Beatriz Pessoa mostra “Muito Mais” de si
Editado a 27 de março, Muito Mais é o terceiro longa-duração de Beatriz Pessoa.
Se anteriormente Beatriz Pessoa parecia conter-se numa elegância jazzística, aqui a timidez é atirada pela janela em prol de uma honestidade crua e dançável. No seu terceiro disco, a cantora e compositora lisboeta abraça o caos das referências – do trap à música barroca, passando pela salsa, cruzando décadas e hemisférios – para assinar o seu trabalho mais honesto e performativo até à data, mostrando Muito Mais de si.
O sucessor de Prazer Prazer (2023) é, nas palavras da própria, um “fazer as pazes” com a indústria musical e com as suas próprias deceções.
Trata-se de uma ode à pop, que funciona como um grito de liberdade por parte de quem se quer desprender de amarras estéticas.
“Senti que faltava mostrar este meu lado mais performativo, que é muito quem sou, num disco que traz uma música especial e de certa forma, para mim, mágica”.
– afirma Beatriz Pessoa em comunicado de imprensa.
Musicalmente, o álbum puxa da irreverência de Rita Lee e até mesmo do lado mais alternativo e etéreo de Kate Bush e Björk. E, se a sonoridade surpreende, as letras elevam Muito Mais este disco: desde a língua francesa, ao scat e ao inglês, numa demonstração honesta e real do que são os tempos atuais.
Faixa a Faixa
O primeiro avanço, Pó de Palco, nasceu de um momento de conflito interior, em que a artista ponderava desistir da carreira musical.
O segundo avanço, A Pique, C’est Chique, resgata um refrão que Beatriz tinha originalmente composto para uma fadista e que acabou por não ser usado. A melodia persistiu e acabou por ser reinventada com a ajuda de Guss (Gustavo Almeida), numa explosão de referências que vão de Brigitte Bardot e Françoise Hardy a “Footloose” e aos anos 70.
“A letra foi atrás da irreverência e de uma espécie de cansaço associado ao que vejo na TV e nas notícias. Se vamos todos cair a pique, ao menos que seja très très chique”.
– refere a artista.
Entre o toque e a vulnerabilidade, Treme é uma “coreografia” de palavras que traduz a intimidade e o desvanecer da razão perante o desejo. Seguem-se La Fúria, um (quase) interlúdio em scat, e a divertida Espanta, onde se junta o primeiro convidado, Guilherme Gomes (Napa).
Tania Shwain nasceu de um lapso numa conversa onde Beatriz Pessoa, por falar rápido e tropeçar nas palavras, trocou o nome da artista country-pop Shania Twain. A canção aborda o valor da mulher e o feminismo, pegando em frases e ditados conhecidos que moldaram uma ideia antifeminista. Um exemplo é a frase de Seu Jorge em Amiga da minha mulher: “Se fosse mulher feia estava tudo certo / mulher bonita mexe no meu coração”, que a artista transformou em “Menina certa é coisa feia / se fosse Jorge Seu / eu não tinha maneira de escapar”.
Em Fim do Princípio temos a simplicidade do piano numa balada clássica, para logo saltarmos para a salsa cheia de salero de I Wish, cantada em inglês, e, ainda com a energia lá em cima, 9,99€, um comentário perspicaz, irreverente e ritmado sobre a cultura do consumo imediato.
Num tom de desabafo quase autocrítico surge Ai Quem Me Dera, um feat com Femme Falafel. A canção junta vários estilos e referências, brincando com o vício de querermos ser como os outros. Expõe, de forma divertida, o tempo que perdemos entre “frustrações fúteis, desculpas descontroladas e culpas sobrenaturais”.
Na mesma linha, Figuração, aborda a ambição de ser protagonista de um ecrã que nos mantém reféns, reduzindo-nos a meros figurantes da nossa própria existência enquanto consumimos a vida alheia.
Em Não Não Não, Beatriz Pessoa transforma a negação num ato de libertação. Por fim, a faixa que dá nome ao disco, Muito Mais, um feat com o produtor do álbum, Guss, e que encerra o seu mote: “Muito mais que ser, é sermos nós”.
Depois de um período de desânimo em que chegou a ponderar desistir da música, a maternidade, o trabalho próximo com o produtor e amigo Guss e a entrada para a família Cuca Monga pareceram dar a Beatriz Pessoa o balanço necessário para criar aquele que é, até à data, o seu disco mais ambicioso.
Muito Mais já pode ser ouvido em todas as plataformas digitais. Virem o disco e ponham-se a dançar!
Fonte da Capa: Maria Bicker
Artigo revisto por: André Ventura
AUTORIA
A Beatriz não vive sem música e tem uma playlist para todas as ocasiões. Entrou na Magazine para escrever sobre quem mais gosta de ouvir e para aperfeiçoar a sua escrita e a dos outros em Correção Linguística. Sem dar por isso, a Magazine tornou-se muito mais do que o lugar onde apenas escrevia. Um ano depois de entrar, tornou-se Editora de Música e, no seguinte, Vice-Diretora.
Ao longo de três anos, escreveu muito, aprendeu ainda mais e colecionou experiências que vão muito além dos artigos publicados. Despede-se da Magazine com a certeza de que esta foi uma viagem muito bonita. Quanto ao resto, basta dizer que se houver música a tocar há uma boa hipótese de estar por perto.



