Cenas da bola: Paulinho e Mourinho

O futebol é a minha vida. Jogo desde que me lembro, desde que tenho memória, apesar de me recordar de que comecei no futsal. Eu nem sabia para que lado devia jogar: só queria a bola. Tenho passado anos não só a jogar futebol federado (mesmo que seja em divisões de porcaria), mas também a jogar futebol virtual, porque para mim não basta perder tempo a ser mau na vida real: tenho de perder a minha sanidade mental a imaginar-me como um pseudo-Mourinho ou a aprender as skills todas no FIFA simplesmente para mandar os flexes mais esquisitos de sempre. É até perder a bola e sofrer golo atrás de golo.

Por falar em Mourinho, posso dizer que, apesar da minha ainda curta, amadora, mas intensa e apaixonada carreira futebolística, já apanhei, como jogador e como adversário, a minha quota parte de treinadores com personalidades, no mínimo, peculiares. Já vi um treinador ir-se embora ao intervalo e a equipa ficar entregue ao delegado. Outro entrou numa batalha campal quando um dos seus jogadores armou confusão. Mourinho nunca chegou a esse ponto, mas há que admitir que o ego do “já não tão special one” é algo com que não é fácil lidar. Se há alguém que pode ter um bocadinho de orgulho próprio, é alguém tão bem-sucedido como Mourinho. Contudo, não deve estar desenvolvido ao ponto de haver zero evolução no pensamento tático do mestre sadino, mesmo quando não resultava e quando a motivação do mesmo já não era a de Mourinho portista, após muitos troféus e muitos milhões. De qualquer maneira, não é desculpa para eventuais displicências nas suas últimas aventuras.

Como jogador, tenho de admitir que é difícil jogar bem quando não se gosta de um treinador ou não se concorda com ele. Há aquele sentimento de que as coisas não estão bem como deviam estar: paira um certo desconforto, e isso afeta a performance. No entanto, depende de cada um: há quem use conflitos para se elevar, e há simplesmente quem não queira saber e jogue sempre da mesma maneira, quer dê tudo o que tem, quer leve as coisas na descontra. No entanto, isto é relativamente compreensível quando estamos a falar de pessoal que não leva o futebol como uma profissão. Levam a sério, mas dentro das possibilidades do seu trabalho verdadeiro, dos estudos, daquilo que seja.

Futebolistas profissionais ganham rios, lagos, oceanos, universos de dinheiro, quantidades incomensuráveis e inalcançáveis de dinheiro, mais do que a minha família toda combinada ao longo de inúmeras gerações. Por isso mesmo, faz-me confusão ver jogadores como Paul Pogba a arrastarem-se em campo porque, aparentemente, não gostam do treinador. Não é necessário correr feito uma galinha sem cabeça a comer a relva, mas convém, pelo menos, jogar com algum brio, porque gosta de jogar à bola e não gosta de perder, e eu recuso-me a acreditar que há alguém com o talento futebolístico de Paul Pogba, que ganhe o dinheiro que ele ganha e que não goste de jogar à bola. É inadmissível. De qualquer maneira, todos ficaram a ganhar: os adeptos do United veem a equipa a ganhar, comandada pelo “Baby-Faced Assassin”; Paul Pogba não tem de aturar Mourinho e vice-versa, e cada um vai ganhando os seus milhões; e eu continuo no meu canto a jogar o meu futebol, sabendo que nunca na vida vou ganhar dinheiro com isso. Maravilha!

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Fonte: Getty Images

Artigo corrigido por Mariana Coelho

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