A habilidade para dotar a personagem da ilusão da vida

 

The Iron Giant, Godfather e The Bicycle Thief – são estes os filmes preferidos do homem que já soma mais de cem produções televisivas e cinematográficas. A música de que mais gosta é Broadway Show Tunes, contudo, acredita que os atores é que pretendem chegar à Broadway e não os animadores. É assim a vida peculiar de Ed Hooks, animador e ator com quem a ESCS Magazine esteve à conversa.

Iniciou o seu percurso na representação na American Academy Of Dramatic Arts, em Nova Iorque, nos anos 60. Demorou trinta anos para descobrir a sua faceta de animador, em 1996: “Até aí, fui apenas um apreciador de filmes de animação. No entanto, quando vi o Toy Story, rendi-me ao poder e à magia deste género”, confessou.

Ed, que nos anos 90 dividia o tempo entre a sua carreira de ator profissional e a de professor de teatro, foi apanhado de surpresa quando um dos seus estudantes de Palo Alto, na Califórnia, lhe fez uma proposta. “Professor, comecei a trabalhar numa empresa de animação e estamos a produzir um filme, mas, como é o primeiro, sentimos que necessitamos de mais preparação. Não nos quer lecionar aulas no estúdio?”.

Depressa entendeu que o filme que estava a ser produzido era Antz e o ator que dava voz à personagem principal (Z, a famosa formiga operária residente no Central Park) era Woody Allen. Jamais imaginara que esta experiência mudaria a sua vida e cometeu um erro crasso: tentou ensinar os animadores da mesma forma que ensinava os atores. “Nada funcionou porque, claramente, os animadores não possuem as mesmas aspirações dos atores. Na animação, o que importa é o ator, não o animador. Na perspetiva da audiência, o Mickey Mouse é que era o ator, não o Walt Disney”, esclareceu o autor de Acting for Animators.

O livro suprarreferido, publicado em 2001, ainda hoje constitui uma autêntica bíblia para os profissionais da animação e, segundo Ed, foi o mote para o início do seu percurso em Portugal. Em território nacional passou também a residir oficialmente há alguns dias, sendo que já se envolveu no festival Monstra: “Sinto-me muito feliz por finalmente poder participar neste projeto! Ainda não tinha tido oportunidade para participar, mas agora farei questão de trabalhar no mesmo anualmente”.

A FNAC do Chiado, em parceria com o Monstra, recebeu Ed Hooks no passado dia 21 de março, onde este partilhou um pouco da sua história, tendo como moderador Fernando Galirto, diretor artístico do festival. No mesmo dia, quem acorreu ao Cinema São Jorge aprendeu vários princípios de representação essenciais para interpretações fortes e como realizar uma análise da interpretação de uma cena animada.

Ainda houve tempo para uma sessão de perguntas e respostas, onde a popularidade daquela que é a obra-prima de Ed Hooks foi abordada. Quanto a isso, o animador é assertivo: “Dediquei-o ao Ken Bielenberg (conhecido essencialmente pelo seu trabalho na saga Shrek), a primeira pessoa que me convidou para ensinar teatro. A minha vida teria sido totalmente diferente sem a sua ajuda. É engraçado como eventos pequenos e imprevisíveis podem alterar o nosso percurso”, afirmou. Incluiu ainda a sua análise de The Iron Giant, filme realizado por Brad Bird, diretor cinematográfico que contactou previamente e que hoje possui um lugar de topo na indústria da animação, tendo realizado The Incredibles, Ratatouille, entre outros filmes da Pixar.

Quanto à sua visão relativa ao ensino, Hooks clarifica: “Ensinar constitui um exercício interessante porque, para explicar algo, temos de o compreender primeiro. Ainda renovo o meu conhecimento acerca da representação, mesmo sendo considerado um expert”. No fundo, a representação baseia-se no comportamento humano que é aproveitado para fins teatrais – como Ed sempre defendeu, o animador e o ator têm de ter “a habilidade para dotar a personagem da ilusão da vida”.

“A indústria da animação afasta-se de Hollywood. Estamos a começar a ver mais temáticas de adultos nos filmes de animação e, escusado será dizer, os modos de ver filmes estão a revolucionar-se” – começou por elucidar Hooks, que admitiu considerar o cinema de animação “menosprezado e pouco usado” no séc. XXI.

O que se seguirá na carreira deste homem multifacetado? Por enquanto, não se sabe… Quiçá volte a guiar-nos pelos bastidores da sua vida…!

Autor
Maria Moreira Rato

Se virem uma rapariga com o cabelo despenteado, fones nos ouvidos e um livro nas mãos, essa pessoa é a Maria. Normalmente, podem encontrá-la na redação, entusiasmada com as suas mais recentes descobertas “AVIDeanas”, a requisitar gravadores, tripés, câmaras, microfones e o diabo a sete no armazém ou a escrever um post para o seu blogue, o “Estranha Forma de Ser Jornalista”… Ah, e vai às aulas (tem de ser)! Descobriu que o jornalismo é sua minha paixão quando, aos quatro anos, acompanhou a transmissão do 11 de setembro e pensou: “Quero falar sobre as coisas que acontecem!”. A sua visão pueril transformou-se no desejo de se tornar jornalista de investigação. Outras coisas que devem saber sobre ela: fica stressada se se esquecer da agenda em casa, enlouquece quando vai a concertos e escreve sempre demasiado, excedendo o limite de caracteres ou páginas pedidos nos trabalhos das unidades curriculares. Na gala do 5º aniversário da ESCS MAGAZINE, revista que já considera ser a sua pequena bebé, ganhou o prémio “A Que Vai a Todas” e, se calhar, isso justifica-se, porque a noite nunca deixa de ser uma criança e há sempre tempo para fazer uma reportagem aqui e uma entrevista acolá…!

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