se de Mapi Léon, Ona Batlle e da capitã Alexia no último jogo em casa da época. Com estas saídas de peso confirmadas e a incógnita sobre quem ocupará os difíceis lugares deixados vagos, o ciclo do ceticismo reinicia-se. As bancadas voltam a temer o futuro, os rivais voltam a sorrir com a promessa do fim da hegemonia e o ambiente de mistério regressa a Barcelona. Mas se esta época provou algo ao mundo é que o FC Barcelona Femení alimenta-se da pressão para fazer história.
Fonte: FCBFemeni no X
Fonte de Capa: FCBFemení
Artigo corrigido por: Lara Santos
AUTORIA
A Maria está no segundo ano de Jornalismo e sempre foi daquelas pessoas que não consegue dizer que não a um desporto novo. Já passou por quase todos, mas foi a ginástica que acabou por dominar a sua vida durante anos. Agora, longe das competições, encontrou na Magazine o espaço ideal para manter viva a ligação a um mundo que sempre a fascinou.





