Música

Coachella: o palco dos influencers?

Durante dois fins de semana em abril, a internet enche-se de conteúdos relacionados com um dos maiores festivais de música do mundo: o Coachella. Este ano, a 25ª edição contou com grandes nomes da música, incluindo o intemporal Justin Bieber, Sabrina Carpenter e Karol G.

Este fenómeno gera enorme cobertura mediática, não só pelos artistas, mas também pela dimensão do público e pelo preço elevado dos bilhetes. Com o acesso às redes sociais, muitos participantes partilham as suas experiências, incluindo os custos associados, que podem atingir os milhares de dólares. 

No entanto, nem sempre foi assim. O festival surgiu num contexto de tensão com plataformas de venda de bilhetes, como a Ticketmaster, refletindo uma relação de amor-ódio que, ao longo dos anos, se tem tornado cada vez mais evidente. 

Antes de existir o festival como o conhecemos, a indústria musical norte-americana enfrentava bastantes críticas relativamente ao domínio da Ticketmaster. Esta empresa era frequentemente acusada de dominar os preços de bilhetes, aplicando taxas e muitas vezes resultando em preços acima do valor base. Além disso, os artistas não podiam escolher livremente onde vender bilhetes e teriam de atuar em salas de espetáculo com acordos com a plataforma.

Perante esta situação, na década de 90, a banda Pearl Jam desafiou o sistema de distribuição de bilhetes ao recusar-se a atuar em salas controladas pela empresa. Com esta atitude, demonstraram que seria possível atuar em locais fora do controlo da Ticketmaster.

Fonte: Expresso

Foi nesse contexto que a promotora Goldenvoice, liderada por Paul Tollett, lançou o Coachella, em 1999, inspirando-se em eventos europeus como o Glastonbury Festival. A primeira edição reuniu artistas como Rage Against the Machine e Beck, mas que, apesar do reconhecimento artístico, resultou em prejuízo financeiro. O festival chegou mesmo a ser interrompido no ano seguinte, colocando em causa a sua continuidade.

Regressou em 2001 com um dia de espetáculo e bilhetes mais acessíveis, numa tentativa de reconquistar o público. Esse esforço revelou-se decisivo para a sobrevivência do evento, que, ao longo dos anos seguintes, foi crescendo, expandindo a duração e consolidando a sua identidade.

À medida que a sua popularidade aumentava, também crescia a pressão entre manter preços relativamente acessíveis e responder a uma procura cada vez maior. Com o passar do tempo, o Coachella deixou de ser apenas um festival de música alternativa e tornou-se um fenómeno global, onde a experiência vai muito além dos concertos. 

No espaço das redes sociais, ir ao Coachella em nome de uma marca tornou-se uma forma de status social, em que produzir conteúdo quase se tornou mais importante do que o suposto ponto principal do festival: a arte e a música.

Fonte: Pinterest/Canva

A edição que aconteceu este ano gerou uma grande atenção, sendo uma das razões o regresso de Justin Bieber aos palcos, que realizou uma atuação minimalista. À frente de um computador, contrastando com a imensidão do palco principal, o cantor viajou no passado ao interpretar músicas nostálgicas e até ao revisitar momentos insólitos da sua carreira. No TikTok, o áudio de uma das músicas que o cantor atuou acabou por viralizar, depois de Bieber ter mudado o registo da voz ao longo da atuação, começando num tom mais grave e depois voltando à voz típica do início dos anos 2010 – durante a canção “Beauty and a Beat”.

Sabrina Carpenter atuou na sexta-feira de cada fim de semana. Com mudanças de figurinos, cenários elaborados e uma abordagem fortemente teatral, Sabrina impressionou tanto o público presente como os que acompanharam no “couchella” (no sofá, em casa). A sua atuação contou ainda com participações especiais, incluindo uma colaboração com Madonna, na segunda vez em que subiu ao palco neste ano. Espera-se uma versão live das músicas nas plataformas digitais… quem sabe, pode ser que ceda aos pedidos dos fãs. 

Já Karol G levou ao palco principal a celebração da música latina. O espetáculo destacou-se pela forte componente visual, coreografias intensas e transições de palco que acompanharam diferentes fases da sua carreira. Ao longo da atuação, Karol G apostou numa ligação direta com o público, alternando entre momentos de grande impacto e outros mais emocionais, consolidando a sua posição como uma das artistas latinas mais influentes da atualidade e reforçando a crescente presença da música em espanhol no panorama global do festival.

A espetacularidade do festival é uma das suas características, mas fica certamente a dúvida de se o festival acabou por se afastar das motivações pelas quais foi inicialmente criado: o boicote a uma plataforma de vendas que monopoliza e inflaciona os preços dos bilhetes.

Fonte da capa: Wikipédia

Artigo revisto por Miguel Calixto

AUTORIA

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Atualmente no seu terceiro ano de licenciatura em Jornalismo, a Marta já descobriu o que é estar por detrás das câmaras, dos ecrãs e das páginas escritas. Mais do que tudo, adora ouvir música e estar a par do que se passa no universo pop, além de procurar sempre os melhores filmes e séries para uma tarde chuvosa perfeita. Assim que entrou na ESCS, encontrou na ESCS Magazine o seu lugar: começou como redatora de Cinema e Televisão, passou a Editora no ano seguinte e, agora, no seu último ano na melhor revista de Benfica, abraça com entusiasmo o cargo de Editora Executiva — um desafio que aceitou com todo o carinho!