Sofrer por antecipação

E pronto, passados três meses de total desleixo e lazer, o dia de regressar à ESCS chegou. Aí a meio de agosto, já estava desejoso de alguma “ação”, de fazer alguma coisa produtiva; agora que as férias acabam, estou já a pensar nas próximas. Mas isso não é algo que já não tivesse dito. Podia ter passado estas últimas semanas a preparar-me para este último ano de curso, mas preferi comprar um jogo. Já fiz as pazes comigo próprio por me ter desleixado quando tinha jurado a mim mesmo que não o iria fazer. Provavelmente, estas foram as minhas últimas férias de três meses, por isso acho que fiz bem em “aproveitar”. Ou então só arranjo emprego depois de terem passado três meses depois do fim do semestre. Seria uma boa ideia?

De qualquer maneira, é essa a grande preocupação de quem está a iniciar o último ano de universidade. Como é que vai ser quando o ano acabar? Conseguir-se-á arranjar emprego? Mesmo quem ainda nem sequer começou os seus estudos superiores prevê essa situação. E arranjar-se-á emprego na área para a qual andámos três anos a prepararmo-nos enquanto os nossos papás e mamãs pagavam para que pudéssemos andar a maior parte do ano na palhaçada para depois, na altura dos exames, se fazerem 20 diretas seguidas e chumbar a, pelo menos, uma cadeira? Enfim, se os primeiros dois anos foram um frenesim, nem imagino como vai ser este ano. Acho que os alunos universitários devem criar um GoFundMe para um abastecimento anual de Xanax.

Mas antes de nos preocuparmos em arranjar emprego (sobretudo aqueles que ainda não arranjaram um estágio qualquer), devemos aproveitar este ano de estudo, que será, creio, para muitos, o último. Digo isto porque o dinheiro não sai dos intestinos de ninguém, a não ser que tenhamos pais ricos ou que nos saia o Euromilhões. É compressível que

quem tenha problemas de guito queira arranjar emprego o mais rapidamente possível, mas, para além de a universidade

servir para nos preparar para arranjarmos emprego numa área que, à partida, será aquela que escolhemos estudar, os estudos superiores não devem ser vistos apenas de um ponto de vista económico, isto é, um investimento com retorno monetário quase imediato. Os estudos superiores devem servir, sem dúvida, como preparação para um emprego na área da nossa escolha, se assim o entendermos. Ou, então, devem servir como preparação para um emprego cujas bases tenhamos conseguido obter durante o curso, mesmo que esse emprego não seja especificamente aquele para o qual nos prepararam. Mas, na minha opinião, os estudos superiores devem atuar, sobretudo, como um “desbloqueador de mente”, na medida em que devemos ganhar consciência daquilo que realmente queremos fazer da nossa vida.

Eu percebi durante este curso que não quero ser jornalista o resto da minha vida. Com sorte, terei vontade de ser jornalista durante mais de três ou quatro anos. Percebi que gosto muito de escrever e que esta é a melhor forma de eu espelhar quem realmente sou e aquilo que penso, e, por isso, quero fazer algo que me permita escrever. Se, por acaso, for jornalista, quero fazer algo relacionado com desporto, mas isso já sabia que queria. No entanto, também não quero fazer isso durante muito tempo. Em suma, não quero fazer nada durante muito tempo. Tenho ambições em outras áreas que têm pontos de contacto com o jornalismo, a arte de contar histórias, a escrita (criativa ou simplesmente catártica), e, até, com o desporto. Falo de mais do que uma coisa. Confirmei durante este curso que não me contento com nada. Mesmo se tivesse tudo de tudo, iria arranjar maneira de apontar um defeito qualquer. No início do curso, eu não tinha percebido nada disto. Sabia que queria fazer jornalismo desportivo e mais nada. Passados dois anos, aqui estou eu.

Resumindo, se perceberem que alguma coisa mudou durante estes dois anos na forma como veem a vossa vida desenrolar-se, então, a universidade fez-vos bem. Se não, também não digo que vos tenha feito mal, mas talvez ainda não tenham percebido aquilo que mudou. Certamente algo mudou na forma como todos vemos o mundo e isso é aquilo que torna um estudo superior tão valioso. Havemos de arranjar emprego de qualquer maneira, se nos esforçarmos e mostrarmos competência naquilo a que nos comprometermos a fazer. Se ainda não perceberam bem tudo isso, ainda têm um ano para o fazer. Entretanto, organizem-se, façam aquilo que vos compete no que toca ao vosso curso quando têm algo que fazer (ou seja, 97% do tempo, sensivelmente), divirtam-se quando tiverem tempo e disponibilidade, e tentem dedicar um tempinho a coisas que não são necessariamente prioridades, mas que vos possam ajudar noutras coisas. Leiam um livro, escrevam, façam exercício, façam aquilo que acharem melhor para aquilo que bem entenderem. E durmam bem. Não tenham um esgotamento nervoso por causa disto porque não vale assim tanto a pena. São três anos importantes, mas são só três. No entanto, isso não é desculpa para nos armarmos em parvos. Perdoem-me o tom à Gustavo Santos em algumas destas frases. Um bom ano letivo para todos.

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