Opinião

Ocidental Praia dos Trapaceiros

Portugal está, habitualmente, atrás de outros países europeus em inúmeros indicadores. No entanto, no que diz respeito à formação de aldrabões e burlões, a Ocidental Praia Lusitana consegue obter resultados bem satisfatórios.

Viver em Portugal assemelha-se a um constante deja vu. O escândalo de João Rendeiro – a sua fuga, o desaparecimento das obras e o paradeiro de milhões de euros – dá-nos a sensação de que já vimos isto tudo antes. Depois de Fátima Felgueiras e a sua fuga para o Brasil; Oliveira e Costa e o colapso do BPN; Berardo e a sua garagem na Madeira; José Sócrates e o seu bestie Carlos Santos Silva; e Luís Filipe Vieira e os seus negócios, este caso parece ser apenas mais um.

Sugiro, em primeiro lugar, que se lance o quanto antes uma caderneta de cromos versão trapaceiros – desenvolvida pela Panini – podendo incluir, além dos nomes acima referidos, ainda Pinto da Costa, Armando Vara, Ricardo Salgado, Vale e Azevedo, entre outros. Está na altura de transformar as amarguras do povo numa coisa divertida, lúdica e pedagógica. Além disso, esta ideia poderá estender-se a outros âmbitos – jogos de tabuleiros – como o Monopólio ou o Cluedo. No Monopólio Trapaceiros não se vai para a prisão, foge-se para um país paradisíaco ou invoca-se malabarismo jurídicos até o crime prescrever. Neste jogo, o banco é encarado como um buffet infindável – o jogador nunca tem de devolver os empréstimos concedidos. Além disso, o jogo contaria, ainda, com o emblemático apartamento de José Sócrates – que era do amigo – com os quadros do Berardo e do Rendeiro e os empreendimentos da Promovalor.

O caso de João Rendeiro, à semelhança dos outros, parece uma típica novela rasca da TVI, com um argumento pobre e caricato. A personagem principal é condenada, foge para parte incerta e assume a fuga no seu blog. No entanto, e para adicionar algum drama, deixa a sua mulher para trás. A personagem principal está, possivelmente, neste momento a beber mojitos e a apanhar escaldões na nuca, enquanto a sua esposa é detida na prisão de Tires. Este pout pourri caótico não termina aqui. A bizarria aumenta de tom quando percebemos que parte dos quadros de Rendeiro podem ter sido falsificados para tentar enganar a justiça. Quentin Tarantino e Steven Spielberg deviam tirar notas e aprender alguma coisa com a ‘chico-espertice’ dos trapaceiros portugueses para escreverem histórias surpreendentes e inovadoras. O ponto mais surpreendente desta história de ação é o facto de a esposa do ex-banqueiro não ter fugido com ele, pois o amor às suas cadelas – cujos nomes são Clara, Joana e Boneca- superioriza-se a qualquer outra coisa.

Por fim, depois de tantos escândalos de corrupção, desfalques a bancos, ‘troca pés’ à justiça, lanço o repto a todas as casas de apostas para se borrifarem para o futebol e abrirem a possibilidade de apostar no próximo trapaceiro de Portugal.

Fonte da capa: Jornal de Negócios

Artigo revisto por Catarina Peixe

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