Desenhador de Palavras

Fernando António Nogueira Pessoa, nascido a 13 de junho de 1888, é o maior artista da história do nosso país. Poeta, ensaísta, publicitário, tradutor, filósofo, místico, Pessoa criava a arte em tudo aquilo que fazia, mesmo em si próprio. Não lhe bastou a arte da escrita e do texto e por isso teve de inventar a arte da pessoa e da personalidade, criando outros “eus”. É esta a admirável qualidade de Fernando Pessoa, o poeta, e de Fernando Pessoa, invólucro de outras personalidades.

A biografia de Pessoa é interessante e algo extensa mas, por muito interessante que seja, nunca será o foco quando se fala do poeta e ele próprio o diz:

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.”

Ainda assim, podemos dizer que nasceu em Lisboa mas passou a maioria da sua juventude em Durban, na África do Sul, onde recebeu uma educação inglesa, crucial para a formação das suas personalidades. Regressou para Lisboa aos 17 anos, sozinho, e viveu com a avó e duas tias. No ano seguinte ingressou no Curso Superior de Letras, que não chegou a completar. Foi aí que começou a ter um maior contacto com a literatura portuguesa e foi construindo o seu conhecimento sobre vários temas e autores.

Depois de algumas passagens por tipografias e editoras, trabalhando como correspondente comercial e publicitário, Pessoa inicia a sua carreira literária curta mas pungente e a mais marcante do século XX. Participou na criação da revista Orfeu, fundadora do movimento modernista português, fez crítica literária, escreveu poesia, ensaios e fez profecias. É uma das personalidades mais misteriosas da nossa história, não no sentido de ser desconhecido ou não se conhecer a sua história, mas porque nunca seremos capazes de compreender a totalidade das ideias, inovações e intenções que o poeta tinha.

O expoente máximo da sua misteriosa personalidade foi a fragmentação do ego, e a invenção de alter egos que coabitavam em si. Alberto Caeiro, o poeta bucólico; Álvaro de Campos, o engenheiro de educação inglesa; e Ricardo Reis, o médico helenista. Cada uma destas pessoas tem a sua própria história e o seu próprio estilo e vive independente das outras e, até, do próprio ortónimo. O modernismo desta reinvenção do “eu” faz de Pessoa um artista de pessoas que não se findam nestes três heterónimos mais conhecidos: são conhecidas cerca de setenta personalidades inventadas por Pessoa, grande parte delas encontradas no famoso baú onde o ortónimo guardava os seus textos.

Falando agora de Pessoa: ainda que tenha uma obra poética enorme, só publicou um livro. Mensagem é, por si só, uma obra prima do século XX, mas, quando associada à personalidade profética e mística de Pessoa, ganha contornos muito mais interessantes. A profecia do V Império e o regresso de D. Sebastião são algumas das profecias feitas por Pessoa naquele livro, que é uma verdadeira epopeia lírica.

Assim sendo, podemos ver como Fernando Pessoa foi uma personalidade incontornável da nossa história e mudou a face da literatura portuguesa e mundial com a sua capacidade de criação e desconstrução. Para já, ainda só o podemos apreciar, mas pode estar para vir o tempo em que o entenderemos completamente e, aí, muito do que que ainda está oculto será revelado.

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