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Abram as cortinas: hoje é Dia Mundial do Teatro

Não sou particularmente fã da celebração deste tipo de dias. Acho sempre que eles servem mais como uma estratégia comercial do que para qualquer outra coisa. Ainda assim, devo confessar que este é um dia que eu considero ser especial. Não que para mim o dia do teatro não seja todos os dias, porque todos os dias são dias de fazer e ver teatro. Todos os dias são dias de celebrar aqueles que nascem e morrem em palco em cada atuação. Todos os dias são dias de celebrar qualquer arte, uma vez que sem ela seríamos todos tão mais pobres de espírito.

É verdade que, de entre todas as formas que existem de fazer arte, o meu carinho especial vai para o palco, para as cortinas, para os textos, para o improviso, para as luzes e, sobretudo, para a reencarnação de diferentes personagens, de diferentes vidas.

“Ir ao teatro é caro” – oiço muitas vezes. É verdade. Ir ao teatro, sobretudo se for com frequência, não é algo que fique propriamente em conta. Mas assim como o preço não é impedimento para se fazer outras mil e uma coisas, também não deve ser impedimento para ir, nem que seja pontualmente, ao teatro. Com isto não estou a dizer que as pessoas não vão ao teatro. Vão e vão mais do que aquilo que se pensa e do que aquilo que se faz passar. O problema do teatro e das artes no geral não é a falta de público, mas sim a falta de financiamento.

Mas não é esse o ponto deste texto. Não é para me queixar ou insistir nas questões financeiras que celebro o dia de hoje. Celebro-o porque acredito que o teatro salva almas. Celebro-o por todas as vezes que ele me faz feliz. Celebro-o porque ele já está há tanto tempo no mundo e desde que cá está que muda mentalidades, constrói novas formas de pensar, coloca questões e oferece possíveis respostas. Celebro-o porque foi através dele que descobri mais de mim. Celebro-o porque o teatro acaba por ser um espelho de cada um de nós. Um reflexo, diria. Mesmo nos vilões, nas personagens com quem achamos não ter nada em comum, conseguimos ver um pouco de nós.

E os textos? Já vi peças sem sentido nenhum que fizeram todo o sentido para mim. Já vi peças que me fizeram suster a respiração. Já chorei e ri. Já tive medo pelo simples facto de me sentir completamente engolida por uma determinada história. Já aplaudi de pé. Já saí de uma sala de teatro triste e, outras vezes, saí de lá com vontade de correr o mundo. Já saí de um teatro com mais portas abertas e mais caminhos por desvendar na minha vida. Já senti ter perdido a minha identidade depois de uma peça de teatro. Já tive silêncios a darem-me respostas.

ART - Sandra Faria - 27 de Março - imagem corpo 1
“Aceleração das Partículas”, grupo de teatro amador Cena Múltipla, 2013.

Fiz teatro durante sete anos e posso garantir que foram dos melhores anos da minha vida. Uma constante descoberta de mim própria. Cada personagem e cada texto eram um novo desafio. A fotografia acima foi tirada numa peça que fiz em 2013 no grupo de teatro para jovens “Cena Múltipla”, em Almada. Foi uma das peças que me deram mais prazer fazer, pelo absurdo do texto, das roupas e dos cenários e, sobretudo, pela energia de cada momento em palco.

ART - Sandra Faria - 27 de Março - imagem corpo 2
“Aceleração das Partículas”, Cena Múltipla, 2013. Ensaio Público.

Valère Novarina, um dramaturgo francês dos anos 70, tem um texto sobre o teatro e este pequeno excerto que se segue é, para mim, genial e diz muito sobre aquilo que é a arte de representar: Toda a gente vê mas ninguém ousa dizer que, quando o ator representa, a sua pele fica totalmente transparente e se vê tudo lá dentro.

No fundo é isto também que é o teatro. A transparência. O ver para além do corpo físico que vagueia no palco de um lado para outro ou que por sua vez permanece estático.

Acho sinceramente que todas as pessoas deviam experimentar fazer teatro pelo menos uma vez na vida. Se não gostarem, param. Mas seja qual for a experiência, é garantido que depois de lá entrarem não saem a mesma pessoa. Se essa hipótese estiver completamente fora de questão… bom, pelo menos vão ver teatro. Sejam curiosos. Enriqueçam-se culturalmente. Nós não somos só feitos de enciclopédias, notícias, etc. Somos feitos de cultura. Não nos podemos esquecer disso.

Por último, aproveito para vos chamar a atenção para uma excelente oportunidade que têm de ir ao teatro hoje com entrada gratuita: o Teatro Nacional D. Maria II vai ter as portas abertas para comemorar o Dia Mundial do Teatro com algumas sessões de entrada livre ao longo do dia:

11h
A Visita Escocesa
criação Inês Barahona e Miguel Fragata
com Ana Tang, Sandra Pereira e Victor Yovani
dirigido a crianças a partir dos oito anos

16h30
Judite
de Rui Catalão
com Ana Guiomar, Cláudia Gaiolas e Tiago Vieira

19h
Três dedos abaixo do joelho
de Tiago Rodrigues
com Isabel Abreu e Gonçalo Waddington

A entrada, como já referi, é livre mediante o levantamento de bilhetes, na bilheteira do Teatro, a partir das 10h30. O limite é de dois bilhetes por pessoa, sujeito à lotação disponível.

E viva o teatro!

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