Uma viagem literária desde o Estado Novo até ao 25 de Abril

“Há livrarias que são apenas espaços e há livrarias que são sobretudo tempo. (…) A Ferin, com os seus 177 anos de história, os seus mais de 15 mil livros, a sua devoção à cultura, à sabedoria como a grande emancipadora dos homens e mulheres, é um desses lugares” – este excerto de Sobre a Leitura, do escritor francês Marcel Proust, descreve bem o espaço que dá outra cor à capital portuguesa desde 1840. Naquele dia soalheiro do início de maio, o espaço provou que continua bem vivo, acolhendo o debate “O que mudou na Literatura Portuguesa depois do 25 de abril?”.

Quando entramos no número 70 da Rua Nova do Almada, próximo da saída de metro da Baixa-Chiado, deparamo-nos com um lugar peculiar. Com um cheiro forte a livros novos e a outros mais velhos, mas preservados pelos funcionários da livraria, é impossível que não nos sintamos cativados pela atmosfera de conhecimento que se vive na Ferin. A origem deste nome prende-se com o apelido de uma família belga que se mudou para Portugal aquando das guerras napoleónicas.

Jean-Baptiste Ferin foi o primeiro a conhecer Lisboa e teve 11 filhos, que se dedicaram a profissões ligadas à bibliotecnia (termo que engloba os conhecimentos técnicos relativos à parte material do livro e à sua produção), como a encadernação ou a tipografia. Duas das suas descendentes, Maria Teresa e Gertrudes, abriram um gabinete de leitura no Chiado, que funcionava como uma biblioteca. A partir daí, Maria Teresa transformou o gabinete na atual livraria e chegou a ser nomeada encadernadora oficial da Casa Real Portuguesa pelo rei D. Pedro V.

Poderíamos pensar que, desde o séc. XIX, com o desaparecimento dos grandes clientes do estabelecimento, como Eça de Queirós, e com a mudança dos hábitos de leitura dos portugueses, este espaço poderia ser esquecido. No entanto, a livraria sempre apostou no lançamento de livros, um dos seus pontos fortes.

Descemos as inclinadas escadas que dão acesso à cave e encontramos uma sala calma com cinco pessoas. Do lado direito, encontra-se uma página iluminada de Las Ordenaciones y Ceremonial de la Coroación de los Reyes de Aragón, que atesta a facilidade que a família, por ser estrangeira, tinha na obtenção de livros de outras nacionalidades. Com um bar a um canto, conjugado com decalques das mais relevantes personalidades do panorama artístico português junto das mesas e cadeiras, que convidam os visitantes a tomar uma bebida com eles, o ambiente é verdadeiramente agradável.

Fotografia: Samuel Guiomar
Fotografia: Samuel Guiomar

Quando chegou a hora do início do debate, os oradores Maria do Rosário Pedreira, escritora, poetisa e compositora, e Manuel Alberto Valente, escritor e diretor editorial da Porto Editora, unidos pelo amor que nutrem um pelo outro e também pela escrita, juntaram-se ao moderador Tiago Salazar, que já trabalhou como jornalista mas que agora se dedica à escrita de livros sobre viagens.

Maria do Rosário tinha apenas 14 anos aquando da revolução dos cravos, mas recorda-se perfeitamente do seu exame do quarto ano: “Na parede, estava a fotografia do Marcello Caetano. Perguntaram-me: ‘Quais são os seus deveres perante a pátria?’ e eu respondi aquilo que me tinham ensinado e que havia decorado’”. No entanto, descreve o fim da ditadura como “um rasgão”, onde todos os cidadãos começaram “a ver a luz”.

Fotografia: Samuel Guiomar

Já para Manuel Alberto Valente, a ideia de que “a liberdade concedeu aos criadores literários liberdade para criar” é um mito, na medida em que os livros que foram publicados saíram das gavetas, por assim dizer, porque houve uma emergência de outra literatura e de outra forma de estar na mesma.

Fotografia: Samuel Guiomar

Descrita pelo marido como “leitora compulsiva e omnívora”, Maria do Rosário, acredita que a partir de 1974, “as pessoas puderam crescer intelectualmente, mas a literatura mudou muito mais com a globalização”, isto é, determinados temas não eram abordados não devido à censura mas sim por falta de conhecimento.

Quanto à escrita de livros pré-revolução, os oradores e o moderador realçaram o movimento poético Poesia 61, que se materializou numa revista homónima, editada em Faro, por cinco poetas, para a qual cada um contribuiu com um trabalho: Casimiro de Brito, com Canto Adolescente; Luiza Neto Jorge, com Quarta Dimensão; Gastão Cruz, com A Morte Percutiva; Fiama Hasse Pais Brandão, com Morfismos; e Maria Teresa Horta, com Tatuagem.

Após o 25 de Abril, os oradores destacaram como inovadores José Saramago com Manual de Pintura e Caligrafia e as obras de Luís Pacheco e de Mário-Henrique Leiria.

Tiago Salazar evocou a relação estabelecida entre os vocábulos liberdade e literatura, referindo a quantidade de livros que era publicada antes da instituição da democracia em território português, não deixando de apontar a Primavera Marcelista como um período em que existiu uma certa modernização em várias vertentes sociais, económicas, políticas, etc. O que não deixa de ser verídico, na medida em que o texto Uma literatura desenvolta ou os filhos de Álvaro de Campos, de Eduardo Lourenço, editado em 1966, teve uma repercussão enorme nos anos seguintes, e outras obras, como O Delfim, de José Cardoso Pires, publicada em 1968, foram determinantes no que diz respeito à evolução do pensamento literário nacional.

Fotografia: Samuel Guiomar

Nesse sentido, Manuel Alberto Valente disse: “As grandes ruturas dão-se antes de 1974” – mas há três nomes que se devem ter sempre em consideração depois dessa data: António Lobo Antunes, Lídia Jorge e Mário de Carvalho.

Na perspetiva de Tiago Salazar, deu-se a “banalização da literatura” nas últimas décadas, e Maria do Rosário subscreve a opinião, na medida em que entrou no mundo da edição em 1987 e acredita que hoje em dia, “as pessoas leem pior, e há novos géneros que não passam de objetos industriais” – uma explicação para esse fenómeno, foi dada por Manuel: “O setor literário representa mais que o setor automóvel em termos monetários e a vontade de lucrar cada vez mais cresce a olhos vistos”.

Para os oradores e o moderador, as soluções para que a literatura recupere a sua essência original são simples: o autor tem de ser o centro da edição e não o leitor e há que lançar autores antigos como novidades, tal como a Livros do Brasil faz. Há que saber distinguir a censura do critério de gosto, porque editar já não é um privilégio tão grande como antes, pois qualquer livro entra no mercado desde que o autor pague para que isso aconteça. Os editores só devem publicar livros de que gostem para que os saibam defender corretamente e devem ser leitores profissionais e não pessoas provenientes de áreas como a economia, que sabem fazer dinheiro mas não ler e corrigir erros – ou seja, editores são distintos de publicadores. Por fim, os editores não devem escrever pelos escritores, mas sim aconselhá-los.

Fotografia: Samuel Guiomar
Fotografia: Samuel Guiomar

E, por último, deixaram um aviso: é normal que se faça televisão para o espectador e livros para o leitor. Mas como é que isso é possível? Não conseguimos entrar na cabeça das pessoas e saber aquilo que pretendem ter à sua disposição. “Aí, há o perigo da ditadura”, afirmou Maria do Rosário Pedreira.

Ary dos Santos, em As Portas Que Abril Abriu, escreveu: “Foi esta força sem tiros / de antes quebrar que torcer / esta ausência de suspiros / esta fúria de viver / este mar de vozes livres / sempre a crescer a crescer / que das espingardas fez livros / para aprendermos a ler”. Está na altura de recuperarmos o espírito de abril de 1974 e reabrirmos as portas que, infelizmente, parecem fechar-se na cultura do séc. XXI.

Fotografia: Samuel Guiomar

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