7ª Arte

“Destino: Veneza” – Uma (a)típica viagem de família

Em tempos conturbados como aqueles em que vivemos, nada melhor do que assistir a uma comédia familiar que promete uma grande dose de boa-disposição. Destino: Veneza, não falha na premissa e corresponde às expectativas a que o cinema francês nos tem vindo a habituar. Esta é uma história de uma família em tudo singular, mas comum no amor que sente entre si; do encanto de um delicado primeiro amor e da inocência que lhe subjaz; e de uma viagem genial, hilariante para quem assiste, cuja meta não cruzam aquando da chegada à cidade a norte de Itália, mas sim no momento fulcral em que se entendem, ao dar voz às divergências que os separam. Uma história que capta, subtilmente, a atenção do espetador e o incentiva a refletir acerca de algo que é tomado, muitas vezes, por garantido.

A família aquando da chegada a veneza. Fonte: UniFrance

Destino: Veneza estreou no passado dia 17 de outubro em Portugal e é uma adaptação da novela “Venice is not in Italy” por Ivan Calbérac, diretor da peça. Conta com Benoît Poelvoorde, Valéire Bonneton e Helie Thonnat no elenco principal. De título original “Venise n’est pas en Italie”, o filme narra a história de Émile (Helie Thonnat) e da sua família ímpar, que ruma a Veneza numa viagem que tinha tudo para dar errado: o pai sonhador (Benoît Poelvoorde) que fantasia a sua própria vivência e a perspetiva de forma irreal; a mãe (Valérie Bonneton), obcecada com uma rotina extremamente orgânica e que lhe pinta o cabelo por acreditar que aprimora a sua beleza; e ainda Fabrice (Eugène Marcuse), o irmão errático, que regressa a casa na véspera da partida. Em paralelo à narração de um percurso particularmente peculiar – em harmonia com a excentricidade que os carateriza – repleto de peripécias que divertem o espetador ao longo de 1h35, a peça delineia uma história inspiradora.

Émile é um jovem pacato de 15 anos que conhece Pauline, filha de um maestro de renome, por quem se apaixona à primeira vista. O clique foi instantâneo e a amizade entre os dois cedo evolui. Por muito que tenham em comum, Émile não tarda a compreender que pertencem a mundos distintos: ele vive numa caravana com os pais, aparentemente loucos, sem grandes posses e defensores de uma vivência um tanto arcaica, em tudo oposta à modernidade; ela viaja pelo mundo, integra a orquestra que o pai rege e participa em eventos da alta sociedade. O carinho que sentem um pelo outro é, inegavelmente, mútuo, e Pauline acaba por convidá-lo para assistir a um concerto em que irá tocar em Veneza. No entanto, Émile distorce a realidade em que se insere ao ocultar as verdadeiras condições a que está sujeito, com o intuito de assemelhar o seu modo de vida ao da amiga: afirma possuir família em Veneza, com que poderá permanecer durante a sua estadia, ainda que consciente da árdua situação financeira dos pais.

Os Chamadot num parque de campismo, intermédio ao seu destino. Fonte: UniFrance

Para seu espanto, os pais não se opuseram à sua ida. Émile seguiria então para Veneza, mas não sozinho: no âmbito de uma excursão familiar, há muito ansiada, e finalmente possível de concretizar. Começa então o enredo a desenvolver-se, a par do veloz desenrolar da ação. Durante o percurso conhecemos novas personagens, nomeadamente Natacha (Coline D’Inca), que após se ter envolvido com Fabrice permanece com a família, e um motoqueiro que seguia em direção à cidade dos canais, mas que incapaz de prosseguir viagem, aceita a boleia dos Chamadot.

O caráter humorístico da peça em muito se prende à interpretação das personagens que lhe dão vida. Ainda que seja unânime a brilhante prestação do elenco na sua totalidade, destaco a prestação de Helie Tonnat que interpreta o jovem Émile, dado que sucede a expressar a sua individualidade, em muito marcada por ser distinta das restantes com que convive e, ainda, o seu crescimento pessoal que começa a ser notório à medida que se aproxima o final.  O facto de a sua personagem concentrar (e tão bem) em si o ponto de partida para os pequenos dramas que se vão sucedendo através de diversos ângulos de abordagem, requere uma representação repleta por um misto de emoções eminente que foi, discretamente, bem conseguido.

Destino: Veneza ultrapassa, subtilmente, o mero relato de uma viagem cómica: remete para o caminho de uma família, cujos padrões em nada são coincidentes com os praticados, segundo inúmeros estereótipos da sociedade contemporânea, em busca do amor que, embora eminentemente existente, não era, por todos, sentido ou sequer visível. É, para além disso, uma história de aceitação, compromisso e compaixão, por entre deixas fáceis, por vezes previsíveis, mas que ainda assim se traduzem no riso quase instantâneo. Mas deixo a ressalva: se forem como eu, que perante filmes de comédia só se ri nos momentos em que mais ninguém o faz, nada temam. A diversão está, de qualquer forma, garantida!

Artigo redigido por Inês Galrito

Artigo revisto por Ana Janeiro

Fonte da imagem de destaque: Festa do Cinema Francês

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