Confronto entre extrema-direita e esquerda

A manifestação organizada pelo Partido Nacional Renovador (PNR) para a passada terça-feira à tarde, em frente à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), em Lisboa, foi surpreendida com uma mobilização adversária de quase quinhentas pessoas.

(Fotografia da ESCS MAGAZINE) Confronto entre PNR e esquerda decorreu à porta da FCSH

As(os) cerca de vinte membros do partido chegaram à Avenida de Berna pelas 17h30, com bandeiras nacionais e do PNR. Acompanhavam algumas(ns) delas(es) máquinas de sulfatar, que tinham o objetivo de “matar o fascismo de esquerda”, sendo que quem as levava considerava “os esquerdopatas” “uns parasitas”. O PNR colocou à vista uma faixa que dizia “Pelo nacionalismo renovador, liberdade de expressão” e prendeu numa das árvores existentes no local um pano com a mensagem “Censura e pensamento único a cona da tua tia”. Mas, enquanto simulavam desinfestar os muros da FCSH, entre as(os) manifestantes e a porta da faculdade juntaram-se algumas dezenas de estudantes. Assim, quando se preparava para iniciar o protesto, marcado para as 18h, o partido tinha já à sua frente uma força de bloqueio, que na meia hora seguinte cresceu para cerca de quinhentos elementos.

(Fotografia da ESCS MAGAZINE) Vista do confronto no passeio contrário. À esquerda, a contra-manifestação; à direita, o protesto do PNR, que contou com muito menos apoiantes

Os dois grupos rivais atiraram insultos um para o outro, separados apenas por um ou dois metros, com pouca polícia presente e sem intervenção desta. As autoridades só chegaram em força quando as(os) adversárias(os) estavam perto da agressão física: a PSP (Polícia de Segurança Pública) pediu reforços, incluindo elementos das Equipas de Prevenção e Reação Imediata (EPRI), chegando a estar presentes quase trinta polícias. Aí, alguns deles formaram um cordão entre os dois protestos, separando-os.

Alguém da contra-manifestação (como a polícia considerou a multidão que reagia à extrema-direita) atirou um cone de sinalização de estrada para as(os) membros do PNR, não acertando no líder do partido, José Pinto Coelho, por pouco. A reação deste foi tirar o cinto das calças e, já agarrado pela polícia e por alguns colegas, ameaçar as(os) adversárias(os). “Foi para me defender, pois começaram a arremessar objetos”, explicou, mais tarde. No entanto, que tenha havido “arremesso de pedras da parte dos estudantes”, como o Jornal de Notícias afirma erroneamente, não é verdade.

Apesar da tensão entre os dois grupos, apenas uma pessoa ficou ferida, que foi um estudante que teve uma baixa tensão e caiu no chão, ferindo-se – sendo depois levado para o hospital. O confronto levou, mesmo assim, ao corte do trânsito na zona por mais de meia hora, tendo-o depois as autoridades condicionado a uma via, dentro das três da avenida naquele sentido, durante o resto do protesto.

José Pinto Coelho tirou o cinto, em resposta ao arremesso do cone

 

LUTA DE PALAVRAS

A manifestação baseava-se em discursar ao microfone, cujo som era amplificado por uma coluna. No entanto, poucas ou nenhumas palavras se ouviam de cada discurso, abafadas pelos gritos das(os) estudantes e professoras(es) da FCSH, entre outras pessoas a elas unidas contra o fascismo. Intercalados com os discursos, surgiam insultos dos nacionalistas para com a multidão, tal como desta para com o partido, sendo o “fascistas” utilizado tanto de um lado como do outro.

O PNR gritava “Morte ao Bloco de Esquerda”, “Palhaços”, “Viva Portugal” e “Abaixo o fascismo de esquerda”, sendo que um dos elementos do partido deixou à mostra a tatuagem de uma cruz suástica que tinha no antebraço interior. Já a multidão gritava “Fascistas, fascistas, chegou a vossa hora. As imigrantes ficam e vocês vão embora”, “Estudantes unidas jamais serão vencidas” e “Não é liberdade a liberdade de oprimir”. A contra-manifestação tocou tambores e cantou a “Grândola, Vila Morena”, a que o partido respondeu com o hino nacional.

A luta de palavras permaneceu até às 20h10, hora do fim da manifestação, mesmo quando apareceu, ao anoitecer, um grupo de cerca de vinte jovens skinheads, pertencentes ao Movimento de Oposição Nacional (MON), uma antiga parte do PNR que entretanto se separou do partido. Aí, no entanto, várias pessoas do contra-protesto taparam a cara, por “medo de que os skins [os] identifiquem”, explicou uma delas, que preferiu manter-se anónima, por questões de segurança; “é comum agredirem pessoas da esquerda e minorias”, acrescentou. Apesar do medo que insurgiu, o MON saiu da manifestação não muito tempo depois. Algumas pessoas relataram terem visto alguns deles escondidos em ruas próximas da Avenida de Berna, para, alegadamente, atacarem quem saísse do contra-protesto. No entanto, a polícia afirma não ter havido queixas de agressão nessa noite.

 

A manifestação não correu como previsto. As autoridades combinaram com o diretor da FCSH os protestantes situarem-se no outro lado da avenida, tendo eles ficado, do início ao fim da ação, no passeio da faculdade, junto à entrada. Uma fonte policial afirmou estimarem-se “entre quarenta a sessenta pessoas” presentes no protesto e “algumas dezenas” na contra-manifestação. A polícia esperava também que o evento decorresse “entre as 18 horas e as 19h30”, tendo começado meia hora antes e acabado quarenta minutos depois. E o vice-presidente do PNR, João Pais do Amaral, pediu à polícia que afastasse as(os) jornalistas, avisando-as(os) de que só entrevistariam quem ele deixasse – duas situações que não tiveram seguimento.

 

Para Fernando Rosas, professor na FCSH, é importante a mobilização estudantil e das pessoas da faculdade “contra meia dúzia de energúmenos que tinham [ido] apenas provocar”. Rafaela Neves, estudante na mesma instituição, considera os manifestantes “um grupo muito mal informado”, realçando que “ninguém pôs em causa a liberdade de expressão de ninguém”, referindo-se ao adiamento da conferência “Populismo ou democracia? O Brexit, Trump e Le Pen em debate”. Já para o líder do partido em protesto, que apelida os contra-protestantes de “uns comunistas do pior”, “o nacionalismo está a crescer, e é bom que os portugueses percebam isso. Houve o Brexit e o Trump… Estas coisas vão surgindo, são dinâmicas”.

 

O PORQUÊ DA MANIFESTAÇÃO

Um dos manifestantes do PNR fez a saudação nazi

O mote do protesto foi “PREC nunca mais”, fazendo referência ao Processo Revolucionário em Curso (ou o Verão Quente de 1975). O PNR convocou a manifestação sob o lema “contra o totalitarismo do pensamento único e pela liberdade de expressão para todos”, em resposta à decisão da direção da faculdade de adiar a conferência agendada para o passado dia 7, com o politólogo Jaime Nogueira Pinto como único orador. Mas o líder do partido afirma que “esta manifestação vai além” disso: “Queremos protestar contra o marxismo-cultural, que é a mentalidade que domina a nossa sociedade”.

A iniciativa do PNR foi anunciada há duas semanas, no pico da discussão sobre o adiamento da conferência de Nogueira Pinto. Na informação publicada no site do partido na internet, os nacionais renovadores dizem que vão “protestar para prevenir a sombra de um novo PREC, mais colorido e travestido que o anterior, mas certamente mais tenebroso, porque dissimulado”.

Nem Jaime Nogueira Pinto nem Rafael Pinto Borges estiveram presentes na manifestação ou se associaram a ela.

 

EVENTOS DA FACULDADE

No mesmo dia do protesto do PNR, mas horas antes de ele se iniciar, o pátio de entrada na FCSH estava invulgarmente cheio. Decorreram dois eventos: o primeiro para assinalar o Dia Mundial da Luta Contra a Discriminação Racial, promovido pela Associação de Estudantes (AE) da faculdade; e o segundo, convocado por ex-alunos, para falar sobre o jornalismo e os media.

O primeiro foi organizado por docentes, investigadoras(es) e alunas(os), tendo sido autorizado pela Direção. Incluiu um debate, no qual participaram diversas associações de combate ao racismo, leitura de poemas e outras atividades de cariz cultural. O debate tratou as alterações recentes da lei, já com 21 anos: o desejo é que passem a ser criminalizados os atos racistas. A AE frisou: “isto não é uma contra-manifestação” à do PNR. Um dos motivos do evento é “celebrar a Primavera”, mas também “não (…) pactuar com o silêncio num momento em que ideologias fascistas e xenófobas se mobilizam para atacar o pluralismo e a democracia, componentes incontornáveis do ensino no nosso país”, como se pode ler no seu manifesto. Este confirma “o compromisso com uma cultura de conhecimento crítico, de ensino plural e de liberdade de expressão que tem caracterizado a FCSH ao longo dos tempos e que (…) continuará a ser uma marca fundamental desta instituição de ensino”. Cerca de quatro centenas e meia de pessoas, entre antigas(os) e atuais alunas(os), docentes e investigadoras(es) da FCSH, subscreveram o manifesto “Primavera na FCSH, Contra o Fascismo”, que convocou a concentração no átrio da faculdade.

Símbolo do evento “Primavera na FCSH, Contra o Fascismo”

O segundo evento consistiu num debate sobre “Liberdade de expressão e neutralidade dos media“, onde se referiu, entre outros assuntos, a polémica da conferência adiada pela direção da faculdade e se defendeu que ela se deveu a algum erro de perceção por parte das(os) jornalistas. O debate contou com a presença da diretora da edição portuguesa do “Le Monde Diplomatique”, Sandra Monteiro, e de uma representante da direção do Sindicato dos Jornalistas, Isabel Nery, tendo sido moderado por Daniel Cardoso, ex-aluno e atual professor auxiliar na FCSH. Segundo ele, que lançou o tema da “neutralidade jornalística”, “o jornalismo não pode ser neutral em relação à própria democracia”.

No final do dia, as duas porta-vozes da Associação de Estudantes, que não se identificam por motivos de segurança, afirmaram-se felizes pela mobilização das(os) estudantes e pelo facto de centenas delas(es) terem participado nas duas iniciativas.

Da parte da Nova Portugalidade, o movimento colonialista que organizou a conferência de Nogueira Pinto na FCSH, nenhum desses eventos tem o seu apoio.

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