Opinião

Cartão sem adepto

Depois de ter passado a telenovela da Super Liga europeia, eis que chega mais uma dor de cabeça para os amantes de futebol – o cartão de adepto.

Os tempos modernos ficam marcados por vários flagelos – as calças de cintura baixa, os fidget spinners e o vasto leque de cartões que um cidadão comum carrega consigo. A nossa carteira transformou-se na bolsa do Doraemon onde, para além das notas e dos habituais trocos, ainda inclui o cartão de cidadão, cartão ou cartões de débito, carta de condução e/ou passe, cartão de sócio de clube, cartão de pontos do supermercado e até um cartão de uma loja a que fomos uma vez e o funcionário convenceu-nos a aderir. Convido o leitor a fazer uma pequena reflexão sobre a quantidade e diversidade de cartões que tem na sua carteira.

Os adeptos de futebol teriam, agora, de guardar um espaço para o novo cartão de adepto. Sabemos, sem grande margem para dúvidas, que as claques, grupos organizados e fãs de futebol, muitas vezes, não têm o comportamento mais ortodoxo dentro de um estádio. Da mesma forma, conseguimos, com enorme clareza, perceber que certos comportamentos devem ser castigados, tais como, episódios de violência, racismo e xenofobia que não devem ser ignorados. Mas será o cartão de adepto uma forma fácil de identificar estas pessoas?

Para além do cartão de Adepto se assemelhar a um bolo de bolacha, com várias camadas de parvoíce – o seu custo (20 euros); a forma como é solicitado; para que serve e a sua validade – ao seguirmos o raciocínio de que o cartão de cidadão e o cartão de sócio seriam insuficientes para identificar, teremos de seguir a mesma linha de pensamento em relação ao cartão de adepto.

Sugiro, assim, que haja um controlo ainda mais apertado nos recintos desportivos, onde os amantes de futebol teriam de apresentar análises clínicas dos últimos seis meses; cédula criminal; tipo de sangue; informar a que escalão do IRS pertencem; mostrar as últimas pesquisas no google, últimos e-mails recebidos e explicar, de forma sucinta, um fora de jogo.  Além disso, teriam, também, de ter um código de barras no pulso direito – de forma a ser identificado com mais facilidade – e passar esse código à entrada do estádio. Por fim, o último procedimento seria baixar as calças e tossir, de forma a garantir que nada entraria no recinto. Só este procedimento de alta complexidade irá permitir que o ambiente se suavize no futebol português.

Fonte de capa: Remate Digital

Artigo revisto por Beatriz Merêncio