O bully, o liceu e o “cacifo”

Considero-me um extremista no que toca a temáticas sociais. Sou pró-gay, tanto no que se refere ao matrimónio como à adoção, e pró-aborto. Sou a favor da legalização da prostituição e da legalização, não só das drogas leves, estilo marijuana, como também das pesadas, estilo ouvir a “Baby” do Justin Bieber em repeat. Tenho aversão a figuras de autoridade e a dogmatismos religiosos. Apoio a destruição coletiva de todas as obras literárias da Margarida Rebelo Pinto, de forma a conseguir que, daqui a um par de gerações, o quociente de inteligência médio da população portuguesa suba dois ou três pontitos – purificar o gene pool. São as pequenas coisas, sabem? Grão a grão…

Não obstante, e como, ao contrário do nosso querido Presidente D. Duarte de Bragança, eu me engano e tenho dúvidas com frequência, há matérias que me suscitam alguma contenção por falta de outro vocábulo.

Sei em primeira mão o que é o bullying. Tenho cicatrizes, não só em formato de recibos do psicólogo, mas também em formato de danos irreversíveis causados à minha autoestima e à minha virilidade (a pouca que me resta, diga-se já de passagem). Eu era um lingrinhas antissocial e marrão aka um alvo fácil, ao contrário de hoje, em que sou um gajo antissocial e marrão, mas já a virar para o gordo. Com estes soberbos ingredientes tínhamos reunidas as condições necessárias para um pequeno-almoço diário à base de terrorismo de recreio. Era o alicerce da pirâmide alimentar, meus amigos.

Hoje, olho para trás e penso: ao menos não era gay. Não com qualquer tipo de malícia, obviamente, e muito menos com orgulho, mas sim com uma espécie de malfadado alívio.

Acredito piamente que o liceu é a pior fase na vida de um indivíduo. A pressão familiar para escolher a área de estudos correta e para se ter uma grande média, a sobrecarga de horários e o stress escolástico, mas, acima de tudo, aquele estrangulamento social, tão clássico da adolescência frustrada. Se juntarmos a isto a humilhação a que centenas de milhares de jovens são submetidos diariamente, temos bem delineado o caminho para uma espiral autodestrutiva. Não é de admirar o facto de a taxa de suicídio atingir picos estatísticos nessas idades.

Agora, seguindo o meu raciocínio, acrescentem a homossexualidade e todo o estereótipo ignorante que essa orientação sexual arrasta. Todas as ofensas e agressões, muitas das quais ocorrem dentro do próprio seio familiar. A bílis que é cuspida, o calão que é usado, as pedras que são arremessadas. Valerá a pena? Qual é a alternativa? Fingir que se é outra coisa? Ter vergonha de nós próprios?

Agarro esta ideia com força e pergunto-me qual será genuinamente o caminho certo: aceitar a nossa verdadeira sexualidade durante uma fase da vida em que esse tipo de exposição pública é um jerrican de gasolina tão volátil em que arriscamos ficar com cicatrizes mentais para o resto das nossas vidas, ou escondermos, cobardemente, talvez, a atração que sentimos e apenas sairmos do, e só para completar o estereótipo, “cacifo” quando chegarmos à universidade, onde a abertura de mente é absolutamente incomparável à estupidificação colegial?

Não sei a resposta. São demasiadas as variáveis para serem conjugadas. Demasiados cenários possíveis para serem medidos. Deveríamos combater a raiz do problema, a homofobia em si, é claro, mas nem sempre é possível erradicar-se o ódio. Concluo, em toda a seriedade, com a frase de abertura deste artigo que vos deixo em baixo:

“Lesbian, gay, bisexual, and transgender young adults who experience high levels of anti-LGBT victimization as teens are 5.6 times more likely to report suicide attempts.”

Este artigo é escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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