Opinião

Culpemos a arte

Sou uma pessoa de diálogos. Gosto de me perder em conversas, de sentir a necessidade de refletir sobre o que queria falar antes de todas as voltas e de todos os  assuntos que trouxe. Sentir que a pessoa me ouviu a divagar pelas ondas do pensamento até me aperceber de que já nem sabia do que estava a falar antes de me perder…  Porque a verdade é que estava tão absorvida em querer partilhar visões que o que comecei a contar já não era importante. Provavelmente, a outra pessoa só não me interrompeu porque estava à espera do momento em que eu voltava ao cerne da questão. Ou talvez já tenha ficado entre os laços das palavras há meia hora atrás e não me queira avisar diretamente. O ideal é que a pessoa estivesse tão perdida na minha confusão quanto eu. Mas isto é um problema que se formou na minha cabeça quando comecei a consumir demasiados livros.

            A partir do momento em que comecei a ler mais, comecei a esperar que as pessoas me ouvissem com a mesma atenção que eu dava às palavras dos outros. Dos livros aos filmes, prefiro ter um filme monótono que repensa as existência e situações e que se limita a retratar dois seres humanos desregulados àqueles em que está sempre a acontecer alguma coisa e nos quais nos perdemos no nome das centenas de personagens que são inseridas e nunca desenvolvidas. Porque não interessam. Estão ali para auxiliar as personagens principais a ter uma entrega forte o suficiente para que sejam consumidas duas horas de uma história vazia. E isto não é só nos filmes. Está nas séries, nos livros, na música. Provavelmente, até na pintura e na escultura que precisam de elementos secundários para fazer sobressair os principais. Mas até que ponto não estamos a aplicar demasiado esta técnica na vida real?

            Quem não se deparou com o frio na barriga quando vai conviver com alguém e sabe que o objetivo não vai além de uma conversa? Deparamo-nos com a insegurança de até que ponto conseguimos ser interessantes per se. Se o plano não envolver algo tátil que sirva como distração, seja um filme, seja um conjunto de amigos, corremos o risco de resumir uma saída a vinte minutos de silêncio em trinta de companhia. E isso é assustador. Afinal, partilhar silêncios é mais pessoal do que falar. Ou não nos sentimos desconfortáveis na ausência da palavra a menos que seja com alguém de quem gostamos? Destaco que os desconhecidos totais também sabem melhor em silêncio. Mas vou voltar a outra problemática.

Fonte da imagem: phippsfilm.com

            Se em “Before Sunrise” eles não se tivessem entendido tão bem, o filme não ia ter meia hora sequer. Casal discute. Metem-se um com o outro. Convite para o café. Não há conversa, não há saída na estação. E depois? Mesmo que o nosso menino fizesse um convite para ela ir com ele, acham que ela tirava o traseiro do comboio? Claro que não. Por muito charmoso que ele fosse, não era o suficiente. Aliás, imaginem que Celine não falava inglês, o francês lastimável do Jess nem tinha dado para irem à cafeteria, ou seja, era uma curta-metragem, com dez minutos, baseada numa discussão do casal alemão e numa tentativa falhada de sedução. A beleza desta obra de arte cinematográfica perdia-se. E o que seria de mim sem o meu filme favorito? Como é que eu me ia iludir? Não há condições.

            Ao mesmo tempo, acho que me iludi demais. E, provavelmente, já perceberam que não sou uma pessoa cujo raciocínio é fácil de acompanhar. Achar que eventualmente alguém vai passar horas a acompanhá-lo é pouco realista. E de quem é que é a culpa? Da arte, pois, porque de alguma forma conseguiu que eu me convencesse de que “a falar é que as pessoas se entendem”. E o medo está exatamente no momento em que deixo as pessoas entrarem na minha confusão e passo horas a falar. Porque aí significa que passei os limites do “não estou mais a fechar-me”. E se não me estiver a fechar, significa que dou espaço suficiente para a pessoa me magoar. E eu sou uma medrosa, mas isso é um assunto para outro momento.

            E sim, este artigo sou eu a assumir, publicamente, que não sou uma pedra e que me deixei influenciar por romances hollywoodianos. Mas “Before Sunrise” é a melhor trilogia já feita. Mesmo com o choque final de realidade. É lidar, irmão.

Fonte da imagem de destaque: phippsfilm.com

Artigo escrito por Mariana Serrano

Artigo revisto por Andreia Custódio

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