A arte de surpreender em palco
Ir a um concerto, por si só, já é algo bastante especial. Poder estar no mesmo espaço que o artista de que gostamos (ou, para os sortudos, a meros metros de distância), ouvir ao vivo as músicas que ouvimos em replay vezes e vezes sem conta, ou até mesmo acompanhar o amigo que nos pediu companhia: estas são experiências verdadeiramente marcantes, aquelas que facilmente ficam gravadas na nossa memória e no nosso coração por muito tempo. Porém, quando sabemos que algo de especial irá acontecer nesse concerto, tudo se torna ainda mais mágico e inesquecível.
A adrenalina que sentimos quando o artista aparece em palco é, muitas vezes, já percebida antes sequer de entrar. Tudo começa com o anúncio de uma tour, geralmente nas redes sociais. Primeiro, procuramos o nosso país ou cidade; depois celebramos ao saber que farão parte da digressão; e, de seguida, instala-se uma adrenalina diferente, agora misturada com a ansiedade de conseguir comprar os bilhetes.
Quando chega o momento do concerto, tudo fica em suspense, pois sabemos que algo único vai acontecer, mas não o quê ao certo. As interações entre os artistas e o público tornaram-se cada vez mais comuns e, hoje em dia, ir a um concerto é ainda mais especial por isso mesmo. Os espetáculos deixaram de ser apenas 90 minutos de música ao vivo e passaram a ter momentos de diversão e interação entre artistas e público.
O fator surpresa durante um concerto não é propriamente recente. Bruce Springsteen, por exemplo, é conhecido por mudar constantemente o alinhamento dos seus espetáculos desde os anos 70, atendendo até a pedidos de fãs que levavam cartazes com os nomes das canções que queriam ouvir. Bandas como Pearl Jam e Phish também construíram uma reputação em torno de setlists imprevisíveis, em que cada concerto era uma experiência única, quase como uma caixinha de surpresas. Esses momentos ajudaram a criar uma ligação mais íntima com o público, uma tradição que o pop moderno veio reinventar.
No entanto, foi com Taylor Swift que o conceito de “surpresa” ganhou um nome, uma estrutura e uma nova vida. Durante a Reputation Stadium Tour (2018) e, mais tarde, com a mundialmente aclamada Eras Tour (2023–2024), a cantora introduziu aquilo que ficou conhecido como o momento das “surprise songs”: duas músicas diferentes a cada noite, tocadas em versão acústica e nunca repetidas no mesmo formato. A ideia transformou-se rapidamente num fenómeno cultural. Os fãs começaram a criar listas, gráficos e previsões nas redes sociais, tentando adivinhar quais seriam as próximas escolhidas. Cada concerto passou a ser visto não só como um evento musical, mas como um episódio único de uma narrativa em tempo real.
Este formato inspirou outros artistas da nova geração, como Gracie Abrams, que incluiu interlúdios semelhantes nos seus próprios espetáculos. Durante a The Secret of Us Tour, Gracie também tocava músicas diferentes em cada noite, muitas vezes escolhendo faixas que tinham um significado especial para a cidade onde atuava ou para aquele público em particular. Essa imprevisibilidade reforça a sensação de exclusividade, a ideia de que “aquele momento só aconteceu aqui e agora” e cria uma conexão emocional poderosa com os fãs.
Outro exemplo recente é Sabrina Carpenter, cuja Short n’ Sweet Tour trouxe uma das dinâmicas mais comentadas do ano: a “Juno position”. Durante a canção “Juno”, a cantora encena diferentes posições sexuais ou gestos após o verso “Have you ever tried this one?”. Cada noite apresenta uma variação, uma nova pose que rapidamente se torna viral nas redes sociais. A criatividade da artista é testada a cada noite: numa digressão com imensas cidades e países, criar uma nova posição pode ser um desafio, mas Sabrina supera-o sempre.
Já Conan Gray, com a sua recente Wishbone Pajama Tour, levou a interação a outro nível. Numa das partes do espetáculo, o cantor convida um fã a partilhar um “wishbone”. O fã e Conan puxam o osso, e quem ficar com a parte maior escolhe, entre duas músicas que não fazem parte do alinhamento habitual, qual música surpresa será tocada. A dinâmica é simples, mas eficaz: o público participa ativamente na construção do espetáculo e o momento torna-se um símbolo de sorte.
Estas novas dinâmicas refletem uma tendência mais ampla na cultura pop contemporânea: a necessidade de tornar cada concerto único, pessoal e partilhável. O espetáculo já não é apenas uma sequência de músicas; passa a ser um acontecimento interativo que vive tanto no palco quanto nas redes sociais.
Cada cidade tem o seu “momento especial” e cada fã guarda na memória o momento que tornou o seu concerto singular, diferente de todos os outros.
Fonte da Capa: Pinterest
Artigo revisto por Inês Gomes
AUTORIA
Atualmente no seu terceiro ano de licenciatura em Jornalismo, a Marta já descobriu o que é estar por detrás das câmaras, dos ecrãs e das páginas escritas. Mais do que tudo, adora ouvir música e estar a par do que se passa no universo pop, além de procurar sempre os melhores filmes e séries para uma tarde chuvosa perfeita. Assim que entrou na ESCS, encontrou na ESCS Magazine o seu lugar: começou como redatora de Cinema e Televisão, passou a Editora no ano seguinte e, agora, no seu último ano na melhor revista de Benfica, abraça com entusiasmo o cargo de Editora Executiva — um desafio que aceitou com todo o carinho!



