Literatura

Belinda versus ceticismo: quem ganhará?

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Figura 1 – Versão portuguesa

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Figura 2 – Versão espanhola

Bel – O Amor Para Além da Morte, da escritora espanhola Care Santos, é um dos livros mais misteriosos que se encontram na minha estante. O facto de o tema ser a morte não o justifica: Bel é uma rapariga de dezasseis anos que, certo dia, entra em casa e encontra tudo diferente – a relação dos seus pais está por um fio, a sua melhor amiga age de uma forma diferente e o seu namorado, Isma, permanece em coma num hospital. Após estranhar todos os acontecimentos que sucedem repara que o seu fiel cão ladra quando a vê e ninguém nota a sua presença. Quando se olha ao espelho e é incapaz de observar o seu reflexo, Belinda apercebe-se de que algo muito grave aconteceu: morreu. Talvez por tê-lo lido aos treze anos, esta incongruência das primeiras páginas me tenha assustado e marcado indelevelmente.

Incongruência na medida em que a última coisa que o leitor pretende é pensar que Belinda está morta, pois simpatiza com ela desde a primeira página. De facto, a autora consegue jogar com a vida e a morte como poucos: um dos principais locais onde decorre a ação é a biblioteca municipal da cidade de Bel, onde ela passa várias noites a investigar tudo aquilo que possa estar relacionado com o fatídico dia 22 de dezembro de 2008. E, com toda a sinceridade, entrar no pensamento da protagonista e imaginar ler o meu próprio obituário e descobrir as circunstâncias da minha morte foi, acima de tudo, uma experiência inesquecível.

Porquê? Porque Bel faz um pouco de tudo: revolta-se, cria um pseudónimo virtual para se vingar daquela que considerava ser a sua melhor amiga, tenta passar para a outra dimensão e, logicamente, não encontra a tão aclamada “luz” porque ainda deve permanecer na Terra devido a situações mal solucionadas… Outro ponto-chave deste livro é, sem dúvida, a playlist: Bel foi construída como fã dos McFly e creio que determinadas letras se adequavam na perfeição à sua situação. Uma das músicas mais presentes na narrativa era I’ll Be Ok e, na versão espanhola, o livro inclui um CD com a banda sonora do livro, algo que acho absolutamente fascinante.

E há outra coisa que, a meu ver, joga a favor desta obra: as notícias fictícias sobre a morte de Bel, desde o acontecimento até à investigação policial, foram recriadas em jornais e colocados em diversas páginas, o que cria uma sensação fria de terror e, simultaneamente, uma proximidade alarmante. Como leitora, cheguei a um ponto em que tinha de interromper a leitura, respirar e sussurrar: “Isto não é real”.

Contudo, não é um livro de “fácil absorção” por todas as mentes. Ao escrever abertamente sobre a vida para além da morte e questionando-se constantemente, realizando a separação entre o mundo terreno e o mundo mais “oculto”, dos mortos, em nome de Bel, Care Santos acabou por restringir o seu público-alvo àqueles que estão dispostos a acreditar na travessia para a luz, com páginas repletas de espíritos terrenos e a total desconstrução do ceticismo.

Com palavras fortes mas frases fluídas e maturidade em cada parágrafo, Care aproximou-se do público juvenil e conquistou terreno na literatura: honestamente, fãs da série Em Contacto e dos livros Se Eu Ficar e Espera Por Mim – a vossa próxima obsessão está aqui!

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Se virem uma rapariga com o cabelo despenteado, fones nos ouvidos e um livro nas mãos, essa pessoa é a Maria. Normalmente, podem encontrá-la na redação, entusiasmada com as suas mais recentes descobertas “AVIDeanas”, a requisitar gravadores, tripés, câmaras, microfones e o diabo a sete no armazém ou a escrever um post para o seu blogue, o “Estranha Forma de Ser Jornalista”… Ah, e vai às aulas (tem de ser)! Descobriu que o jornalismo é sua minha paixão quando, aos quatro anos, acompanhou a transmissão do 11 de setembro e pensou: “Quero falar sobre as coisas que acontecem!”. A sua visão pueril transformou-se no desejo de se tornar jornalista de investigação. Outras coisas que devem saber sobre ela: fica stressada se se esquecer da agenda em casa, enlouquece quando vai a concertos e escreve sempre demasiado, excedendo o limite de caracteres ou páginas pedidos nos trabalhos das unidades curriculares. Na gala do 5º aniversário da ESCS MAGAZINE, revista que já considera ser a sua pequena bebé, ganhou o prémio “A Que Vai a Todas” e, se calhar, isso justifica-se, porque a noite nunca deixa de ser uma criança e há sempre tempo para fazer uma reportagem aqui e uma entrevista acolá…!

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