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Anohni: uma rapariga anónima

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O sexo, as questões de género, a guerra, a política: estas são temáticas que fizeram renascer das cinzas Anohni, um novo projeto que deu uma identidade completamente refrescante a Antony Hegarty – membro criador do coletivo Antony and The Johnsons.

Em Hopelessness, o disco de estreia lançado a dia 6 de Maio, Anohni foca-se em temas que a deixam inquieta: a condição humana baseada em comportamentos heteronormativos e a importância da defesa e proteção da biodiversidade no cenário de desgaste imposto pela vida moderna. Critica, também, a ambição económica e o consumismo desenfreado, de uma maneira quase anti mercantilista.

Mas, como qualquer boa samaritana, ela apresenta soluções que passam pelo reforço do poder feminino na sociedade, visando anular os desequilíbrios historicamente comprovados pelos sistemas patriarcais da religião, da economia e do poder.

A verdade é que a artista, adjacente à sua música, faz parte da Future Feminist Foundation, uma organização que fundou em Nova Iorque com um grupo de artistas, unidos pelo desejo de reorganizar a sociedade, de modo a salientar e reforçar os valores do arquétipo feminino. Por exemplo, um dos seus princípios básicos é o de que a subjugação das mulheres e do planeta Terra “têm precisamente as mesmas causas. Assim, somente um novo paradigma cultural dominado por mulheres poderá evitar um desastre ecológico global”, como se pode ler na página oficial do Facebook da organização.

Contudo, para ganhar esta bravata, Anohni teve de se inspirar em grandes nomes de modo a ter coragem para embarcar nesta aventura. Sendo transgénero, viu-se representada em Marsha P. Johnson, a famosa ativista pelos direitos da comunidade afro-americana e dos transexuais. Aliás, Anohni dedicou-lhe a música River Of Sorrow, presente no seu álbum de estreia homónimo, lançado em 2000.

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Mas não esqueceu também os seus heróis do costume, como Boy George e Lou Reed; e é nesta esfera andrógena e contestável do rock n’ roll que o horizonte da nossa artista abriu em grandes proporções.

Depois de uma pausa de quase seis anos, 4 Degrees foi o primeiro single que se ouviu do novo projeto, espantando tanto os críticos como os fãs devido ao seu dramatismo enrolado numa produção mais eletrónica e experimental. Tal como o resto do álbum, o conteúdo lírico é mais arrojado e provocativo, invocando a reunião que aconteceu em Paris sobre as alterações climáticas de uma maneira mais macabra e fatal: “I wanna burn the sky/ I wanna burn the breeze/ I wanna see the animals die in the tree/ I wanna see them burn/ It’s only 4 degrees”.

Já o segundo single, Drone Bomb Me, segue os mesmos caminhos avassaladores e sem remorsos. Todavia, neste caso, foi o videoclipe da música que surpreendeu o público. Nele encontramos a modelo Naomi Campbell exposta de uma maneira emocionalmente crua. Até agora, o vídeo tem sido considerado como um dos melhores do ano, graças, então, à sua carga comovente e submissa.

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E foi com estes motes que Hopelessness nasceu: um fruto visceral da mente de Anohni – com a ajuda do produtor Oneohtrix Point Never e de Hudson Mohawke –, que, para além de se desprender de uma abordagem Chamber Pop e Baroque, maioritariamente presente em I Am a Bird Now (2005) ou The Crying Light (2009), dá vida a uma nova pessoa que se completa ao cantar sobre aquilo que faz mais sentido para ela: a condição humana, na sua mais sincera e clara forma.

A voz desta rapariga em anonimato, seja de que género for, soa como um lamento que parece alcançar uma profundidade emocional invulgar sobre o público. E Portugal terá esse privilégio, uma vez que Anohni agendou dois concertos nos Coliseus: dia 21 no Porto, e dia 22 no Coliseu dos Recreios.

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