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A vitimização masculina e a ideia do feminismo opressor

Esta é uma resposta ao artigo “A Vitimização Feminina”, de João Carrilho (http://escsmagazine.escs.ipl.pt/a-vitimizacao-feminina/ – aconselhável ler antes deste). Em traços gerais, ele trata o feminismo na atualidade, revelando que este já não é necessário nas “democracias ocidentais”, pois as mulheres não são oprimidas aí atualmente, e que o feminismo da terceira onda é a expressão da opressão aos homens que existe nos dias de hoje, nomeadamente no nosso país.

Contextualizando, a terceira onda feminista surgiu de uma necessidade de ampliar o movimento a mulheres não-brancas, queer e de classes baixas, o que nada tem que ver com vilificar homens, como o artigo a que respondo defende. Este também afirma que no “terceiro mundo” existe uma hierarquia social baseada no patriarcado, que não existe nos outros mundos, e que ela é condenável, sendo que aí é que as feministas deveriam atuar – mas as feministas do início do século XX, aquelas que lutavam pelo direito ao voto, o único que João Carrilho parece querer conceder às mulheres; nas sociedades ocidentais atuais, não existe misoginia nem esse tal sistema hierárquico dos sexos (provavelmente os homens do “terceiro mundo” ou do início do século XX acham/achavam o mesmo das suas sociedades – parece-me ser um grande erro sociológico analisar as crenças de um conjunto de pessoas sem o próprio distanciamento crítico dessas crenças).

Ignorando a vírgula contraditória na terceira linha do quarto parágrafo, percebemos que o autor do texto afirma que o feminismo atual se foca nas capas de revistas de moda e em videojogos. Mesmo que assim seja, as capas de revistas de moda e os videojogos refletem a sociedade, ajudando, a quem os analisa, a perceber a sua estrutura num certo período temporal; e, ao mesmo tempo, têm inevitavelmente consequências em quem os consome, ou em quem os perceciona de algum modo, reforçando as crenças das pessoas que já as possuíam – neste caso, fazem a sociedade machista permanecer ou tornar-se mais machista.

Em relação aos casos de violência doméstica e violação praticados em homens, estes são tão válidos e graves quanto aqueles praticados em mulheres. No entanto, o feminismo é um movimento de luta social, não individual; sendo assim, há que entender que a violação e a violência doméstica para com a mulher são problemas sociais e que a violação e a violência doméstica para com o homem são problemas individuais (mas que não menos importantes individualmente por isso). Há que ter em conta, então, os números extremamente mais elevados de casos do tipo em mulheres do que em homens, e perceber que isso tem base numa certa estrutura social e que não assenta em acaso. É essa estrutura social que o feminismo combate.

A circuncisão masculina é a remoção do prepúcio, uma pele que cobre o pénis; a mutilação genital feminina é a remoção do clítoris exterior, o que inclui remoção de carne, e, por vezes, é também a remoção dos pequenos e grandes lábios e o encerramento da vulva. As consequências da primeira cirurgia são desconforto local por algumas semanas; as da segunda são dor potencialmente para o resto da vida, principalmente em atos sexuais, infeções, hemorragias, a provável impossibilidade de engravidar e, não muito menos frequente, a morte. O objetivo da circuncisão masculina é a pertença a um grupo; o objetivo da mutilação genital feminina é a pureza, a estética e impedir a mulher de sentir prazer sexual – razões que têm raízes óbvias na misoginia. João Carrilho acha as duas cirurgias comparáveis e igualmente condenáveis, tal como avalia a sua abolição no mesmo grau de urgência.

Quanto ao facto de as mães possuirem maioritariamente a custódia dos filhos, isso deve-se à crença que ainda persiste na nossa sociedade de que a mulher é naturalmente uma mãe e uma boa mãe – essa crença potente e tão destruidora foi pretexto para manter a mulher no lar por séculos. Continua, no entanto, a oprimi-la nos dias de hoje, apesar da aparente emancipação, pois as mulheres continuam a realizar mais tarefas domésticas que os homens, incluindo tomar conta dos filhos, enquanto mantêm ao mesmo tempo, na maioria dos casos, um emprego fora de casa, o que leva a que elas trabalhem duplamente.

É possível entender, mesmo assim, que existem de facto papéis de género associados ao homem e características às quais é expectável ele corresponder; tal como existem características associadas à mulher e que se pretende que ela tenha. Essas correspondências são prejudiciais e tóxicas para ambos os sexos; no entanto, dentro desses dois grupos de definições, as vistas como femininas são percecionadas como inferiores.

O artigo a que respondo defende o contrário, e quase que acaba a dizer (dizendo-o mesmo, na penúltima frase) que as mulheres já não são oprimidas. Sendo que no “terceiro mundo”, que considera como o Médio Oriente e a China por exemplo, o autor afirma ainda existir machismo mas no ocidente já não, ele deve aceitar que o costume de as mulheres orientais taparem o cabelo tem bases misóginas, pois baseia-se na ideia de que o cabelo da mulher é uma tentação para o homem. Aconselho-o, então, a questionar-se sobre as raízes da crença de que os mamilos das mulheres não devem estar descobertos e a afirmar a seguir que o machismo na nossa sociedade acabou.

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