“Gostamos de flores, mas queremos Direitos”

Março. Mês do da mulher (a propósito, não deveriam ser todos os dias “dia da mulher”?), mês de luta, mês da consciencialização, mas, acima de tudo, mês de nos fazermos ouvir.

Ser mulher é ter a consciência intrínseca de que, à partida, nascemos numa condição inferior ao género masculino. Esta premissa é-nos incutida em casa, na escola, no mundo do trabalho, na nossa socialização do dia-a-dia, em suma, em todo o lado este é ainda o pensamento dominante, ainda que muitas vezes mascarado por um machismo internalizado que às vezes nem as próprias mulheres possuem consciência.

As meninas usam cores pastel, as meninas brincam com bonecas e não se devem sujar, as meninas choram e são vistas como tendo mais sentimentos à flor da pele e suscetíveis a mais alterações de humor e, portanto, mais fracas para assumir qualquer cargo de poder… Mas isto no nosso universo. No universo ocidental, onde somos, ainda assim, seres privilegiados em relação a toda a comunidade do género feminino “não branco” (mulheres africanas, mulheres ciganas, mulheres da europa de leste, mulheres da índia, mulheres da américa do sul etc).

Talvez eu não seja a melhor pessoa para falar de feminismo – ou de feminismos, pela minha falta de ativismo ou até mesmo pela falta de uma leitura profunda sobre o tema; mas Março para mim é um mês que me emociona e que me dá vontade de lutar pelos meus direitos básicos. E talvez dizer “meus” seja, em parte, injusto. Porque sou branca, considero-me de classe média, tenho a possibilidade monetária de ter um quarto em Lisboa e não passei nem passo pela realidade de ser uma mulher, por exemplo, negra, que vive no seu país de origem e é violentada diariamente por todas as formas de tortura que conhecemos, como é caso, a título de exemplo, da circuncisão feminina. Ou de uma mulher negra que vive cá em Lisboa num bairro de lata e sai de casa antes do sal raiar e chega ao final do dia com uns míseros euros no bolso, com toda a realidade social implícita neste cenário. Porque o feminismo, ou os feminismos, são também estas lutas, não só por nós, brancas, de classe média que efetivamente ganhamos menos que os homens, que precisamos de lutar muito mais e de provar que merecemos ascender a cargos de direção, que somos mortas pelos maridos e assediadas constantemente nos locais de trabalho, mas é também a luta por quem vive debaixo de uma opressão cultural castradora.

Todas nós, ou quase todas, gostamos de receber flores, mas o dia 8 de março não é dia para receber flores. Ao invés, é um dia, e eu gosto de dizer que é um mês que se deveria estender ao ano todo, para lutarmos pela igualdade de direitos tão almejada.
Durante o mês de março vão existir diversos eventos para celebrar o mês da mulher, o mês dos feminismos, como é o caso do Festival Feminista do Porto (https://www.facebook.com/festfeminista.porto/); o Festival Feminista de Lisboa, que conta este ano com a sua primeira edição (https://www.facebook.com/FestivalFeministaDeLisboa/); um encontro de Mulheres no Porto (com transporte grátis de Lisboa e alojamento gratuito), na Escola Secundária Soares dos Reis nos dias 10-11 de Março, onde se vai debater precisamente estas questões do feminismo intersecional que mencionei acima (https://www.facebook.com/events/162910304351389/) e, como é já habitual, vai decorrer em Lisboa, no dia 8 de março a marcha de mulheres (https://www.facebook.com/events/1990284797898170/) sob o lema: “Neste 8 de Março, Nós Paramos, Nós Marchamos!”.

É com este mote que termino este artigo, com a urgência de consciencializar para a importância da igualdade de género, não sendo com flores e com doces num dia específico que se mimam as mulheres, mas sim com decisões políticas, que só se alcançam com luta, com reivindicação e com finca pé. Não desistimos, como a Marisa Matias disse no Parlamento Europeu em 2016 “gostamos de flores, mas queremos direitos”.

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