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Descobrir Lisboa com Reis

Podemos percorrer todos os dias os mesmos caminhos. Passar pelas mesmas ruas, contornar as mesmas esquinas, pisar a mesma calçada e nunca reparar nas suas formas ou cores. Já dizia El-Rei D. Duarte: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Os caminhos de Lisboa aproximam-nos da obra “O ano da morte de Ricardo Reis” de José Saramago, desvendando mistérios sobre as personagens. Baseado no folheto do “Percurso Literário: O ano da morte de Ricardo Reis” da Editorial Caminho em conjunto com a Fundação Saramago, aqui fica uma sugestão de alguns dos locais mencionados neste livro para reparares na capital portuguesa.

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“Aqui andando pelas nossas ruas, vêem-se caras carregadas, outras, mais raras, dissimulam, se aquele brilho dos olhos não é contentamento é o diabo por ele, mas quando se escreveu essa palavra, Aqui é só estas trintas ruas entre o Cais do Sodré e S. Pedro de Alcântara, entre o Rossio e o Calhandriz, como uma cidade interior cercada de muros invisíveis que a protegem de um invisível sítio, vivendo conjuntos os sitiados e os sitiantes, Eles, de um lado e do outro assim mutuamente designados, Eles, os diferentes, os estranhos, os alheios, todos mirando-se com desconfiança, sopesando uns o poder que têm e querendo mais, outros deitando contas à sua própria força e achando-a pouca, este ar de Espanha que vento trará, que casamento.”

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ROSSIO
“Entra no Rossio e é como se estivesse numa encruzilhada, numa cruz de quatro ou oito caminhos, que andados e continuados irão dar, já se sabe, ao mesmo ponto, ou lugar, o infinito, por isso não nos vale a pena escolher um deles, chegando a hora deixemos esse cuidado ao acaso, que não escolhe, também o sabemos, limita-se a empurrar, por sua vez o empurram forças de que nada sabemos, e se soubéssemos, que saberíamos.”

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RUA AUGUSTA
“Ricardo Reis encaminha-se para o hotel, não tem outros prazeres ou obrigações à espera, a noite está fria e húmida, mas não chove, apetece andar, agora sim, desce toda a Rua Augusta, já é tempo de atravessar o Terreiro do Paço, pisar aqueles degraus do cais até onde a água nocturna e suja se abre em espuma, escorrendo depois para voltar ao rio, donde logo regressa, ela, outra, a mesma e diferente (…)”

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TERREIRO DO PAÇO
“Da Rua do Comércio, onde está, ao Terreiro do Paço distam poucos metros, apeteceria escrever, É um passo, senão fosse a ambiguidade da homofonia, mas Ricardo Reis se aventurará à travessia da praça, fica a olhar de longe, sob o resguardo das arcadas, o rio pardo e encrespado, a maré está cheia, quando as ondas se levantam ao largo parece que vêm alargar o terreiro, submergi-lo, mas é ilusão de óptica, desfazem-se contra a muralha, quebra-se-lhes a força nos degraus inclinados do cais.”

CHIADO
“Descendo o passeio em frente da igreja dos Mártires, Ricardo Reis aspira um ar balsâmico, é a exaltação preciosa das devotas que lá dentro estão, agora começou a missa para as pessoas desta qualidade, as do mundo superior, aqui se identificam, havendo bom nariz, as famílias e as essências.”

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PRAÇA LUÍS DE CAMÕES
“A penumbra do fim da tarde cobria o largo. Os pombos recolhiam-se aos altos ramos dos olmos, em silêncio, como fantasmas, como sombras doutros pombos que naqueles mesmos ramos tivessem descido em anos passados, ou nas ruínas que neste lugar houve, antes que se limpasse o terreno para fazer a praça e levantar a estátua.”

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SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA
“Ricardo Reis atravessa o jardim, vai olhar a cidade, o castelo com as suas muralhas derrubadas, o casario a cair pelas encostas. O sol braqueando bate nas telhas molhadas, desce sobre a cidade um silêncio, todos os sons são abafados, em surdina, parece Lisboa que é feita de algodão, agora pingando. Em baixo, numa plataforma, estão uns bustos de pátrios varões, uns buxos, umas cabeças romanas, descondizentes, tão longe dos céus lácios, é como ter posto o zé-povinho do Bordalo a fazer um toma ao Apolo do Belvedere. Todo o miradouro é belvedere enquanto Apolo contemplamos, depois junta-se a voz à guitarra e canta-se o fado. Parece que a chuva se afastou de todo.”

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PRAÇA DO PRÍNCIPE REAL
“A Ricardo Reis distraiu-o (…) ter chegado à Praça do Rio de Janeiro, que foi do Príncipe Real e quiçá o torne a ser um dia, quem viver verá. (…) Ricardo Reis aconchega a gabardina ao corpo, friorento, atravessa de cá para lá, por outras alamedas regressa, agora vai descer a Rua do Século, nem sabe o que terá decidido, sendo tão ermo e melancólico o lugar, alguns antigos palácios, casas baixinhas, estreitas, de gente popular, ao menos o pessoal nobre de outros tempos não era de melindres, aceitava viver paredes meias com o vulgo (…)”

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SANTA CATARINA
“Da sua janela sem cortinas Ricardo Reis olhava o largo rio, para poder ver melhor apagou a luz do quarto, onde estava, caía do céu uma poalha de luz cinzenta que escurecia ao pousar, sobre as águas pardas deslizavam os barcos cacilheiros já de fanais acesos, ladeando os navios de guerra, os cargueiros fundeados e, quase a esconder-se por trás do perfil dos telhados, uma última fragata que se recolhe à doca, como um desenho infantil, tarde tão triste que do fundo da alma sobe uma vontade de chorar, aqui mesmo, com a testa apoiada na vidraça, separado do mundo pela névoa da respiração condensada na superfície lisa e fria, vendo aos poucos diluir-se a figura contorcida do Adamastor, perder sentido a sua fúria contra a figurinha verde que o desafia, invisível daqui e sem mais sentido do que ele.”

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