Três anos após o sucesso de Ex-Machina, Alex Garland regressa para aniquilar a mente e sanidade das audiências com uma combinação de suspense e efeitos visuais de cortar a respiração, que deixa qualquer um agarrado ao ecrã. Com estreia mundial na plataforma da Netflix, onde ainda se encontra disponível para streaming, foi apenas exibido em salas de cinema na China, falhando por completo nas bilheteiras. No entanto, não pode ser considerado como fator representativo da qualidade do filme.

Baseado no livro epónimo de Jeff VanderMeer, Annihilation leva-nos ao Shimmer, uma zona quarentenada, com criaturas mutantes, que guarda um segredo ainda por desmistificar. Apesar de se assemelhar a várias premissas de séries televisivas, com Stranger Things à cabeça, Garland sabe direcionar as particularidades deste universo rumo a uma narrativa interessante de acompanhar. Oferece conteúdo bem estruturado, ousado e original, mesmo que se aproprie do axioma das dimensões paralelas onde residem seres extraordinários. O realizador raramente dá respostas e incentiva o público a utilizar a sua fértil imaginação para decifrar o caminho psicadélico das quase duas horas de filme. Mesmo após o seu final, obriga a audiência a procurar um sentido para o que acabou de testemunhar. E fá-lo muito bem, pois o que decorre em Annihilation dificilmente sai da cabeça de um comum mortal.

Ora, mas para que o filme consiga impactar o público, é imperativo conjugar uma estrutura sólida que facilite o sucesso. E Alex Garland teve essa estrutura ao seu dispor. Desde o elenco liderado por Natalie Portman e Jennifer Jason Leigh, que dão maior relevo à narrativa, aos efeitos visuais, que acrescentam maior intriga à excursão ao Shimmer. Esta combinação faz com que a ação obtenha outra relevância, especialmente ao nível da experiência. Pequenos detalhes na fotografia e na animação levam os espetadores a sentir-se como membros integrantes da estória, como se estivessem a partilhar as experiências das personagens em simultâneo.

É precisamente aqui que o elenco, como mencionei há pouco, consegue evocar sensações desconcertantes e transferi-las para quem está recostado no sofá a ver o filme. O caos, o desespero, a obsessão por encontrar respostas a perguntas que se tornam cada vez mais indecifráveis. As alucinações de quem percorre o Shimmer também passam a ser nossas e não se limitam aos fantásticos efeitos visuais que a audiência presenceia. É a própria atuação dos protagonistas, no meio da encenação, que concede essa partilha de experiências e uma viagem a um mundo paralelo sem sair de casa.

Annihilation consegue entreter, apesar de não conter muitos momentos de ação alucinante. Apesar de se pautar, em certas ocasiões, por ritmo lento, a sua imprevisibilidade é suficiente para manter qualquer um com os olhos colados ao ecrã. Alex Garland trabalha a sua ficção científica com alguns laivos de realismo, que se cruzam para originar um mistério que a própria audiência terá que desvendar durante a narrativa. Para quem tiver curiosidade sobre os efeitos do consumo de estupefacientes, vejam o filme. Não se esqueçam de que o primeiro mês de Netflix é grátis.

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