Um “logo”

Um logótipo é, normalmente, o símbolo máximo de uma empresa ou organização: é a sua imagem de marca. Uma empresa espera que o seu logo seja a encarnação dos seus valores e objetivos, para além de ser esteticamente apelativo. Obviamente que ninguém olha para o símbolo do “McDonalds” e pensa: “sem dúvida que esta letra simboliza a obtenção de comida saborosa e rápida a um custo aceitável”. Mais rapidamente penso que só uma empresa mentecapta que produz comida nojenta independentemente do sabor se lembraria de espetar um M amarelo como logo, mas divago. Desse modo, a NBA é logo associada à elegante silhueta que remete para o também elegante jogo que é o basquetebol, tirando os flops e trash talk e tudo isso. Ao princípio, o logo da melhor liga de basquetebol que alguma vez existiu não passava de um statement estético, uma inovação num mundo em mudança. Nunca imaginaram os responsáveis por tal decisão e por tal símbolo que o homem por detrás da silhueta se tornaria numa das figuras mais influentes da história da liga, não só dentro de campo, como fora.

Um rebento de uma infância opressiva e marcada pela tragédia, diria que nem o próprio Jerry West imaginaria o seu impacto naquela que é, provavelmente, a mais interessante liga desportiva do planeta, mas é provável que o tenha imaginado, até certo ponto. Refugiou-se nos cestos depois do desgosto de perder um irmão na guerra da Coreia e de sofrer abusos dos pais na rural e inóspita Vírginia Ocidental. Do gosto surgiu uma obsessão: as derrotas e falhanços eram gatilhos do sofrimento que outrora sentiu na sua adolescência; as vitórias e sucessos eram um simples atenuante, um remédio temporário. A sua frieza exterior contrastava com o tumulto interno e um coração em ebulição. A sua técnica, inteligência e “motor” fizeram dele um dos melhores e mais completos bases de todos os tempos. Para além do logo, foi assim que se tornou o “Mr. Clutch”, e um dos melhores atiradores de sempre, decisivo nos momentos finais das partidas. Títulos individuais, somou-os às carradas: é o único jogador da história a conseguir um título de MVP de Final como derrotado. Numa carreira de jogador que se previa lendária (e foi, mas talvez não como West queria), teve de esperar pela sua 12ª época para conquistar o seu único anel, auxiliado pela lenda Wilt Chamberlain, o MVP dessa série. Retirar-se-ia, graciosamente, dois anos depois, na sua equipa de sempre, os Lakers. Ainda treinou a equipa de LA entre 1976 e 1979, mas a sua introversão e distância não se adaptavam a um cargo de treinador principal.

A sua carreira de jogador foi preenchida e bem-sucedida, especialmente a nível individual. Pode-se dizer que o seu verdadeiro legado começou a partir de 1980, no ano em que entrou para o Hall of Fame. Primeiro, foi olheiro: em 1982, subiu a general manager, o responsável máximo pelo recrutamento numa equipa de NBA. Foi ele que criou o Showtime nos Lakers, rodeando Magic e Kareem de jogadores talentosos e complementares ao estilo de ambos. Seguiram-se cinco títulos. Após o declínio da era Magic-Kareem, marcada pelo diagnóstico de SIDA ao gigante base, West viu-se incumbido em regenerar o franchise. Em 1996, aproveitou a sovinice do FO dos Orlando Magic e sacou Shaq, e recambiou Vlade Divac pela décima terceira escolha do draft, um tal miúdo de 17 anos, acabado de sair do liceu, chamado Kobe Bryant. Génio reconhece génio; obsessão reconhece obsessão. O perfeccionista Kobe e o extravagante Shaq sacaram três títulos. Em 2002, West foi para Memphis, onde transformou um franchise à beira da venda numa equipa competitiva e crónico candidato aos playoffs. Queria um desafio. Em 2011, aceitou outro, ao juntar-se aos Golden State Warriors, uma equipa com um suporte de fâs leal e fervoroso na baía de São Francisco, que nos últimos anos tinha experienciado pouco sucesso, à parte do episódio tomba-gigantes em 2007, quando eliminaram os primeiros classificados Dallas Mavericks na primeira ronda dos playoffs do Oeste. Bem, o resto é história, e ainda se cumpre.

Dois génios, duas lendas.

Fonte: Getty Images

Recentemente, após vários anos de semi-neutralidade (a minha lealdade ao Deus greco-nigeriano aberrante é incomensurável), decidi que vou ser adepto dos Clippers, devido à minha afinidade com a cidade de Los Angeles, ganha através de jogos e das minhas ambições profissionais (e não só): tem um clima parecido ao nosso. Também odeio os Lakers, exceto West e Kareem. Desde que se juntou ao FO da “cidade dos anjos”, os Clippers conseguiram criar um núcleo sólido e competitivo, transformaram ativos interessantes, como Tobias Harris, em picks valiosas e possivelmente decisivas para o franchise, e com todas as movimentações, a equipa tem espaço para, neste mercado livre com Kevin Durant, Kawhi Leonard, Kyrie Irving, entre outros, dar de bandeja dois contratos máximos. Antes da bandwagon, declarei o meu apoio, não só porque me considero West Coast e californiano de afinidade, mas também porque West transformou o franchise, e eu sou um gloryhunter, tão obsessivo como ele, mas mais desleixado, certamente. Por tudo o que deu ao desporto, de performances extraordinárias como jogador a equipas lendárias como executivo, por ter dado a este puto parvo gloryhunter uma equipa por quem torcer, e pela incomensurável dedicação à sua verdadeira paixão (de infância), não vejo ninguém mais merecedor do título de símbolo máximo da NBA, imortalizado naquela pose elegante e tecnicista de um génio, dentro e fora do court. Aos meros mortais, resta apenas agradecer.

Artigo revisto por Gonçalo Taborda

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