A Vida Depois da Reforma

Sessenta anos e quatro meses é a idade normal de pedido de isenção estabelecida pelo Estado português para 2018. Após a aprovação da candidatura, chega todos os meses uma pensão e há tempo de sobra. É o momento de tomar um novo rumo. O que fica depois de anos de trabalho e o que há para fazer?

Acorda todos os dias mais cedo do que no período em que trabalhava. Às 8h, Rosa Azevedo, já está no hospital de Santo António, no Porto, para entregar o pequeno-almoço aos doentes que vão às consultas. Além deste serviço, Rosa, de 73 anos, também dá auxílio nas urgências e na ala oncológica.

Entrou para o voluntariado da Liga dos Amigos do Hospital de Santo António, logo após se ter reformado. “Já era minha intenção passar parte do meu tempo como voluntária. Sai em maio de 2011 da empresa onde trabalhava, mas logo no dia seguinte fui para o voluntariado, porque já estava inscrita.”

Depois de cumprir um dos seus objetivos – fazer 50 anos de casa na empresa Hasse, sediada no distrito de Santarém – pediu a reforma aos 66 anos. Trabalhou sempre na área da saúde, contacto que ao longo dos anos a fez ganhar interesse pelo voluntariado hospitalar.

“Quando fui para lá custou-me um bocadinho a parte emocional.” Apesar disso, Rosa admite que devido ao facto de anteriormente ter enfrentado doenças familiares, ganhou um maior estofo para lidar com todas as situações. “Não fico indiferente ao que vejo, mas tem de haver quem tenha coragem para tratar dessas pessoas. Tenho uma paixão por aquilo que faço.”

Um percurso diferente é o de Helena Cunha, de 70 anos. Foi emigrante mais de quatro décadas. Passou por um hospital italiano, um hospital inglês, trabalhou num alfaiate, numa fábrica de costura e o seu último trabalho lá fora foi como governanta na casa de uma baronesa.

Há dez anos reformou-se e veio para Portugal. “Foi um bocadinho aborrecido quando me reformei. Temos tempo a mais. Tanto que vim para cá e ainda fui trabalhar mais 3 anos.”

Numa idade mais avançada, está Isidro Pereira, que já conta com 82 anos. Não sabe ler e apenas sabe escrever os únicos dois nomes que tem. Naquela época a escolaridade não era uma prioridade, porque havia trabalho em abundância e a mão de obra nunca era demais.

Foi nos campos do ribatejo que aprendeu tudo aquilo que sabe hoje. “Comecei a guardei gado aos 7 anos. Depois fui para o campo semear melão, milho, tomate e a arrancar batatas. Além disso, trabalhei com máquinas de terraplanagem em vários sítios do país.” Trabalhou durante 58 anos.

Os últimos dados divulgados pela Base de Dados Portugal Contemporâneo – Pordata- indicam que a Segurança Social atribuía em 2016 cerca de 466.518 pensões de velhice entre os 65 e os 69 anos. Este valor ultrapassa em 38.583 as pensões pagas dez anos antes, da qual fazem parte Rosa Azevedo, Helena Cunha e Isidro Pereira.

 

Aproveitar o tempo ao minuto

Foi no voluntariado que Rosa Azevedo encontrou o seu rumo, mas a atividade não fica por aqui. Já passou por uma Universidade Sénior e já fez hidroginástica. Mas o tempo que mais preza é o que passa na sua caravana junto ao mar. “Tenho-a há mais de 40 anos. Gosto muito do mar. É a minha paixão, o meu equilíbrio e a minha tranquilidade.”

Outra das paixões são as viagens. Já passou pela República Checa, por Viena, e por Marrocos. Desde há sete anos, já sem o marido a seu lado, que viaja para o sul de Espanha com amigos.

A Universidade Sénior também faz parte do percurso de Helena Cunha, e é onde permanece até hoje. “Quando cheguei a Benavente só tinha vontade de me ir embora. Chegava a mudar a mobília da minha casa todos os dias. Por isso, a universidade sénior veio na altura exata e é um dos motivos pelo qual ainda estou cá hoje.”

Além de ter conhecido pessoas, destaca tudo o que aprendeu: desde a história local, passando pela História de Portugal, até à literatura portuguesa. É com a Universidade Sénior de Benavente, no distrito de Santarém, que Helena sai da sua localidade. “Já temos ido a Coimbra, a Aveiro e a vários sítios em Lisboa.”

“Entrei na reforma e depois continuei a trabalhar na agricultura, com máquinas. Quando parei mesmo tinha 78 anos”, admite Isidro. A reforma para si não foi vista como um tempo de descanso, porque não queria estar parado.

“A primeira coisa que fiz depois de me reformar, aos 65 anos, foi arranjar uma hortazinha para me entreter.” Isidro já não tem a horta, diz que está velho para cavar. Atualmente, os seus dias são passados por casa, na rua a conversar com os amigos ou a passear de vez em quando.

 

Universidade Sénior de Benavente

A Universidade Sénior do Concelho de Benavente tem 4 polos: Benavente, Samora Correia, Barrosa e Santo Estevão. Maria Gertrudes Pardão é a coordenadora do polo de Benavente, onde estuda Helena Cunha.

Nasceu da rede social da Câmara Municipal de Benavente com o objetivo de combater o isolamento dos séniores. “Foi criada para trazer os séniores para a rua e não estarem apenas agarrados ao sofá a ver televisão. O objetivo é conviverem e ao mesmo tempo aprender um bocadinho”, refere Gertrudes Pardão.

A adesão inicial foi positiva: no 1º ano inscreveram-se 128 alunos nos polos que iniciais – Benavente e Samora Correia. A partir dai o número foi aumentando, havendo atualmente um total de 450 alunos e 50 professores voluntários.

A coordenadora do polo de Benavente explica os requisitos de entrada dos séniores: “Precisam de ter no mínimo 50 anos. Ser reformado ou não, não interessa. Há ainda uma exceção – a alfabetização – em que é apenas necessário ter 18 anos.” O último aspeto é essencial num concelho onde há uns anos o ensino era deixado muito precocemente e onde não há outras instituições locais a dar esta oportunidade.

Desde arraiolos, passando por croché e trabalhos manuais, até à informática, a Universidade oferece uma variedade de unidades curriculares que aumentam o conhecimento dos séniores e ajudam a levar as raízes culturais da região mais longe.

“As pessoas gostam de vir aqui. Por isso, muitos estão cá há 9 anos e a melhor divulgação são eles próprios. É assim que a universidade vai crescendo.” Gertrudes Pardão reconhece a mais valia da iniciativa das Juntas de Freguesia de Benavente para a população.

 

Fazendo contas aos descontos, o que resta após anos de trabalho?

Em 2008 as pensões de velhice ou invalidez tinham um valor mínimo de 236,47 euros. Atualmente, o valor é de 269,08 euros.

Viver da reforma não foi um problema para Rosa Azevedo: “Sempre fui educada a viver em função daquilo que me era possível. Não foi difícil, tive de me adaptar.”

O montante também não é uma limitação no dia a dia de Helena Cunha. “O meu, graças a Deus não é, que tenho a reforma inglesa. Mas acho que para os portugueses sim, é limitado.”

“Dá para a gente comer”, é a realidade de Isidro Pereira e de muitos outros idosos em Portugal. Comprimidos para a diabetes, para o colesterol e exames médicos, são mais algumas das necessidades de Isidro e da mulher. A reforma cobre essencialmente os custos da comida e dos medicamentos. Está pouco acima do valor mínimo, mas permite juntar esporadicamente a família à volta da mesa.

 

Balança em equilíbrio

“Eu trago mais do que aquilo que dou”, refere Rosa Azevedo. Ouve os pacientes e fala com eles. A experiência que retira das histórias que ouve é para si mais do que aquilo que consegue dar.  Nos 4 dias de voluntariado, acompanha por vezes os mesmos utentes que têm consulta naqueles dias. “Vai-se ganhando uma amizade e uma afetividade.”

Na Universidade, Helena dá e recebe conhecimento e amizade. “Eu tenho 9 disciplinas e as que mais gosto são história, artes e literatura. Depressa me senti integrada e conheci pessoas.”

Viveu e aprendeu muito. Agora, resta a Isidro Pereira aproveitar os anos que tem pela frente e contar a história de cada ruga, de cada fissura nos dedos e de cada memória que não esquece.

 

Todos seguem o seu caminho

“Tenho uma neta, de 9 anos. Vou ter com ela 1 vez por mês a Azeitão, no concelho de Setúbal. Vem passar uma ou duas semanas de férias comigo na caravana e depois fico com eles em Azeitão onde termino o mês de agosto.” Matar as saudades da família é o tempo que tira para si depois de dar o que tem aos outros.

Rosa não tem nenhum objetivo para o futuro. Os seus planos passam por fazer voluntariado cerca de mais 4 anos. No fim deste período, deseja acabar o seu percurso de vida em casa da filha.

Helena também não tem a família por perto. Tem um neto com 22 anos e 3 adotivos. Os filhos nasceram no estrangeiro, onde permanecem. No futuro, Helena Cunha pretende continuar na Universidade enquanto a idade assim lhe permitir.

Não muito diferente é o que acontece com Isidro Pereira. Tem 3 netas e duas filhas. “Vejo-as quando calha”, refere Isidro, quando conta que umas das netas estuda e as outras duas, bem como as filhas, têm os seus trabalhos. Não tem nenhum objetivo para o futuro: “Agora gosto de estar a descansar, de gozar daquilo que tenho e de conversar com os meus amigos. Saúde é o que eu desejo para todos e para mim, que não me falte.”

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