7ª Arte

Baby Driver

Este verão ficou marcado pelo regresso de Edgar Wright ao grande ecrã com Baby Driver. Conhecido pela recorrente colaboração com Nick Frost e Simon Pegg na Trilogia Cornetto (onde se incluem Shaun of the Dead, Hott Fuzz e The World’s End), foi a segunda vez que o realizador inglês se aventurou a solo na indústria cinematográfica, após o sucesso de Scott Pilgrim vs. The World (2010).

Baby Driver é um estonteante filme de ação com subtis toques de humor, romance, ritmo e emoção. Quase como uma homenagem aos grandes clássicos do género das décadas de 60 e 70, Wright desenvolve o protagonista, Baby (Ansel Elgort), que vive mergulhado na música dessas décadas (e não só!).

A idiossincrasia de Baby não o impede de ser, no entanto, um exemplar motorista de fuga. Trabalhando para um misterioso génio criminal, Doc (Kevin Spacey), ajuda os seus assaltantes a fugirem dos locais de crime sem deixar qualquer rasto. Não obstante da sua vida repleta de adrenalina, o seu coração ainda tem espaço para Deborah (Lily James), uma empregada de mesa que Baby conhece e que o faz questionar muitos dos seus valores.

Estes aspetos primordiais na narrativa abrem caminho para uma simbiose entre plano e música de fundo: a banda sonora que compõe o filme baseia-se meramente nas músicas que Baby vai ouvindo nos seus headphones.  O génio inventivo que vive em Edgar Wright, tal como sucedera em Scott Pilgrim vs. The World, consegue personalizar a história em torno do protagonista, tornando o que seria mais um filme baseado num guião não muito forte, numa obra de arte memorável.

Seja um batuque num prato, um pequeno acorde numa guitarra, um ligeiro pressionar de uma tecla de um piano, tudo serve para acompanhar os movimentos das personagens. Esta junção música/plano é o concretizar de uma meta-obra bem pensada e estruturada, um dos fatores que torna Baby Driver tão distinto da maioria das estreias do verão de 2017.

Claro que este abraço metafórico entre cinema e música não seria suficiente para fortalecer Baby Driver. É por isso que Wright, através dos seus dotes criativos de realizador, engrandece o guião com cenas dignas de um Velocidade Furiosa – Done Right. Ângulos e planos arrojados comprovam o espírito ambicioso do cineasta britânico que opta por seguir desvios pelas Estradas Nacionais ao invés de tomar a auto-estrada dos clichés de ação Hollywood. É este o ponto de diferença entre o comodismo e a irreverência cinematográfica, esta última cada vez uma maior raridade numa indústria que prefere jogar pelo seguro.

Ainda que a previsibilidade tenha marcado presença – a audiência nunca é levada ao limiar do inesperado –,  o surpreendente também surge a espaços. A simplicidade do guião não permite grandes exuberâncias na narrativa, mas consegue oferecer momentos inesperados, twists coerentes e interligados com a história, conferindo incerteza até ao último segundo.

Crime, ação, drama, romance. Há uma dose certa de cada elemento em Baby Driver, um filme que no seu conjunto vale muito mais que o guião mas que se agiganta com o trabalho de Edgar Wright e o forte elenco que o compõe. É a invasão da ousadia britância à indústria cinematográfica americana. É, de igual forma, provavelmente o melhor filme que podem ver até ao período quente dos Óscars.

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