Ciência

Da imagem de satélite à ação climática: a Summer School do GeoJo cruzou dados geoespaciais e jornalismo na NOVA IMS

Ao longo de quatro dias de trabalho produtivo no Campus de Campolide, estudantes e docentes da Albânia, Grécia e Kosovo juntaram-se à NOVA Information Management School (NOVA IMS), e ao Gerador para aprender a descodificar a crise climática através de ferramentas geoespaciais, análise de dados e técnicas de jornalismo de investigação.

O ponto de partida: unir ciência, dados e comunicação

A crise climática manifesta-se de forma lenta, o que desafia frequentemente os limites da cobertura jornalística tradicional. Como transformar milhões de pontos de dados e registos orbitais em narrativas claras, com impacto e relevância pública? Esta foi a questão central da Summer School do projeto GeoJo (Geospatial Data Storytelling for Environmental Journalism), iniciativa internacional cofinanciada pela União Europeia, acolhida pela NOVA IMS, em Lisboa.

O encontro começou a 19 de julho, domingo, com um programa social de acolhimento. Na manhã de segunda-feira, 20 de julho, os trabalhos arrancaram formalmente na faculdade, com Susana Martins Marques, investigadora da NOVA IMS e coordenadora geral do projeto GeoJo, a apresentar as linhas de ação da semana e a missão do consórcio.

Para que os participantes dos diversos países ficassem a par do desafio dos próximos dias, Carolina Costa, gestora de projeto no Gerador, apresentou a visão editorial e de investigação da plataforma, estabelecendo a tarefa da semana: as equipas teriam de produzir uma investigação multimédia baseada em dados e mapas interativos (story maps), concorrendo à publicação da reportagem vencedora no Gerador. De modo a obterem as bases necessárias, foram realizadas várias palestras ao longo da semana, começando pela oficina de brainstorming orientada por Tiago Garcia, comunicador de ciência da +Atlantic, e acompanhada por Tiago Sigorelho.

Geodata: imagem, infraestrutura e sentido crítico

O panorama internacional não se restringiu apenas aos integrantes do concurso, que puderam abrir a dimensão teórica e metodológica com um painel de conferencistas internacionais, na manhã de terça-feira, 21 de julho. O analista geoespacial e designer Julian Peschel interveio em ligação remota para abordar o seu percurso sob o conceito de “Geodata as a mode of thinking and form of narrating”, explicando a evolução dos dados desde a representação visual até à sua consolidação como infraestrutura e literacia pública.

Julian Peschel durante a sessão sobre dados geoespaciais e narrativa visual
Fonte: Capturado pela redatora Ambre Duarte

Peschel partilhou investigações desenvolvidas para a Deutsche Welle, entre elas o acompanhamento dos impactos climáticos nas Ilhas Salomão através de séries temporais de satélite entre 1989 e 2025. Apresentou também um pedido da redação brasileira da DW para analisar as alterações no Rio Xingu provocadas pela barragem hidroelétrica de Belo Monte, bem como o mapeamento de fontes de dados para documentar a destruição estrutural na Faixa de Gaza, tarefa que requer algum cuidado, já que o público deve continuar interessado nos problemas climáticos – esses muitas vezes menosprezados pela excessiva complexidade com que são abordados.

Apresentou ainda o projeto “Countermapping: Nightsky”, que questiona a militarização e privatização das órbitas terrestres. Para apoiar os estudantes, mostrou ferramentas como o Geo-Hound, GeoJSON.io, G.Projector, NASA Worldview, Copernicus Browser, QGIS, Google Earth e Datawrapper, que foram úteis na elaboração dos trabalhos dos membros.

À questão da audiência sobre como filtrar dados fiáveis num ecossistema saturado de inteligência artificial, deixou uma regra de ouro: “devemos sempre pensar de que forma é que um certo dado está a servir a história e a verdade, para evitarmos cair no erro de usar data que, em vez de clarificar o leitor, apenas o deixa mais confuso”.

A sessão prosseguiu com Cátia Vilaça, jornalista ambiental do Gerador, que abordou o rigor da investigação e o perigo do gráfico apenas como “elemento decorativo”, partindo da pergunta: “Como começar uma história?”. Antes de escrever, é preciso ler: literatura científica, legislação, entrevistas, relatórios e tudo o que permita compreender o tema em profundidade.

Cátia Vilaça durante a sessão dedicada ao rigor da investigação jornalística
Fonte: Capturado pela redatora Ambre Duarte

Apoiando-se na investigação “Decrescer para evitar o colapso”, Vilaça mostrou que o processo de investigação nem sempre conduz diretamente a uma resposta. Pelo contrário, “acabamos com mais perguntas do que respostas no final”. Mas nem todos os dados precisam de ser o centro de uma história. Vilaça explicou que, por vezes, um pequeno gráfico basta para tornar uma tendência visível; noutras, os dados sustentam toda a narrativa. O importante é que tenham uma função e não sejam utilizados apenas como elemento decorativo.

A “Ciência da aproximação” e onde se escondem as pautas

Na manhã de quarta-feira, 22 de julho, o jornalista de dados italiano Matteo Scannavini, da Dataninja, demonstrou como passar da tabela confusa ao mapa de interesse público, utilizando casos de poluição industrial e desastres ambientais. Classificou o jornalismo de dados como a “ciência da aproximação”, deixando um princípio basilar: “Os dados são a evidência, mas é o jornalismo que cria o significado.”

Scannavini sublinhou ainda que nenhuma escolha visual é neutra: cores, palavras em destaque e títulos alteram a perceção da realidade. Defendeu a máxima “kill your darlings”, apelando à capacidade de cortar informação supérflua, e reforçou a importância de dominar ferramentas como o Excel e o Google Sheets e de verificar a informação linha a linha.

Tiago Garcia (tutor do projeto), Susana Martins Marques (tutora e organizadora) e Matteo Scannavini (tutor e orador)  à conversa durante o coffee break
Fonte: Departamento de comunicação da Nova IMS

De seguida, Laura Aragó, jornalista de dados da La Vanguardia, partilhou a sua abordagem à cobertura da crise climática, que cruza dados, cartografia e reportagem no terreno. “Traduzo o clima em histórias com recurso a dados, mapas e reportagem no terreno. Para contar a crise climática, temos de a tornar visível, e isso começa nos dados”, explicou.

A partir desta perspetiva, a jornalista apresentou cinco pontos de onde podem surgir histórias ambientais: outliers, tendências, anomalias, lacunas (gaps) e colisões. Entre os exemplos do seu trabalho estiveram os incêndios recorrentes em Selaya, Espanha, a antecipação da floração das amendoeiras e um mapa que reuniu, pela primeira vez, 2.000 pontos críticos de risco de inundação no país.

O pitch final: cinco respostas regionais à emergência ecológica

Na tarde de quinta-feira, 23 de julho, chegou o momento de os cinco grupos apresentarem os projetos desenvolvidos perante o júri, composto pelos organizadores e especialistas da NOVA IMS e do Gerador. Sorteada a ordem das apresentações, cada grupo levou para o palco uma história diferente, mas todas atravessadas pela mesma preocupação: tornar visíveis, através dos dados, diferentes aspetos da emergência ambiental.

O Grupo E apresentou “The Land that Remembers Fire”, sobre a relação entre incêndios e cheias nos Balcãs. Utilizando infográficos e o Datawrapper para analisar a área ardida entre 2006 e 2025, o grupo passou pelo Kosovo, Albânia e Grécia e mostrou como “as cinzas do verão preparam o terreno para a lama e as cheias do inverno”. Construída como uma história ficcional, a narrativa procurou antecipar um futuro marcado pela repetição destes fenómenos e chamar a atenção para a necessidade de uma resposta europeia.

Grupo E durante a apresentação de “The Land that Remembers Fire”
Fonte: Capturado pela redatora Ambre Duarte

Seguiu-se o Grupo A com “A Fox in the Henhouse: The Toadfish in the Mediterranean”, sobre a migração do peixe-sapo/peixe-balão desde o Canal do Suez até aos mares do Sul da Europa. O grupo procurou tornar a informação científica mais acessível através de Python, um mapa interativo, que permitia acompanhar a distribuição da espécie ao longo de duas décadas, e ilustrações desenhadas à mão, que ajudaram a aproximar a informação científica do público.

Grupo A no decorrer da apresentação de “A Fox in the Henhouse: The Toadfish in the Mediterranean” 
Fonte: Departamento de comunicação da Nova IMS

O Grupo B apresentou “The Last Colour of Gaza: When the environment becomes the causality of war”, focado no ecocídio e no impacto ambiental dos bombardeamentos e operações militares. Cruzando imagens de satélite do programa europeu Copernicus com dados sobre vegetação e disponibilidade de água, a investigação relacionou o cenário do pós-guerra com uma emergência de saúde pública e climática.

Grupo B ao longo da apresentação de“The Last Colour of Gaza: When the environment becomes the causality of war”
Fonte: Departamento de comunicação da Nova IMS

Já o Grupo D trouxe “Day After Tomorrow”, uma história imaginada a partir de Lorenzo e Antonio, dois agricultores confrontados com o desaparecimento das suas colheitas. A narrativa, acompanhada por imagens geradas por inteligência artificial e dados, abordou a falência das colheitas e a combinação de eventos extremos como a falta de planeamento de recursos.

Grupo D durante a apresentação de “Day After Tomorrow”
Fonte: Departamento de comunicação da Nova IMS

A fechar as apresentações esteve o Grupo C com “The Roots of Athena’s Legacy are Under a Rising Threat: How Climate Change is Shaping Oil Production”. Partindo do mito da deusa Atena e da criação da oliveira sagrada, o grupo explorou a subida das temperaturas entre 2016 e 2024 na região de Kalamata e a ameaça do calor extremo à produção de azeite grego nessa região.

Grupo C ao longo da apresentação de“The Roots of Athena’s Legacy are Under a Rising Threat: How Climate Change is Shaping Oil Production”
Fonte: Departamento de comunicação da Nova IMS

Veredito e encerramento: o valor da literacia partilhada

Após a deliberação do júri, Susana Martins Marques e Carolina Costa regressaram ao palco para a entrega dos certificados de participação aos estudantes e docentes internacionais, antes de anunciarem o grupo vencedor: o Grupo B.

O grupo B consagra-se vencedor através do projeto “The Last Colour of Gaza” e recebe os diplomas de melhor trabalho realizado
Fonte: Departamento de comunicação da Nova IMS

A decisão, explicou o júri, foi difícil perante a qualidade dos projetos apresentados, mas destacou a forma como “The Last Colour of Gaza” articulou dados, geospatial data storytelling e jornalismo ambiental, a partir de um tema de particular relevância. O projeto seguirá agora para acompanhamento editorial pelos profissionais do Gerador, onde será publicado.

Com os certificados entregues e as fotografias de grupo a marcar o fim dos quatro dias, o GEOJO terminou oficialmente. Mapas, imagens de satélite, gráficos e dados mostraram diferentes formas de tornar visível uma emergência que nem sempre se vê à primeira vista. Ficaram cinco projetos e novas formas de transformar informação em histórias capazes de aproximar o público de problemas ambientais muitas vezes distantes. No GEOJO, os dados foram a evidência, e o jornalismo a ferramenta para lhes dar significado.

Fonte da capa: Departamento de comunicação da Nova IMS
Artigo revisto por: Eva Guedes

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Vive num mundo onde mil e uma curiosidades vagueiam nos seus pensamentos, Ambre, aluna do 2.° ano da licenciatura em Jornalismo, sonha em, talvez um dia, poder conciliar todos os seus desejos… Animais, ciência, moda e cultura são algumas das milhentas paixões que tecem a tão confusa teia que é a sua mente. Por enquanto (e como sempre fez), refugia-se na escrita, um sítio em que pode expressar cada milímetro que percorre o seu espírito. Para explorar o tão vasto universo da escrita, Ambre aventura-se no desafio de ser Editora de Ciências, na ESCS Magazine - a melhor revista de Benfica.

Com a cabeça algures entre a Terra e Saturno, Raquel Bernardo está no segundo ano da licenciatura de jornalismo. Desde pequenina que demonstrou uma grande paixão pela escrita - paixão essa semeada pelo seu pai, escritor de rubricas e imaginador insaciável. Agora, aproveitando a herança que lhe foi dada pelo seu pai, Raquel pretende levar as suas ideias mais longe, de modo a abalar qualquer limite. Aceitou a proposta para assumir a editoria de Grande Entrevista e Reportagem, vendo nesta oportunidade uma forma de crescer e desenvolver novas competências.
Desde pequenina que demonstrou uma grande paixão pela escrita, paixão essa semeada pelo seu pai, escritor de rubricas, e, com esta entrada para a ESCS magazine, a mesma espera tanto melhorar as suas qualidades de escrita como aprofundar a sua relação com esta.