Ainda está a ver, a sério que ainda está?

Conseguiste convencer-me a estar um mês contigo. Mas, em apenas poucos dias já estava vidrada em ti. Ao final do dia, ao acordar e sempre que não tinha de sair de casa. Todos os momentos em que pudesse estar na tua companhia faziam-me querer-te mais. O mês estava a terminar, eu sabia que não te podia perder. Então, decidi fornecer os dados do meu cartão.

Não é o início de uma estranha carta de amor, mas bem que poderia ser. Estou a falar de uma das melhores invenções para os amantes de séries e preguiçosos também (que não têm vontade de perder muito tempo na internet) – o famoso e já tão utilizado Netflix. Sim eu sei que talvez não faça muito sentido abordar este tema apenas agora, quando já foi tão discutido antes. Mas, considerando-me viciada em séries e sabendo que eventualmente iria tocar neste assunto, decidi finalmente abrir-me acerca do mesmo e partilhar a minha experiência.

Conhece os nossos gostos, avisa-nos dos episódios mais recentes e novidades, sabe organizar-se e não precisa de muito tempo para nos mostrar o que procuramos. Podia continuar com variados elogios, no entanto “ele” sabe que lhe estou agradecida.

Pois bem, nos tempos que correm, existem cada vez mais “Netflix addicts”. E com esta doença vêm muitas consequências. Ficar completamente agarrado ao ecrã por causa do Netflix pode trazer graves problemas, alguns tão graves que fazem com que a própria relação seja colocada em risco. Vou apresentar alguns dos efeitos que se podem esperar provenientes de uma utilização excessiva:

O problema principal, com o qual eu me começo a identificar cada vez mais, é o de decidir o que vamos ver. Existem tantas séries e tantos filmes que só o facto de selecionar um pode causar autênticas dores de cabeça. Não é fácil escolher apenas um programa. Pessoalmente, a minha escolha de séries tem sido cada vez mais complicada de fazer. Por vezes, e custa-me a admitir, chego a perguntar a pessoas que nem conheço muito bem o que é que elas sugerem. Só o facto de ter de falar com estranhos, algo que os meus pais me ensinaram desde cedo a não fazer, faz-me questionar se não estou a chegar a um ponto sem retorno.

Quando finalmente conseguimos escolher uma série o sentimento é quase que inexplicável. Tentamos conter-nos e ir com calma, pensamos que o melhor é um dia de cada vez e deixar as coisas fluir. No entanto, quando damos por nós já estamos completamente envolvidos numa relação intensa em que mal conseguimos esperar para que a história continue. Mas, tudo o que é bom tem um fim e, quando menos esperamos, apercebemo-nos de que não existem mais temporadas disponíveis. Sentimos um vazio e um sentimento de injustiça. A vergonha e culpa de não termos esperado e sermos irresponsáveis é algo que nos corrói. Não há nada que podemos fazer a não ser esperar pela data do reencontro.

Os nossos objetivos de vida e rotinas produtivas são substituídos por tempo passado com o Netflix. Contamos os minutos até podermos estar de novo junto a “ele” e pelos bons momentos que sabemos que vamos ter. Sentimos o nosso tempo livre a ser preenchido com uma organização das diferentes séries e filmes que podemos ver. Tentamos persuadir os nossos amigos e companheiros a partilharem esta experiência connosco, tudo para que possamos estar ainda mais tempo nesta atividade. Os sorrisos com que ficamos e as histórias que conseguimos tornar em temas de debate por causa do Netflix fazem-nos sentir mais preenchidos. Começamos a pensar que existe um propósito útil e que nos ajuda de alguma forma. Qualquer justificação para a mensalidade e tempo despendido serve. Não queremos aceitar a separação, é sempre cedo de mais.

Os 15 segundos que nos dá para decidirmos se queremos interromper a visualização são demasiado curtos e estrategicamente pensados para que optemos por permanecer imóveis. Na realidade preocupa-se com o nosso conforto e prefere que não tenhamos trabalho a mudar para o próximo episódio (mais uma razão para manter esta relação, pelo menos é o que prefiro pensar).

Por fim, caímos na realidade. Aquela frase marcante que nos faz aperceber de que estamos a exagerar e a desperdiçar o nosso precioso tempo. A maioria de nós já experienciou e eu pessoalmente não gosto da sensação. Aquele ecrã preto, com letras que formam a derradeira questão.

Desta vez questiono eu. Ainda está a ver? A sério que ainda está?

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