No Outono, os vendedores de castanhas saem à rua

O cheiro a castanhas assadas já se sente por toda a capital. Estamos em novembro e, neste que é o mês de S. Martinho, podemos encontrar vendedores de castanhas em diversos locais – desde os mais turísticos até àqueles de que ninguém ouve falar. Aquilo que deles conhecemos é apenas que vendem castanhas no inverno, mas por detrás da profissão há uma pessoa. A D. Elisabete e o Sr. José são dois vendedores de castanhas, em dois sítios diferentes, com histórias diferentes. Fomos conhecê-los.

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São 11h da manhã, e, entre a habitual correria dos lisboetas e os passeios tranquilos dos turistas, junto à estação do Rossio, é visível o fumo vindo dos assadores de castanhas, que se dissipa por toda a parte e leva até às pessoas o cheiro das castanhas assadas. A D. Elisabete está no local habitual; há mais de trinta anos que ali vende castanhas e, “se Deus quiser”, ali estará “enquanto puder trabalhar”. Vemo-la atrás do fumo do assador, a preparar aquele que será mais um dia de trabalho. A face marcada pelo tempo não esconde um sorriso, que teima em aparecer.

Elisabete sempre vendeu castanhas. Já os pais o faziam. Gosta do que faz e agora não o trocaria por nada. Mas estudou e teve um sonho: queria ser advogada. “Tirei o quinto ano antigo e o curso de datilógrafo”, revela-nos, com a voz tremida. A vida trocou-lhe as voltas.

Traz o cheiro a castanha assada à praça do Rossio de outubro a março. No verão vende gelados em Benfica. Diz que os portugueses já estão habituados, mas que os turistas se mostram surpreendidos e fazem muitas perguntas. “Perguntam porque é que as castanhas ficam brancas, se a gente mete açúcar!”, diz-nos no meio de uma gargalhada. Explica-nos que só as castanhas vendidas na rua é que ficam com aquela cor, “por causa do carvão; nós trabalhamos com carvão mineral, não é o vegetal, e como isto é barrado a barro, o conjunto das duas coisas faz com que saiam com esta cor”.

Diz que o segredo para assar as melhores castanhas está no lume –“porque estes lumes apagam-se de baixo para cima, nunca pode ficar oco. Se o carvão ficar com um buraco no meio, começa-se a apagar e tem de se acender tudo de novo”.

Esboça um sorriso quando nos fala do filho. Acredita que vai seguir os seus passos. Elisabete é uma mulher feliz, com as castanhas, o lume, os turistas e o Rossio.

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Na Damaia, encontramos o Sr. José. Vende castanhas naquele sítio, em frente à estação de comboios, há mais de trinta anos; no verão são os gelados. Ali, todos o conhecem e chamam-lhe “o senhor das castanhas”. “Por acaso, na internet, tenho lá várias fotografias minhas!”, responde-nos, quando lhe dizemos que vai aparecer num site. Aos fins de semana, vende castanhas no Cabo da Roca – é lá que os turistas decidem fotografá-lo, ao “castanheiro, com a boininha enfiada na cabeça, ali, no inverno, todo cheio de frio”.

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Teve vários empregos. Trabalhou na indústria hoteleira, em Lisboa e no Algarve. Um dia, disseram-lhe: “Zé, faz-te às castanhas!”. Nunca mais mudou de vida. “Até poder, vou continuar a fazer isto; um dia que não venha à venda já não é um dia, já não ando bem, já estou tão habituado a isto. Já não me sinto bem em casa”.

Gosta do contacto com as pessoas, de falar com elas, de lhes explicar como é que tudo funciona. Principalmente os estrangeiros, aqueles que lhe tiram fotografias, os “da China, do Vietname, do Japão, de Itália, de Inglaterra”. “Adoram ver isto, há pessoas que nunca viram um assador de castanhas, especialmente na Ásia”, diz-nos com entusiasmo, enquanto prepara as castanhas para as pôr a assar.

Ao contrário de Elisabete, acha que o filho não vai dar continuidade à sua profissão – “tem o emprego dele, nunca precisou”. Confidencia-nos que as pessoas nem sempre têm a melhor opinião sobre os vendedores de castanhas, e conta-nos o trabalho que envolve estar ali todos os dias: “isto dá muito trabalho. É o frio, é ir buscar castanhas ao norte, como eu tenho ido, são as despesas, é o carvão, o sal…não é só lucro”.

Com o passar dos anos, as vendas diminuíram, o negócio já não é como antigamente – “cheguei a vender 14 toneladas, na Damaia, aqui à beira dos arcos; embora também desse muitas…não pode ser só as 12 castanhas, tem de se dar mais três ou quatro para cativar o cliente”.

Apesar de nunca ter imaginado que esta viria a ser a sua rotina, hoje, o Sr. José confessa que tem muita estima por aquilo que faz: “é muito tempo…tenho gasto a minha juventude a vender castanhas e gelados, mas está bem, gosto disto…gosto mesmo desta profissão!”.

O Sr. José e a D. Elisabete são felizes. Quando lhes perguntamos aquilo de que menos gostam na sua profissão, as respostas são iguais e peremptórias: “é de levar com o fumo!”

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Autor
Catarina Pereira

Tem uma enorme paixão por livros e um dos seus maiores sonhos é dar a volta ao mundo. Quis mandar a Ciência para trás das costas e dedicar-se ao Jornalismo, porém ainda anda à descoberta daquilo que quer fazer “quando for grande”.

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