O Mercantilismo Político
É amplamente reconhecido o facto de que a política e os seus protagonistas integram fundamentalmente o nosso quotidiano. Deputados, medidas, economia, guerra, parlamento, esquerda, direita, democracia. Conceções sobre como a vida deve ser vivida, projeções de modelos que prometem oferecer um caminho necessário à prosperidade iminente de um conjunto popular.
Este debate não deve ser encarado de ânimo leve. Questões políticas parecem influenciar direta e inevitavelmente a vida de qualquer pessoa inserida numa sociedade minimamente organizada, seja onde for. As premissas mais profundas do trabalho político escondem-se, ocultas pela ignorância de quem desconhece o facto de ter os seus passos determinados por escolhas ideológicas alheias, quaisquer que sejam: o que se consome, como se alimenta, o seu estado de saúde, a sua literacia académica, que religião segue, etc.
O substrato de uma sociedade é a teia política onde assenta, protagonizada pelos seus representantes. Mas e se essa teia se revelar defeituosa e instável? É totalmente plausível, não é? Pode-se verificar a incompatibilidade que algumas sociedades têm com a prática de determinadas medidas. Há, de igual forma, narrativas baseadas em intolerâncias falaciosas que prejudicam profundamente aqueles que são abrangidos pelo preconceito resultante.
Se as bases ideológicas existentes são representadas por determinados indivíduos, os denominados “políticos”, então que é provável que existam políticos a representar as mais diversas indecências. Se a política está presa na sombra de todos, não seria universalmente indesejada a possibilidade de chegada destes representantes a posições elevadas, tão impactantes na vulnerabilidade do dia a dia?
Mas quem é que decide o que é indesejável? Muitos considerá-lo-iam intrinsecamente subjetivo. Surge, assim, o debate público: adeptos de diferentes visões tentam convencer-se mutuamente de que a aderência geral à sua própria visão é o caminho indicado à prosperidade. Este debate acontece tanto a nível coloquial (no café, entre amigos, nas redes) como a nível institucional, nos parlamentos e nos órgãos de comunicação social, sendo utilizado por quem pretende alterar as convicções da população. Afinal, convencer figuras representativas amplamente reconhecidas seria um passo importante na divulgação ideológica.

Existe, porém, um pequeno problema: dificilmente se consegue convencer os políticos de que as suas convicções possam vir a estar erradas. Para fazer alguém questionar crenças a níveis práticos, dita pessoa não pode ser patrocinada pelos ideais que defende, uma vez que o seu interesse será proteger o conforto em continuar a ser remunerado pela defesa da base ideológica que lhe oferece esse sustento.
Debates que civis possam vir a ter com representantes partidários nunca irão decorrer de maneira intelectualmente honesta , sendo verdadeiramente concebível que o sujeito se envergonhe perante o logicamente óbvio e decente. Mudar de opinião publicamente é arriscar a imagem de coerência e firmeza, e perder a capacidade de capitalização das filosofias é inconveniente.
Desta forma, a estagnação não é um acidente, mas um requisito estrutural. Os patrocinados estão irremediavelmente presos aos seus patrocinadores, o que impossibilita qualquer mudança consensual que tenha como norte o melhor para o país. O debate, que nos é vendido como a ferramenta de conciliação, revela-se um exercício aborrecido e inalcançável.

É esta a natureza da política que me afasta do interesse, da participação e da crença em que o debate pode realmente servir para alguma coisa. Tornou-se um ambiente vazio e desalmado, constituído por objetivos falsos e convicções superficiais. Enquanto os políticos forem mensageiros passivos de uma teoria, anunciantes de um discurso pseudodialético, enquanto se mantiverem estáticos, lado a lado, balbuciando frontalmente o porquê de a compra de certos valores oferecer vantagem normativa (de frente para a quarta parede, nunca tentando chegar a qualquer consenso), vão continuar a reger-se pela sua previsibilidade insolucionável que torna tudo tão imensamente maçador. Não porque os temas de relevo devam ser desvalorizados, muito pelo contrário. A guerra, a fome, a doença e o futuro do planeta continuam a ser temas incontornáveis. São aborrecidos os debates onde ninguém cede, onde o adversário nunca deve ter razão. Afinal, assumir derrota é confessar a fraqueza do próprio paradigma, o defeito de fabrico do seu produto, quando confrontado com um capaz de desconstruir as condições das suas premissas.
Há exceções, claro. Políticos apoiados e financiados por cidadãos interessados, que assumem quando a sua visão falha, que não se deixam perder em dogmas cegantes extrapolados de uma mistura entre fé absoluta e dependência financeira. Não obstante, a regra é, por definição, aquela que molda o ambiente do sistema político. As exceções não são suficientes para promover a reforma de um sistema repleto de maus exemplares.
Fonte: Pixabay
Artigo corrigido por: Ariana Valido
AUTORIA
O António, de 18 anos, é um rapaz especialmente curioso, com interesse na envolvência da sociedade. Adora filosofia, e de pensar sobre aquelas camadas da existência que aparentam ser invisíveis à percepção. Pratica, no Substack, a articulação de postulações reflexivas, que representam a intriga inevitável do pensamento inquietante. Vibra com hip-hop melódico, e encontra na escrita e na criatividade uma forma de se expressar e crescer. Também procura aplicar o pensamento crítico no seu quotidiano, em busca da veracidade nas suas convicções. Parte desse quotidiano passa, portanto, por aziar no Fifa.

