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A maior obra da História

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Começo a crítica a este livro com duas simples citações de duas grandes figuras do século XX:

“Os Irmãos Karamázov é o romance mais magistral que alguma vez se escreveu, e nunca seremos capazes de apreciar devidamente o episódio do Grande Inquisidor, que é uma das maiores realizações da literatura mundial.”

“Leio fascinado Os Irmãos Karamázov. Trata-se do mais magnífico livro em que já pus as mãos.”

Ora, o peso destas duas afirmações deixa, desde já, antever o nível e o tipo de livro de que vamos falar; mas se disser que a primeira foi dita por Sigmund Freud, no artigo Dostoiévski e o Parricídio, e que a segunda por Albert Einstein, numa carta a Paul Ehrenfest, tal só dificulta até o trabalho de um culto e preparado crítico – o que me coloca numa posição ainda mais complicada. Resta-me, portanto, nesta pequena crítica, tentar não manchar muito a reputação deste livro com as minhas indignas palavras.

O autor deste monumento literário (de uma forma figurada e literal, tendo em conta que tem mais de 800 páginas), Fiódor Dostoiévski, nasceu a 11 de novembro de 1821 (Moscovo), e morreu a 9 de fevereiro de 1881 (S. Petersburgo) e é considerado um dos melhores escritores russos de sempre e um dos melhores romancistas do mundo. Nascido numa família burguesa, Dostoiévski teve uma vida bastante atribulada na sua infância (a mãe morreu de tuberculose e o pai foi assassinado pelos criados) e depois enquanto jovem e adulto (sofria de epilepsia, esteve exilado na Sibéria e tinha problemas com o jogo). Temos recolhidos, pois, todos os ingredientes para a construção da imagem de um autor jovem, traumatizado, que se refugia no vício do jogo e das mulheres (tema abordado n’O Jogador).

Constantemente atormentado por questões como a moralidade, a relação do Homem com Deus, o confronto entre o certo e o fácil, Dostoiévski espelhou muitas dessas preocupações na sua vastíssima obra, que inclui romances, novelas e contos. “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto.” (Jo 12 24,25). Escrita na sua lápide, esta citação bíblica do Evangelho segundo S. João torna-se verdadeira pois, com a sua morte, toda a sua obra frutificou e se multiplicou e é-nos apresentada cheia de vigor e frescura. É precisamente esta citação do Evangelho que serve de subtítulo a este romance, o último que escreveu, no ano anterior à sua morte.

Os Irmãos Karamázov é um romance, dividido em 4 partes e 11 livros no total, que relata a história de uma abastada família russa. O patriarca da família é Fiódor Pavlovitch Karamázov, um homem devasso que subiu na vida principalmente devido aos dotes das suas duas mulheres, ambas mortas de forma precoce, e à sua mesquinhez e agiotagem. Com a primeira mulher tem um filho, Dmitri Fiodorovitch Karamázov, semelhante em tudo ao pai, que é criado primeiramente pelo criado que mora na isbá ao lado da sua casa e depois por Miússov, parente da sua falecida mãe. Com a segunda mulher tem mais 2 filhos: Ivan e Aleksei Fiodorovitch Karamázov, que são criados por um parente desta. Ao passo que Ivan se torna um intelectual, atormentado justamente pela sua inteligência, Aleksei torna-se uma pessoa mística e pura, entrando para um mosteiro na cidade.

Temos feito, então, o retrato desta família na qual convivem 4 personalidades completamente distintas e muitas vezes opostas. O cerne desta história é a paixão que Fiódor e Dmitri, pai e filho respetivamente, nutrem pela mesma mulher; a questão de heranças mal distribuídas; e o consequente assassínio de Fiódor Pavlovitch Karamázov, crime que envolverá os três irmãos (símbolo da trindade razão-emoção-sentimento) num julgamento injusto e repleto de retórica.

Ao longo do romance vamos sendo confrontados com várias reflexões filosóficas das personagens, quer sejam as questões da moral divina de Aleksei, as interrogações metafísicas de Ivan, ou mesmo inquietações carnais e emocionais de Dmitri – muitas são as oportunidades para o leitor pensar e para o autor explorar os temas que tanto o atormentavam em vida.

Podemos ver que estamos perante uma obra exigente, repleta de simbolismo e significado, que nos conduz a um reflexão sobre a condição humana em todas as suas vertentes e a dificuldade de conciliá-las entre si, sem perder demasiado as rédeas do nosso destino e abdicar das coisas que nos completam. Um clássico incontornável, um retrato da essência humana em todo o seu esplendor, uma reflexão sobre nós e o mundo connosco, agora e sempre.

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