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A realidade que não queríamos ver

“Now it´s time for America to bind the wounds of division (…) We have to get together” – estas são palavras de Donald J. Trump, o novo presidente dos Estados Unidos da América.

Após a surpresa com que todo o mundo acordou no dia 9 de novembro de 2016, temos estado a tentar encontrar explicações para aquilo a que assistimos no último ano e meio. Todavia, o mainstream, que também foi um dos atores que ajudou na ascensão de Trump, continua a cometer um erro primário. Não podemos olhar para o novo presidente dos Estados Unidos como olhamos para qualquer outro político clássico. Donald Trump é diferente de tudo aquilo a que assistimos no passado. Donald Trump rompeu com o establishment. Donald Trump soube descobrir uma América que pensávamos já não existir.

Antes de tentar encontrar algumas das razões que explicam a ascensão do magnata norte-americano, é essencial colocar de parte a raiva e a desilusão a que temos vindo a assistir nos últimos dias. É que, será importante relembrar, os mesmos americanos que elegeram Obama por duas vezes, são exatamente os mesmos que agora votaram em Trump. Maiorias diferentes? Sim, mas são uma parte da população que tem vindo a ser esquecida por todo o mundo.

Nesta altura será mais reconfortante achar que Trump é um problema exclusivamente americano. Não é. Se olharmos apenas para o mapa político da “Europa”, identificamos fenómenos bastante semelhantes: Vladimir Putin, que dispensa apresentações, Viktor Orban, primeiro-ministro húngaro, e ainda Erdogan, primeiro-ministro turco. Se a estes três nomes juntarmos Marine Le Pen, em França, o Brexit e o Movimento Cinco Estrelas, em Itália, podemos desmascarar a ideia de que Trump é um caso isolado.

Todos estes movimentos têm um discurso bastante parecido. Mas, antes de tentarmos perceber porque é que esta retórica tem vindo a ter tanto sucesso, convém olhar para o passado para que possamos entender o presente.

No século XX, nomeadamente na década de 30, o mundo viveu aquela que os economistas consideram ter sido a maior crise da história da humanidade. Na altura, como agora, o terreno era fértil para os populismos fáceis. Não foi por isso difícil para, por exemplo, Adolf Hitler chegar ao poder e, imagine-se, de forma totalmente democrática. É exagerado comparar os dois e não acredito que o destino seja de todo o mesmo. Todavia, as situações acabam por ser semelhantes. Na década de 30, Hitler e outros souberam jogar na perfeição com dois grandes fatores: o sentimento de revolta das suas populações devido à humilhação que foi o Tratado de Versalhes e ainda as dificuldades económicas vividas na altura.

Hoje, Donald Trump tem o seu público-alvo num segmento da população que se sente totalmente excluído do mundo em que vivemos. Na sua maioria, são homens brancos, com pouca instrução, oriundos de zonas rurais e com idade acima dos 45 anos. Não será por isso difícil concluir que representam uma parte da população que se sente fora do processo de globalização ou para os quais a aldeia global não trouxe vantagens. Os eleitores que votaram em Trump são, grosso modo, os mesmos que votaram a favor do Brexit ou que votam em Marine Le Pen.

Mas porque é que este tipo de discurso tem vindo a ganhar tantos apoiantes? Na Europa, o raciocínio assenta que nem uma luva, visto que as dificuldades económicas se têm vindo a arrastar desde 2008 e sabemos que isso é um catalisador para este tipo de retórica.

No entanto, nos Estados Unidos, durante os dois mandatos de Obama, a economia cresceu mais de 15%. O que talvez seja importante perceber é que, mesmo estando a economia americana a crescer de forma sustentada, a população nunca conseguiu voltar aos níveis de qualidade de vida que tinha antes da crise de 2008. Isto faz com que a revolta e o desespero se apoderem das pessoas e as levem a acreditar em soluções fáceis apresentadas por um qualquer “messias”.

E o futuro? Como devem os principais atores políticos combater estes movimentos? A resposta não poderia ser mais simples: democracia. A classe política enfrente hoje um grave problema de credibilidade perante os seus eleitores. As pessoas não conseguem, pura e simplesmente, admirar os políticos do presente. Hillary Clinton, e isso também contribuiu para a eleição de Trump, simboliza no presente tudo aquilo que as pessoas não gostam de ver num político. Não ajuda, por exemplo, ouvir François Hollande afirmar que o que vale para uns não vale para outros. Não ajuda, de todo, a divisão entre o sul e o norte da Europa a que temos vindo a assistir nos últimos anos. Não ajuda percebermos a desigualdade que existe entre os 28 Estados-membros da União Europeia.

É uma equação com inúmeras variáveis, o que torna a sua solução bastante mais difícil. Trump não será tão mau como alguns auguram, mas também não será o símbolo de esperança que Obama foi. E, por falar em Obama, a atitude do primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos é o caminho a seguir. Quando ainda muitos choravam a derrota de Hillary, Obama elevou o nível e convidou Trump para uma reunião na Casa Branca de forma a que a transição seja o mais pacífica possível.

Tal como disse Michelle Obama nesta campanha, “When they go low, we get high”. Na minha opinião, é a única solução para combater os Trumps e as Le Pens do presente.

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A vermelho as percentagens de Donald Trump e a azul as percentagens de Hillary Clinton. Fonte: NY Times

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