EuroCine Parte I: O cinema francês

 

Como é do nosso conhecimento, o cinema não se concentra exclusivamente em Hollywood. Apesar de vivermos subjugados a uma cultura de massas influenciada pela indústria americana, há variadas obras cinéfilas espalhadas pelos vários cantos do mundo, especialmente na Europa, aqui tão perto de nós.

Estes são os propósitos da nova rúbrica da secção de Sétima Arte, o EuroCine: dar a conhecer várias produções europeias de qualidade, dinamizando a sua cultura cinematográfica, e sugerir sessões de cinema diversificadas a todos os leitores. Se, tal como eu, já estão enjoados dos padrões de consumo americanizados, então este é o artigo ideal para vocês.

O primeiro destino do EuroCine é simbólico. Aterramos em França, berço do cinema, introduzido pelos irmãos Lumière, e atualmente um dos países com mais sucesso a nível mundial na Sétima Arte.

Nunca descurando algumas obras-primas de Hollywood que surgem anualmente, é em solo francês que, na minha opinião, se produzem os mais puros e honestos filmes da atualidade. Abordando muitas vezes a crítica social e a natureza das relações humanas através de técnicas singulares, apresento-vos uma lista com as longas-metragens que melhor celebram o intuito original do cinema.

 

Playtime, de Jacques Tati (1967)

Apesar dos seus cinquenta anos, Playtime é um filme intemporal. Considerado o ponto alto da carreira de Jacques Tati, a narrativa tem lugar num Paris futurístico, repleto de ruas retilíneas e intermináveis prédios de aço. Desenrola-se em seis sequências interligadas por duas personagens: Barbara, uma jovem turista americana, e o icónico Monsieur Hulot, protagonizado pelo próprio Tati. Estes são motores de uma visão desfavorável do urbanismo e da indústria tecnológica, considerados como obstruções para a vida quotidiana e relações humanas. A sua singularidade surge na forma como as personagens manifestam emoções através das suas expressões e movimentos, relegando diálogos para o campo dos efeitos sonoros. É, por isso, um filme que merece ser visto, não só pela vertente crítica, como também por se incluir numa época onde a realização com personalidade ainda era uma constante.

 

Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet (1991)

Passado numa França pós-apocalíptica marcada pela falta de bens subsistentes, onde o trigo serve de meio de pagamento, Delicatessen é um filme indescritível. Uma história tão surreal que nos deixa na dúvida se é genial ou péssimo. Mas, por via das dúvidas, prefiro avaliá-lo num meio termo. A razão pela qual coloco a obra de Jean-Pierre Jeunet nesta lista deve-se à excelente realização, fotografia e forma como histórias soltas se conseguem aliar, com sentido, em prol do desfecho da narrativa. É considerada uma homenagem aos trabalhos de Terry Gilliam, o que não admira, pois o filme assemelha-se a sketches dos Monty Python.

 

Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet (2001)

Simplesmente abreviado para Amélie no resto do mundo, este trabalho de Jeunet é mais consensual que o anterior da lista e é considerado um filme de culto na atualidade. Nomeado para vários prémios, entre os quais cinco da Academia, trata-se de um marco no cinema francês. Os traços mais genuínos do ser humano são expostos em mais uma representação da França Moderna, através da tímida, mas carinhosa protagonista Amélie Poulain. O contraste entre a simplicidade da personagem e a complexidade da sociedade que se insere leva à inevitável ligação com o público, incapaz de não se apaixonar por esta narrativa arrojada e criativa desde o seu primeiro minuto.

 

Entre Les Murs, de Laurent Cantet (2008)

Baseado na autobiografia de François Bégaudeau, Entre Les Murs conta a experiência do autor enquanto professor de Literatura, ao lidar com um grupo de alunos problemáticos. O próprio Bégaudeau interpreta a sua própria personagem no filme que vive muito do improviso dos jovens atores, permitindo captar a essência realista do ambiente escolar e vivências aí ocorridas. Nomeado para Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009, Entre Les Murs venceu o Palme D’Or no Festival de Cannes e foi muito aclamado aquando a sua estreia. O seu mediatismo tem vindo a decrescer desde então, mas não deixa de ser mais um grande exemplo de como França sabe explorar as emoções e comportamentos humanos para fazer cinema.

 

The Artist, de Michel Hazanavicius (2011)

Nomeado para 10 Prémios da Academia, arrecadando 5, entre os quais o de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Ator (Jean Dujardin), The Artist presta uma merecida homenagem aos filmes mudos, provando novamente a qualidade do cinema francês. Uma viagem ao passado, para a década de 20, onde a carreira de um ator de filmes mudos toma um rumo descendente com a ascensão das produções sonoras. Um conceito distinto na era do cinema moderno e que dignificou o valor das narrativas do início do século passado. Como dizem, “uma imagem vale mais que mil palavras”, e The Artist corrobora tal afirmação. Capta a essência dos seus personagens melhor que outros filmes através das expressões e movimentos e prova que é possível criar uma história de qualidade sem recurso a diálogos.

 

Holy Motors, de Leos Carax (2012)

Holy Motors é uma autêntica viagem ao mundo bizarro e obscuro de um sujeito chamado Mr. Oscar. Saltando de pele em pele, Mr. Oscar é um ator na vida real, perdendo-se nas idiossincrasias das personagens que interpreta ao longo do dia. O mistério envolve o enredo do princípio ao fim, tornando-se impossível parar de ver mesmo nos momentos mais mortos do filme. Enigmático e repleto de simbologia, Leos Carax escreveu aquele que é, provavelmente, o filme da lista que mais se aproxima do conceito original da Sétima Arte. Não é para todos os gostos, mas recomendo aos interessados na beleza artística do cinema.

Apesar de me ter limitado a uma lista com seis filmes, podia ter escolhido muitos mais. Para não estender mais este artigo, deixo uma menção a Leon the Professional, The Intouchables e Elle, cuja crítica podem ler aqui. Se quiserem informar-se mais sobre outras grandes obras do cinema francês, também podem dar uma vista de olhos neste vídeo do canal WatchMojo.com. Até à próxima viagem!

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