Opinião

Ser cristão, mas com uma pala nos olhos

Na Sexta-Feira Santa, Pedro dos Santos Frazão – militante do partido Chega – mostrou a sua indignação nas redes sociais pelo facto de Manuel Luís Goucha estar a comer carne no seu programa de televisão, com o seu marido e uma convidada. Em primeiro lugar, conseguimos perceber que os militantes do Chega não perdem tempo com temáticas menores como a pobreza, os efeitos da pandemia na classe média e baixa, as moratórias ou o desemprego. O que tira o sono a Pedro dos Santos Frazão são proteínas. A diversidade de temáticas que interessam ao Chega são fascinantes – tanto se indignam com ciganos e recusam-lhes direitos, como se indignam com pessoas que comem carne – é, de facto, um espetro larguíssimo. Em segundo lugar, conseguimos rapidamente perceber que não faz sentido cobrar a um ateu – como é o caso do apresentador da TVI- as crenças e tradições dos católicos.

Como este caçador de heresias existem tantos outros que olham para algumas passagens da Bíblia como dogmas, mas outras ignoram completamente. Este olhar sectário será analisado hoje por mim, poupando ao leitor horas de análise do Antigo Testamento.

O Livro Sagrado, por mais incrível que pareça, dedica algumas páginas à comida – dizendo aquilo que devemos ou não comer- nunca mencionando a impossibilidade de comer carne na Sexta-Feira Santa. A lista é longa e poderá até deixar Pedro Santos Frazão – nacionalista e católico – muito triste. No que toca aos animais marinhos, “todas as criaturas que vivem nos mares ou nos rios que não possuem barbatanas e escamas serão proibidas para vocês” (levítico 11:10), isto exclui da nossa alimentação a amêijoa, o mexilhão, os percebes, o polvo, o camarão, entre outros. Deixa-me muito triste que os fanáticos religiosos não tenham feito manifestações em frente às marisqueiras ou junto dos pescadores – tenho a certeza de que daria episódios mais divertidos do que manifestações contra a eutanásia ou o aborto.

No entanto, o vasto leque de proibições não termina aqui. A Bíblia proíbe, ainda, o coelho, a lebre, o porco e sangue (Levítico 11:5; 11:6; 11:6 7:27). Estaríamos, assim, perante o fim da cabidela, da morcela, do chouriço, do coelho e da lebre à caçador, do leitão da Bairrada – ou de outro sítio qualquer -, da carne de porco à alentejana e, consequentemente, o fim dos programas de Domingo à tarde como o Somos Portugal. Não esquecendo a proibição de animais que se movem rente ao chão, comprometendo, assim, os tão famosos caracóis (Levítico 11:31). A gastronomia portuguesa é inimiga de Deus e das Escrituras Sagradas.

Mas, apesar deste foque culinário, existem outros assuntos abordados e igualmente esquecidos. A Bíblia acrescenta, ainda, “Quando um estrangeiro viver na terra de vocês, não o maltratem” – Levítico 19:33. Parece-me, no mínimo, paradoxal que um partido cheio de devotos seja o mesmo que oprime minorias.

Por fim, o Levítico dá-nos mais alguns ensinamentos relevantes: “Vocês não poderão exigir dele juros, nem emprestar-lhe mantimento, visando a algum lucro” – Levítico 25:37. É, de facto, uma pena que esta passagem não tenha tanta preponderância. Sugiro aos fanáticos religiosos que deixem de perseguir homossexuais e transsexuais e que passem a perseguir antes bancos e caloteiros. Será uma causa mais digna e que terá mais adeptos.

Fonte da imagem: Twitter

Fonte da imagem de destaque: Notícias ao Minuto

Artigo escrito por Rita Felizardo

Artigo revisto por Ana Rita Sebastião

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