Inovar: a palavra de ordem no regresso de Isaltino a Oeiras

Para a maioria das pessoas, Oeiras constitui um importante polo económico, talvez por acolher o TAGUSPARK. Para outras, é o segundo concelho com maior poder de compra e a maior concentração de população que completou o Ensino Superior. A verdade é que o Sillicon Valley europeu foi palco de uma das campanhas eleitorais mais controversas dos últimos anos e a ESCS MAGAZINE não poderia deixar de analisar o nascimento, a evolução e a vitória do movimento independente Isaltino – Inovar Oeiras de Volta (IN-OV).

 

A controvérsia da candidatura
Termos como fraude fiscal, abuso de poder, corrupção passiva ou branqueamento de capitais não são estranhos para os oeirenses. Em 2009, o Tribunal de Sintra condenou Isaltino Morais ao pagamento de 463 mil euros, por comportamentos como a receção de dinheiro ilicitamente ou o depósito de dinheiro em contas bancárias na Suíça, através do cargo de Presidente da Câmara de Oeiras.

Entre agosto de 2009 e abril de 2013, Isaltino Morais interpôs 44 recursos, alegando sempre a sua inocência, no entanto, foi detido a 24 de abril de 2013 e libertado do Estabelecimento Prisional da Carregueira apenas a 24 de junho de 2014 – cumpriu o resto da pena em liberdade condicional até 2015, não podendo ausentar-se do país e tendo que viver em Miraflores, sua residência oficial.

Já a última candidatura, em 2009, teve contornos dúbios. Isaltino estava com pena suspensa e ainda assim conseguiu alcançar a vitória com o movimento Oeiras Mais à Frente.

Para as entidades do estabelecimento prisional em que esteve preso (desde chefes dos guardas a equipas de reinserção social), Isaltino devia ser libertado porque “assumia a prática dos factos criminosos, verbalizava arrependimento e demonstrava constrangimento pela situação em que se encontrava”. Já o Ministério Público constituía tudo menos um elemento da defesa do político, argumentando que “não ficaram demonstradas quaisquer razões fundadas e sérias que possam fundamentar um juízo de que, futuramente, não cometerá novos crimes”.

Se em 2015, Isaltino afirmava ao Diário Económico que “vários partidos” já o tinham convidado para regressar à vida política e que a morte nessa esfera “é um ato de purificação”, em 2017 apresentou a sua candidatura à Câmara Municipal de Oeiras – nem aí teve a vida facilitada, pois a mesma foi rejeitada a 8 de agosto pelo juiz Nuno Cardoso, cujo padrinho de casamento foi Paulo Vistas (Presidente da CMO entre 2013 e 2017) que alegou irregularidades na recolha de assinaturas.

O juiz acabaria por ser afastado do processo, a candidatura aprovada a 14 de agosto e a normalidade reposta no processo eleitoral, nas palavras da equipa de Isaltino Morais.

 

As premissas do programa eleitoral
A morte na política pode ser vista como um ato de purificação pelo político, porém, nunca deixou de realçar: “a ressurreição é sempre um estádio mais elevado”. No entanto, há pessoas que não concordaram com o seu regresso, incluindo Paulo Vistas, que hoje acusa Isaltino de “arrogância para com os eleitores” e de ter aprendido “tudo o que se deve e não deve fazer”, mas um dia foi seu discípulo, tendo sido vice-Presidente da CMO entre 2005 e 2013.

O início do programa eleitoral do movimento IN-OV, começa com o chavão “Oeiras vai liderar um novo ciclo de desenvolvimento”, com razões como “mudou substancialmente de dormitório da periferia próxima da capital” para o justificar. O ressentimento é notório e se Vistas gosta de passar uma esponja pelo passado dizendo que está grato pelos ensinamentos que lhe foram transmitidos, Isaltino vai mais além: “A Oeiras de hoje ainda vive muito da dinâmica que um dia teve: No mandato anterior, e salientando apenas alguns equipamentos importantes, foram inaugurados dois centros de saúde, com hipótese de um terceiro, dois lares da 3ª idade, a última fase do Parque dos Poetas, um novo troço do Passeio Marítimo, o Complexo Desportivo de Porto Salvo e dois edifícios de habitação jovem nos centros históricos. Tudo isto são projetos e obras que eu próprio deixei em andamento quando saí da Câmara, em 2013”.

Estes motivos eram suficientes para que os media e até mesmo a população acreditassem que se tinha iniciado uma autêntica caça às bruxas em Oeiras, mas a três meses das eleições, aquele que foi o Presidente do concelho entre 1985 e 2009, fez questão de evidenciar: “não haverá nenhuma obra para inaugurar no próximo mandato, a não ser as que eu próprio tenciono lançar, no caso de ser eleito”.

“É esta Oeiras sem visão e sem futuro que eu não posso aceitar” – esta é uma das frases que podemos encontrar naquela que é denominada por “mensagem do candidato à Presidência da Câmara Municipal”.

Em relação às prioridades adotadas, Isaltino e os candidatos às juntas de freguesia do concelho foram claros. Na educação, o princípio é: “(…) onde queremos os melhores alunos do país. E vamos tê-los!” e na habitação: “(…) com programas para famílias carenciadas, mas, também, para a classe média depauperada, que hoje não tem condições para adquirir casa no mercado privado. Os nossos jovens poderão, novamente, viver em Oeiras!”.

Mas nem só de parágrafos motivadores foi feito o programa para as eleições autárquicas, pois no capítulo dedicado à mobilidade, o SATU (Sistema Automático de Transporte Urbano), também conhecido por “comboio fantasma de Oeiras” mereceu destaque: “apostar na construção da segunda fase do SATUO, permitindo de uma forma amiga do ambiente, rápida e a preços mais favoráveis, transportar os utentes da estação de Paço de Arcos para o Lagoas Park e para o TAGUSPARK. Ficarão assim criadas as condições para dar continuidade à ligação ferroviária até ao Cacém, garantindo deste modo a conclusão de um projeto essencial à mobilidade na região da grande Lisboa que consiste na ligação da linha de Cascais-Oeiras-Lisboa à linha de Sintra. Oeiras será desta forma zona absolutamente central e privilegiada no que respeita ao transporte na grande Lisboa”.

Aquele que é encarado como “o sonho ferroviário de Isaltino” pode ter consistido num fracasso, mas o atual Presidente da CMO teve visão: em 1997, quando esteve em Sydney, inspirou-se no Sydney Monorail, um automated people mover, para resolver “os problemas de mobilidade do concelho”.

Hoje, o SATU, fruto de uma parceria com a Teixeira Duarte e que ligou Paço de Arcos ao Oeiras Parque durante onze anos, já não se encontra em funcionamento.

Desde a Avenida do Futuro, que unirá o Oeiras Parque ao TAGUSPARK e dinamizará os serviços e o comércio, passando pelo Oeiras Business Center que receberá congressos, feiras e exposições ou o Parque Ecológico da Serra de Carnaxide (com cerca de 50 hectares), constata-se que aqueles que são encarados como “projetos e equipamentos estratégicos” continuam a ser o ponto forte nas apostas de Isaltino Morais.

 

Quem fez parte da equipa de Isaltino?
“Os candidatos a presidentes das Uniões e Juntas de Freguesia nunca antes ocuparam tais cargos. Os candidatos à Vereação e à Assembleia Municipal, na sua muito larga maioria, nunca antes foram vereadores ou deputados municipais”, escreveu Isaltino Morais no seu compromisso para com os oeirenses.

Relativamente às candidatas com experiência política, podemos considerar duas: a Assembleia Municipal contou com Elisabete Oliveira, tem 70 anos e é licenciada em Psicologia. Foi membro da Assembleia Municipal de Oeiras entre 1979 e 2005 e vereadora da Cultura, Ação Social e Património Histórico e Museológico entre 2005 e 2013 e Madalena Castro, de 61 anos, que deu a cara pela união de freguesias de Oeiras, S. Julião da Barra, Caxias e Paço de Arcos, que entre outras funções, foi coordenadora do Gabinete de Relações Públicas do TAGUSPARK e vereadora da CMO, onde teve pelouros relacionados às Obras Municipais, ao Ambiente e aos Espaços Verdes.

Quanto aos candidatos sem qualquer experiência política prévia: as freguesias de Carnaxide e Queijas receberam um candidato de apenas 40 anos, Inigo Pereira, licenciado em Comunicação, mestre em Novos Media e Práticas Web e que exerce funções na CMO na área da comunicação; Rui Teixeira, 47 anos, candidato por Algés, Linda-a-Velha, Cruz Quebrada e Dafundo nunca se envolveu politicamente, mas sendo detentor de duas empresas com sede social em Oeiras, sentiu a necessidade de “mudar vidas e deixar marca”; Sandra Marques Cortes, candidata por Barcarena, é advogada e sente que a freguesia em que vive foi esquecida e Susana Gomes, de 38 anos, licenciada em Sociologia e que afirma: “serei uma presidente de junta que cuidará com brio do nosso território”.

 

Quem apoiou Isaltino?
A ESCS MAGAZINE teve a oportunidade de conversar com alguns dos militantes do movimento encabeçado por Isaltino Morais, que nos elucidaram acerca dos motivos pelos quais decidiram apoiar o jurista mesmo após a pena de prisão que cumpriu.

“A reação que tive quando soube que a candidatura de Isaltino Morais tinha sido aceite foi de bastante alegria, pois acompanhei a campanha durante os últimos dois meses”, declarou Ruben Violas, de apenas 17 anos. Quando questionado acerca do papel que desempenhou nas últimas eleições autárquicas, explica que foi representante da juventude de Carnaxide e Queijas, onde abordava os jovens e lhes perguntava acerca daquilo que gostariam de ter naquela União de Freguesias. Naquilo que diz respeito à confiança que deposita em Isaltino para assumir as rédeas do concelho, Ruben rematou com confiança: “Sei que a CMO nas suas mãos vai evoluir ainda mais, pois durante os anteriores mandatos fez tudo pelo concelho. Oeiras vai voltar a estar bem entregue”.

Inigo Pereira, Isaltino Morais e Ruben Violas

Carla Brito da Costa, empresária de 43 anos, começa por dizer: “Senti que foi feita justiça”, acrescentando: “Se a lei permite a candidatura, não vejo justificação para a mesma ser impugnada com uma justificação sem nexo”. Na opinião de Carla, apoiante de Isaltino desde que o político começou a candidatar-se como independente, “devem ser os oeirenses a decidir quem querem a governar o seu município”. Tem quase tantos anos de Oeiras como os de vida e remata: “Toda a evolução do concelho se deve ao trabalho realizado pelos mandatos do Presidente Isaltino Morais”.
Gil Costa, 56 anos, amigo do atual Presidente da CMO desde 1985 (quando o mesmo foi escolhido para encabeçar a lista do PSD à CMO e ganhou com 44,4% dos votos), começou por revelar: “Desde que o conheci, vi erguer-se toda uma obra no concelho que mais nenhum conseguiu fazer. Como homem, é um ser fora do normal, de uma inteligência super agradável e de uma mentalidade focada no futuro”. Sobre a última campanha, é direto: “O meu papel foi ensinar aos mais novos o que é fazer uma campanha feliz e ter a convicção de que seremos vencedores”. Gil não se esquece do dia em que o Tribunal de Oeiras aceitou a candidatura do autarca: “Isaltino apelou várias vezes à calma, mas a espera pela resposta foi complicada. A minha amizade por ele só cresceu: estive todo o dia na sede mãe em Linda-a-Velha, à espera do resultado que só foi divulgado pelas 18 horas. Dizer que não sofri seria uma mentira, mas preparei uma receção ao Dr. Isaltino e vi a felicidade espelhada na cara do Presidente do povo de Oeiras, de quem sempre serei um amigo fiel!”.

Isaltino Morais e Gil Costa

 

A noite eleitoral
O centro de congressos do Lagoas Park Hotel, em Oeiras e não nenhuma das sedes de campanha de Isaltino (como seria de esperar), acolheu a celebração da noite eleitoral do movimento do autarca.

A ESCS MAGAZINE teve a oportunidade de conversar com Inigo Pereira, quando ainda era candidato à presidência da União de Freguesias de Carnaxide e Queijas. No seu manifesto eleitoral, podia ler-se: “Acredito ser capaz de melhorar a articulação com a câmara. Acredito ser capaz de melhorar as políticas sociais de proximidade com as populações da união de freguesias”. Durante a entrevista, tentámos entender se a alegada informalidade e compreensão para com os cidadãos se confirmavam e quais as medidas imediatas que pretendia executar caso vencesse.

Já os resultados preliminares eram conhecidos quando Francisco Rocha Gonçalves, diretor de campanha do movimento político, discursou. Começou por dar ênfase a um aspeto fulcral: “A abstenção baixou em Oeiras e esse sempre foi um dos nossos objetivos durante a longa campanha que desenvolvemos” – de facto, a abstenção foi de 53,3% em 2013 e este ano não chegou aos 50%. De seguida, agradeceu o apoio mas realçou que todos deviam aguardar pela oficialização dos resultados, não confiando a 100% nas projeções.

Eram 20 horas quando, nos dois ecrãs estrategicamente colocados nos extremos do palco, os distritos começavam a surgir. Quando foi indicado que Oeiras seria governada nos próximos quatro anos por Isaltino, que ganhara com 41,65% dos votos, apenas foi possível ver manchas verdes a saltar, correr, gritar e bandeiras da mesma tonalidade a serem agitadas no ar. Mas a festa não foi apenas feita devido aos resultados favoráveis na Câmara Municipal. O movimento ganhou com 38,12% para a Assembleia Municipal e em todas as freguesias excetuando em Porto Salvo, onde perdeu para o PS, atingindo 31,95%.
A chegada de Isaltino foi anunciada pelos militantes, que se juntaram na entrada do hotel com tochas verdes, iluminando o seu caminho até ao palco.

“Isaltino, Isaltino, Isaltino!” ouvia-se, entre palmas e o frenesim dos apoiantes e dos jornalistas que, por motivos distintos, tentavam estar o mais perto possível do político. Durante alguns segundos, Isaltino limitou-se a olhar para a plateia, num misto de nervosismo e surpresa, mas iniciou o seu discurso de forma triunfal: “Um poder não é a cadeira. Um poder é a capacidade para ouvir as pessoas, para as escutar, entendê-las, compreendê-las. Mas esta altura não é para discursos com dimensões dramáticas, sei que estamos aqui para festejar, e eu quero expressar aqui em primeiro lugar o meu agradecimento aos oeirenses: não sei ainda qual é a expressão da abstenção, mas espero que seja menor e se assim for, é positivo para Oeiras e para a democracia”. De seguida, referiu que não convidou ninguém para se juntar a si na candidatura: “as pessoas assinaram-na e muitas delas acabaram por integrar as listas, o que quer dizer que a maioria nunca teve experiência política ativa e essa é a demonstração de que o poder local é a expressão máxima da democracia no nosso país!”. O cliché não poderia ter faltado: “Nos próximos quatro anos, nós vamos cumprir aquilo que prometemos! Os oeirenses têm demonstrado uma maturidade política sem limites e não podemos deixar de corresponder às suas expectativas!”.
Mariana Lima Cunha, antiga escsiana e atual jornalista da secção de Política no Expresso, assistiu à noite eleitoral e revelou à ESCS MAGAZINE que fazer parte de um evento como este é diferente de assistir às eleições a partir de casa: “Estamos no olho do furacão, a adrenalina é maior e sobretudo para quem acompanhou uma candidatura em específico é gratificante poder estar lá no culminar de tudo, que é a noite eleitoral, e quase que encerrar uma espécie de capítulo. Eu já sentia a adrenalina a partir de casa ou da redação, mas é completamente diferente – mais interessante e motivador, no mínimo – estar no local onde tudo acontece, ver como a noite se processa, contar com a presença do candidato, etc. Vivido assim é, como jornalista, mais gratificante”. A jovem jornalista enfatizou ainda: “Foi o regresso de um autarca com uma história polémica, nomeadamente em relação à sua condenação por fraude fiscal e branqueamento de capitais, e talvez por isso Isaltino tenha puxado tão insistentemente pela questão da vitória da democracia e da independência no seu discurso”.

 

O rescaldo das autárquicas
Na nota de agradecimento publicada nas redes sociais, Isaltino Morais escreveu: “Os resultados das eleições do passado domingo representaram, uma vez mais, um momento de comunhão entre os anseios do Povo de Oeiras e aquilo que propusemos para o futuro da nossa terra. Propusemos um novo ciclo de desenvolvimento para Oeiras. Mais próximo, mais solidário, mais virado para as pessoas, sua felicidade, dignidade e bem-estar”.
É muito cedo para tirar conclusões acerca do mandato, até porque a tomada de posse da assembleia e da câmara municipais só se realizou dia 21 de outubro, mas uma coisa é certa: Isaltino prometeu que Oeiras será inovada de volta e terá de cumprir.

Autor
Maria Moreira Rato

Se virem uma rapariga com o cabelo despenteado, fones nos ouvidos e um livro nas mãos, essa pessoa é a Maria. Normalmente, podem encontrá-la na redação, entusiasmada com as suas mais recentes descobertas “AVIDeanas”, a requisitar gravadores, tripés, câmaras, microfones e o diabo a sete no armazém ou a escrever um post para o seu blogue, o “Estranha Forma de Ser Jornalista”… Ah, e vai às aulas (tem de ser)! Descobriu que o jornalismo é sua minha paixão quando, aos quatro anos, acompanhou a transmissão do 11 de setembro e pensou: “Quero falar sobre as coisas que acontecem!”. A sua visão pueril transformou-se no desejo de se tornar jornalista de investigação. Outras coisas que devem saber sobre ela: fica stressada se se esquecer da agenda em casa, enlouquece quando vai a concertos e escreve sempre demasiado, excedendo o limite de caracteres ou páginas pedidos nos trabalhos das unidades curriculares. Na gala do 5º aniversário da ESCS MAGAZINE, revista que já considera ser a sua pequena bebé, ganhou o prémio “A Que Vai a Todas” e, se calhar, isso justifica-se, porque a noite nunca deixa de ser uma criança e há sempre tempo para fazer uma reportagem aqui e uma entrevista acolá…!

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