Opinião

Alabardas Aldrabadas

Nunca gostei de mortos. Nunca fui a um funeral e a ideia da morte faz-me confusão. Pior: histórias de mortos. Não. Pior: coisas que aparecem feitas por pessoas que já estão mortas.

Há poucos dias, saiu um livro de um escritor que já morreu: José Saramago. O livro tem como título Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas e não tinha sido terminado. O Nobel português deixou escritas vinte e duas páginas e algumas notas. A pergunta que se impõe é simples: isso chega? Chegam vinte e duas páginas e algumas notas para saciar um verdadeiro fã de Saramago? Para um verdadeiro amante de Saramago, não. E é fácil dizer por quê: essas mesmas vinte e duas páginas são algo muito inacabado. Como podemos saber se, a certa altura, Saramago não poderia voltar atrás e alterar o rumo todo da história? Como poderemos nós saber se Saramago não teria uma melhor ideia se escrevesse um fim diferente daquele das notas apresentadas? Não sabemos. Nós não sabemos e a ganância da Porto Editora é algo horrível. Editar uma obra e atribuí-la a um autor sem que este possa, de forma alguma, aprova-lá, é algo que me deixa triste. A sede de lucro das editoras em Portugal leva a isto: obras inéditas, que saem muitas vezes aquando do falecimento do autor, que muitas vezes não passavam de rascunhos. E o livro que nos é apresentado é isso: um rascunho acompanhado de notas. E nada nos garante que se, Saramago fosse vivo, o livro sairia assim.

Pior é a ousadia de Fernando Gómez Aguilera e de Roberto Saviano, ao tentarem terminar um escrito de um dos maiores génios da literatura contemporânea portuguesa. É certo que Gómez Aguilera foi o seu biógrafo oficial, mas conhecer o autor não é sinónimo de o poder completar ou pensar por ele. E é pesaroso que uma pessoa próxima de Saramago, como, certamente, era Aguilera, tenha tido o triste infortúnio de acrescentar palavras suas às do Nobel da literatura.

Eu sinto-me enganado com este livro. E, digam-me o que disserem, este não é um livro de Saramago. Este é o livro de uma editora gananciosa e que nada vê à sua frente que não euros. É o livro de dois escritores que tiveram a ousadia de tentar imitar Saramago. É um livro de uma editora gananciosa e de dois escritores que tiveram a ousadia de tentar imitar Saramago com simples páginas e notas deixadas pelo autor. No meio disto tudo, nem o desejo do autor, expresso nas suas notas, em terminar o romance com um sonoro “Vai à merda” se concretizou. A expressão deveria constar do fim mas não consta, dando mais força às minha palavras, que definem o Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas não como um livro de Saramago, mas sim como um hipotético livro de Saramago.

José Saramago foi um homem irreverente em Portugal. Cresceu e ganhou nome a pulso. Nunca teve medo de levantar palavras contra as instituições de maior poder em Portugal, como o Governo ou a Igreja. É um ícone da cultura contemporânea portuguesa e penso que merecia mais respeito. E no respeito não está incluída a fabricação de ideias, de palavras, expressões e frases. Saramago não se imita, não se tenta imitar, e muito menos se tenta terminar. Ninguém sabe o que iria naquela mente, ninguém sabe que rumos a história poderia tomar e ninguém sabe se Saramago, eventualmente, não queria publicar. Ninguém sabe e ninguém pode dizer saber. Fico triste que, mais uma vez, a busca desmedida de lucros se sobreponha ao respeito ou à cultura na sua verdadeira identidade. Não se inventa Saramago, pega-se no legado que ele nos deixou e deliciamo-nos. Não inventamos e ponto final.

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