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Paião: 28 anos depois

Quem nunca trauteou: eles são duas crianças / a viver esperanças / a saber sorrir…? Ou então: pó / de arroz / do teu arrozal / esse pó que é fatal…? Não? A sério? Sou só eu? (…) Está bem: como castigo por nunca o terem feito, agora vão todos ouvir um qualquer álbum de Carlos Paião.

Nascido em Coimbra, em novembro de 1957, Carlos Paião licenciou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa, em 1983. Por muito que quisesse salvar vidas, desde sempre soube que a sua arte estava nas suas letras e composições — aos 19 anos tinha mais de 200 temas escritos.

Benfiquista ferrenho e fã das corridas de Formula 1, Paião concorreu pela primeira vez ao Festival RTP da Canção em 1980. Não foi apurado mas não desistiu. No ano seguinte, voltou a tentar a sorte e o tema “Playback” valeu-lhe uma vitória esmagadora e um bilhete para ir representar Portugal no Festival da Eurovisão, que nesse ano se realizou em Dublin.

Não se consagrou na Eurovisão, onde alcançou apenas o penúltimo lugar, mas transformou-se num caso de sucesso em Portugal. Nesse ano editou “Pó de Arroz”, já referido acima, que se tornou num dos seus temas de maior sucesso.

Entre 1978 e 1988, Carlos Paião compôs dezenas de temas, uns em nome próprio, outros para outros artistas. “A Canção do Beijinho” — sim, aquela do ora dá cá um, a seguir dá outro…—, interpretada por Herman José, ou “O Senhor Extra-Terrestre”, que escreveu para Amália Rodrigues, são alguns dos exemplos, assim como vários temas da personagem Serafim Saudade e o famoso “Bamos lá, Cambada!”, para a personagem José Estebes, também de Herman.

Em 1982, já a participar no programa “O Foguete”, com António Sala e Luís Arriaga, editou o LP Algarismos. No ano seguinte voltou ao Festival RTP da Canção, desta vez com Cândida Branca Flor, com quem interpretou “Vinho do Porto, Vinho de Portugal”, que não foi além de um terceiro lugar.

A 26 de agosto de 1988, quando se encontrava a trabalhar num novo LP, Intervalo, Carlos Paião sofreu um violento acidente de automóvel. No carro, seguiam também Jorge Esteves e Carlos Miguel Sousa, técnicos de som. Dos três, só Jorge Esteves, que ia a conduzir, sobreviveu.

Intervalo acabou por ser editado no mês seguinte. Das mais de trezentas canções que se estima que tenha composto, destacam-se ainda “Eu Não Sou Poeta”, “Marcha do Pião das Nicas”, “Zero a Zero”, “O Foguete”, “Discoteca” e “Versos de Amor”.

Em 2003, a EMI editou Letra e Música: 15 anos depois, uma das várias compilações do artista. Em 2012, a Farol Música reuniu vários artistas — entre eles: Rui Veloso, Tiago Bettencourt, Balla, Sam The Kid, 4Taste, Per7ume e Pólo Norte — para reinterpretarem os temas do músico de Coimbra.

Se fosse vivo, Carlos Paião completaria 60 anos no próximo ano. Mas os anos passam e em agosto terão passado 28 anos desde a sua morte. 28 anos e as suas músicas não poderiam ser mais intemporais. Dizia que não era poeta, mas as suas letras ficaram-nos na memória. Passaram 28 anos. Já imaginaram como seria se ainda houvesse quem escrevesse tão bem na música portuguesa?

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