Vietname: A Chacina de Mylai

A 16 de março de 1968, numa pequena aldeia da província sul-vietnamita de Quang Ngai, centenas de civis, na grande maioria crianças e mulheres, foram executadas por soldados do exército dos Estados Unidos. Este episódio ficou conhecido como o “massacre de Mylai”, o maior massacre de civis durante a Guerra do Vietname.

Em “Vietname: A Chacina de Mylai”, John Sack, jornalista e correspondente de guerra, conta a versão dos factos do ponto de vista do tenente William Calley Jr, o oficial que ordenou o ataque a Mylai. Em setembro de 1969, Calley foi formalmente acusado do assassinato de mais de cem civis vietnamitas. O julgamento teve início a novembro de 1970 e terminou no final de março de 1971 com a sentença de prisão perpétua para o tenente Calley. Dias depois de iniciar o cumprimento da sua pena, o presidente dos Estados Unidos Richard Nixon pediu que Calley fosse libertado e deu-lhe a oportunidade de apelar da sentença. Após vários recursos, o tenente acabou por cumprir apenas três anos e meio em prisão domiciliária na base militar de Fort Benning, no estado da Geórgia.

Para apresentar a versão de Calley ao leitor, John Sack editou 1250 metros de fita magnética de entrevista com o tenente e 200 quilos de atas do tribunal. O resultado? Um relato na primeira pessoa de um dos momentos mais sangrentos e marcantes da história do Homem. Os pensamentos, os sentimentos, as ações de Calley, tudo é narrado. A descrição dos acontecimentos é feita de forma bastante informal, o que dá ao leitor uma sensação de presença constante, quase como se estivesse a viver alguns dos momentos descritos. O próprio leitor mergulha num estado de reflexão intenso, tais são as questões morais com que se depara ao longo da leitura.

Se cada um de nós lesse esta obra, as opiniões finais seriam garantidamente diferentes…

Sim, o tenente William Calley dá-nos apenas a sua versão dos acontecimentos… Mas isso não significa que essa seja a verdadeira versão do sucedido. Cabe sempre ao leitor a interpretação de todos os factos, não só de forma cuidada, mas também de forma imparcial.
Assim, recomendo a leitura desta obra, não são pela vertente histórica, mas também pelo enriquecimento cultural e intelectual que nos proporciona.

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