7ª Arte

Das ruas para o grande ecrã: Três filmes sobre a Revolução dos Cravos

Poucos desconfiavam de que a música vencedora do Festival da Canção de 1974, seria o mote para que um grupo de militares, sob o comando de Otelo Saraiva de Carvalho, desse início aos primeiros movimentos do Golpe de Estado. À meia-noite e vinte, estranhavam que a Rádio Renascença se atrevesse a dar palco a Zeca Afonso e desconheciam que, ao som de “Grândola Vila Morena”, ecoaria ainda o silêncio do caminhar dos militares no trilho contra a censura. A 25 de abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas (MFA) derrubou o regime de ditadura que oprimiu, durante 48 anos, o povo português. Comemoramos este ano o 47º aniversário da Revolução de Abril.

 Vivemos numa sociedade em que a liberdade é um direito conquistado, não um caso de pura sorte. Não foi fruto da descoberta de um trevo de quatro folhas. Não havia tesouro da arca há muito escondida. A liberdade custou, há 47 anos, sofrimento, angústia e sacrifício. Foi, heroicamente, vencida em tons de encarnado. No fundo, o facto de vivermos numa sociedade em que partilhamos livremente a nossa opinião é um privilégio. Mas não se enganem: este é, à semelhança de qualquer outro, efémero.

Celebremos o Dia da Liberdade ao deixar que esta seja protagonista nos nossos ecrãs e ao mostrar interesse em conhecer o passado nacional e o sofrimento e coragem daqueles que estiveram na linha da frente num dos marcos mais importantes do país. Dito isto, sugiro-vos três filmes que narram, de formas distintas, histórias que nos teletransportam para o ambiente vivido aquando do 25 de Abril e da Guerra Colonial.

Capitães de Abril, Maria de Medeiros (2000)

Considerada uma das mais impressionantes produções do cinema português, Capitães de Abril, realizado pela atriz Maria de Medeiros, dá cor às memórias do capitão Salgueiro Maia, enquanto retrato da Revolução que marcou, para sempre, a História de Portugal. O filme com a duração de 120 minutos será emitido na RTP1 no próximo dia 25 às 16h45.

Fonte: RTP

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, o Rádio Clube Português emite a célebre e interdita canção de Zeca Afonso, “Grândola, Vila Morena“. Trata-se de um código combinado com o clandestino Movimento das Forças Armadas, que nessa madrugada levou um grupo de capitães a executar um Golpe de Estado e acabar com o regime do Estado Novo. O capitão Salgueiro Maia marcha com o seu regimento sobre Lisboa, decidido a tomar a capital sem derramamento de sangue. Entretanto, Manuel, um outro veterano da guerra de África, toma com um punhado de camaradas o Rádio Clube Português, que se vai transformar no centro difusor do progresso da revolução. Antónia, a mulher de Manuel, desconhecendo as atividades do marido, preocupa-se com o destino de um aluno, preso pela PIDE. Maia chega a Lisboa e, com a ajuda de Gervásio, consegue levar os seus “Chaimites” até ao Quartel do Carmo, onde recebe a rendição de Marcelo Caetano. Nas ruas, o delirante entusiasmo popular aclamava os capitães de Abril.

As Ondas de Abril, Lionel Baier (2013)

De título original Les Grandes Ondes (à l’ouest), a comédia realizada pelo suíço Lionel Baier é inspirada numa história real. Ao longo de 85 minutos, a história incide sobre o ambiente vivido no país, dias antes da Revolução, ao narrar a chegada de uma equipa de jornalistas estrangeiros a território nacional. A peça foi descrita pelo jornal Le Monde como uma “homenagem nostálgica às grandes reportagens de rádio, reconstituição meio-divertida, meio-comovente do Portugal da Revolução dos Cravos, comédia pura”. Está disponível para visualização na plataforma Filmin.

Fonte: Sapo Mag

Em abril de 1974, dois jornalistas da rádio suíça são enviados a Portugal para fazer uma reportagem “positiva” sobre a ajuda a um país “subdesenvolvido, mas simpático“. Vagueiam pela província portuguesa quando, subitamente, irrompe a Revolução dos Cravos. Decididos a acompanhar os eventos em primeira mão, rumam a Lisboa na sua carrinha Volkswagen. Deste modo, aproveitando o facto de estarem no momento certo e no lugar certo, fazem a reportagem das suas vidas sobre o espírito de liberdade do povo luso.

Cartas de Guerra, Ivo Ferreira (2016)

Escrito e realizado por Ivo M. Ferreira, Cartas de Guerra vê o seu enredo inspirado em “D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto: Cartas da Guerra”, uma compilação de cartas que António Lobo Antunes escreveu, na altura em que fora destacado para Angola, à mulher. O filme com duração de 105 minutos e disponível na Amazon Prime esteve presente em vários festivais de cinema internacionais.

Fonte: À pala de Walsh

1971. António vê a sua vida brutalmente interrompida quando é incorporado no exército português, para servir como médico numa das piores zonas da guerra colonial – o Leste de Angola. Longe de tudo o que ama, escreve cartas à mulher à medida que se afunda num cenário de crescente violência. Enquanto percorre diversos aquartelamentos, apaixona-se por África e amadurece politicamente. A seu lado, uma geração desespera pelo regresso. Na incerteza dos acontecimentos de guerra, apenas as cartas o podem fazer sobreviver.

Em qualquer formato, data, ou lugar, a mensagem é intemporal: homenageemos os heróis que, em nome do povo lusitano, se fizeram ouvir. Reconheçamos a bravura dos que arriscaram as suas vidas e daqueles que gritaram contra o silêncio que os anulava, por socorro. Homenageemos o espírito fraterno português e façamo-lo ao não deixar que nos tirem a voz. Ao não nos deixarmos levar em ondas que rebentam na opressão. Façamo-lo a refletir nos erros passados e a garantir que não serão novamente cometidos. Façamo-lo a agradecer. A preservar.

Artigo redigido por Inês Galrito

Artigo revisto por Maria Ponce Madeira

Fonte da imagem de destaque: Visão

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