‘Black Friday’: Capitalism Gone Wild

Como não vivemos numa bolha, todos sabemos o que é a Black Friday – nem que seja pelo insólito. Se calhar, para vocês, é apenas o dia do caos nos centros comerciais: filas intermináveis, roupa desarrumada e descontos. Muitos descontos. No entanto, senti necessidade de escrever este artigo não só para enriquecer a minha cultura, como a vossa. Sabem como surgiu este dia? Conhecem a explicação para o termo? Fiquem a saber tudo!

Para começar, importa referir que a Black Friday surgiu nos EUA (que surpresa…) e que calha sempre na 4ª sexta-feira do mês de novembro. É também o dia seguinte ao Dia de Ação de Graças (Thanksgiving), que se celebra na 4ª quinta-feira de novembro. Por exemplo: este ano, o Thanksgiving é dia 28 (quinta-feira) e a Black Friday é dia 29 (sexta-feira) de novembro.

O Thanksgiving ficou consolidado enquanto feriado em 1863, graças a Abraham Lincoln. A Black Friday, por seu turno, é muito mais recente. O termo em si foi utilizado pela primeira vez em 1869, ainda nada tendo que ver com o que é hoje. Dois acionistas de Wall Street – Jim Fisk e Jay Gould – compraram ouro em grandes quantidades, pois acreditaram que o seu valor e preço aumentaria e que teriam lucro ao voltarem a comercializá-lo. No entanto, dia 24 de setembro de 1869, o mercado de ouro dos EUA colapsou, as ações desvalorizaram e os dois ficaram falidos. Este acontecimento foi apelidado de ‘Black Friday’.

Contudo, o significado atual do termo data de 1951. Umas lojas em Filadélfia (EUA) começaram a fazer campanhas para o dia seguinte ao Thanksgiving e muitos trabalhadores desataram a pedir folgas, na tentativa de terem um fim de semana prolongado (quatro dias). Assim, tinham oportunidade de ir às compras e de aproveitar estas campanhas. Foi o jornal Factory Management and Maintenance que registou o termo pela primeira vez.

Fonte: Grace Kim/The Balance

Friday’, porque é sempre a uma sexta-feira. Mas porquê ‘Black’? Pelos vistos tem que ver com o facto de as campanhas terem atraído enchentes, o que fez com que as ruas ficassem congestionadas com trânsito e multidões. O fumo dos carros, os roubos que se propiciavam e toda a confusão levaram o Departamento Policial de Filadélfia a descrever o cenário como ‘Black Friday’ – os polícias não conseguiam pedir folga e tinham de cumprir turnos longos para controlar este caos.

Em 1975, o The New York Times referiu-se ao termo Black Friday como “the busiest shopping and traffic day of the year“. Quase 45 anos depois e esta descrição mantém-se legítima. A Black Friday é, de facto, o dia em que são feitas mais compras em todo o ano. Desde esta altura que muitos aproveitam a ocasião e os descontos para iniciar as compras natalícias.

Há quem diga que a maior parte dos descontos são treta – preços inflacionados nas horas anteriores, com o intuito de iludir o consumidor. Quanto maior for o desconto, mais inclinados ficamos para comprar o item – isso é um facto. Claro que é melhor se o belo do autocolante vermelho estiver numa zona que nos permita ver o preço anterior; ficamos com a consciência mais descansada, mas com a carteira menos pesada…

Os autocolantes que tanto gostamos de ver são obra dos funcionários que lá passaram a madrugada. Deve ser para lá de frustrante ficar horas a etiquetar peças de roupa e a deixar tudo arrumado para, no dia seguinte, em menos de uma hora estar tudo virado do avesso (literalmente). Não admira que muitos tentem pedir folga!

As lojas viram uma autêntica selva. Aliás, desde 2006 já morreram 12 pessoas só nos EUA. Foram ainda registados 117 feridos. Parece inconcebível, mas é o consumismo a subir à cabeça das pessoas. Numa altura farta em consciencialização ambiental, não dá para esquecer o quanto a superprodução da indústria têxtil contribui para as alterações climáticas. Ainda assim, custa-me a crer que o fenómeno desacelere.

Fonte: Jack Taylor/Getty Images

Numa perspetiva mais pessoal, de há uns anos para cá gosto sempre de tirar o dia da Black Friday. Chamem-me louca, mas para mim é uma terapia. Também estranhava quando diziam que ir às compras podia servir como tal, mas agora compreendo. Ganhei um gosto por ver lojas sozinha que não tinha quando ia com amigos – porque me sentia apressada ou pressionada, não sei bem. Mesmo assim, há algo de muito prazeroso na dor de braços causada pelo peso dos sacos. E na Black Friday tendem a ser muitos.

Ganhei o hábito de comprar pouca roupa ao longo do ano para poder esbanjar neste dia. Inclusive já me chamaram de “louca dos saldos”, porque aproveito cada oportunidade. Para quê comprar uma peça a um valor nada simpático se posso comprar duas ou três com o mesmo dinheiro ou até mesmo esperar que o preço da peça em questão diminua?

A minha maior compra de Black Friday foi, sem dúvida, o meu Macbook Air. Claro está que passou de caríssimo para caro, mas foi a melhor altura para esse investimento. Também já consegui comprar uns New Balance que andava há anos a namorar por menos 30€ do preço original! Este ano não estou a contar fazer gastos tão exacerbados (nem tão pouco a minha carteira mo permitiria), mas espero encontrar boas oportunidades.

Sexta-feira lá estou eu no Colombo logo pela manhãzinha – é que nem vai custar a acordar. Ainda por cima tenho dia livre, o que calha mesmo bem. Por acaso nunca tive o hábito de fazer compras online, algo muito recorrente nos dias de hoje. Se calhar devia submeter-me à causa, pois poupava a confusão, mas, desse modo, perdia a adrenalina.

Se preferem ficar de fora e encher o roupeiro numa altura sem confusão, admiro a vossa sensatez. Se, tal como eu, gostam de se atirar aos leões, desejo-vos boas compras!

Fonte da foto de capa: cnbc

Revisto por Miguel Bravo Morais

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