7ª Arte

Pieces of a Woman: Um retrato raro de um sofrimento comum

Arrepiante, real, emotivo e cru: Pieces of a Woman é tudo isso e muito mais. Ao longo de três horas e de várias camadas densas, o seu aprofundamento depende do ponto de vista do espetador e da sua própria reflexão. O novo filme está na Netflix e é o primeiro em inglês pelo realizador Kornél Mundruczó. Conta com Vanessa Kirby no papel principal e ainda com Martin Scorsese como produtor executivo.

O drama que estreou no passado dia 7 de janeiro assenta sobre o sofrimento de um casal que perde a filha recém-nascida em prol da concretização de uma ideia: a realização de um parto “à moda antiga”, em casa e sem qualquer assistência, para além daquela providenciada pela parteira (Molly Parker) que substitui a que tinha sido contratada pelo casal. É então recusado, sem qualquer hesitação, o auxílio médico especializado e atual, ainda que conscientes do risco que correm.

Esta é a história tocante de Martha (Vanessa Kirby), executiva numa empresa, e Sean (Shia LaBeouf), operário de construção civil, um casal de Boston cuja vida sofre um abanão após o nascimento da filha, pelo qual aguardavam ansiosamente e que termina em tragédia. Os fragmentos na relação do casal ganham, então, dimensão e a leveza que até outrora os caracterizava desvanece-se, bem como o entendimento entre ambos e, eventualmente, a sua definitiva separação. Pieces of a Woman é a narrativa do percurso de Martha enquanto aprende não só a lidar com a sua perda, mas também com a ideia de que, se tivesse tomado uma outra opção, o desfecho poderia ter sido diferente. A sua angústia é enfatizada através da deterioração dos laços com aqueles que lhe são mais próximos: a mãe (Ellen Burstyn), que a motiva a apresentar um processo em tribunal contra a parteira como um meio para apaziguar a sua dor e enquanto desfecho da história; e o marido, que se revolta e a recrimina por se isolar, acabando, após um longo período sóbrio, por recair no vício. É realçada ainda a pressão que a sociedade exerce sobre Martha, que a compele a tomar decisões nas quais não se revê.

Martha e Sean durante o trabalho de parto, momentos antes do nascimento da filha Fonte: New Yorker

Ainda que discordante da decisão de Martha e incapacitada de se dissociar da sua irresponsabilidade, o apoio da família constitui um retrato de um amor incondicional. A intenção de responsabilizar a parteira por um erro do qual não teve culpa representa um intermédio à agónica obtenção de paz. Apesar de isto ir contra os princípios éticos e morais nos quais deveria assentar a conduta humana, é ainda o reflexo de uma sociedade materialista que vê na compensação monetária uma forma de colmatar a dor.

Embora o início seja forte e constitua o momento-chave de toda a peça, a ação não se desenrola em velocidade constante: à medida que a perceção de Martha perante si própria, a vida, e os outros se consolida, também o espírito melancólico e quase tenebroso que filtra a obra se dissipa. Os detalhes bem conseguidos constituem um aprimoramento da peça, no sentido em que o estado interior das personagens e as relações entre elas são abordados de forma indireta, através de simbologias ou alusões. O infortúnio que se abateu sobre a vida do casal é evidenciado não apenas pela forma como as personagens se comportam, mas também por imagens subtilmente destacadas pelo realizador, como o monte de louça suja que se acumula na cozinha e o sentimento de morte que emana das plantas murchas que a decoram.

Martha e Sean após o encontro com o médico legista a fim de averiguarem a causa da morte da bebé. Fonte: The Wire

O filme está dividido em duas partes, como se de estações do ano se tratassem. Também o ânimo de Martha sofre metamorfoses ao longo do tempo, à medida que caminha em direção ao renascer, não apenas da natureza caraterística da primavera, mas também da sua própria vontade de viver. Uma ponte em construção, em foco no início da peça, assume um papel cronológico no relato da história. Para além disso, a ciência por detrás da sua conceção ocupa um lugar central no aspeto metafórico da obra: a explicação de Sean acerca da ressonância – fenómeno em que uma força externa conduz outro sistema a oscilar, com maior amplitude, em frequências específicas – enquanto potenciador de destruição remete para o colapso (a dada altura expectável) da relação do casal. A banda sonora, toda ela clássica, acompanha a tragicidade dos acontecimentos e prepara o espetador para o looping de emoções que se vão sucedendo.

A trama, especialmente os 30 minutos iniciais que retratam o trabalho de parto de Martha, e as complicações que dele resultam – e que compõem a matéria na qual se foca a peça – envolve o espetador numa intensa sucessão de emoções que, de tão excêntrica, se torna insuportável. Não devido a pormenores explícitos, mas pelo sentimento que se revela por completo nas interpretações, sobretudo a de Vanessa Kirby, que lhe valeu o prémio Volpi Cup para Melhor Atriz no Festival de Veneza. A intensidade e a destreza com que a atriz britânica transmite o furacão de emoções que consome a personagem constituem o motor da obra: primeiro, todo o sofrimento físico de um trabalho de parto traumático; depois, a repressão de uma dor colossal durante o luto.

Uma das várias conversas entre Martha a mãe. Fonte: CBR

É necessário destaque também para as interpretações que complementam tão bem a atuação de Vanessa e que contribuem para a atribuição de um estatuto surpreendentemente veraz à história: a de Shia LaBeouf, que transporta a impotência de Sean face à morte da filha para uma representação cuja brutalidade é reflexo da sua revolta interior e ilustração do desprezo que sente pela mulher; e a da veterana Ellen Burstyn, que dá, de forma exímia, vida a uma mãe notoriamente preconceituosa que pretende, a todo o custo, afastar Sean da vida da filha, somente devido à profissão que desempenha.

Por fim, Pieces of a Woman é um retrato discreto e enigmático de um tema raramente abordado no cinema. Kornél Mundruczó fornece uma visão pormenorizada, maioritariamente metafórica, da sobreposição de uma ideia a um ideal e da multiplicidade de maneiras de encarar um sofrimento que carece de atenção, mas é, muitas vezes, desvalorizado. Ainda que possuidor de uma imensa carga negativa, a cena final, repleta de tons vivos – contrariamente à nebulosidade caraterística da restante captação de imagem -, apresenta uma face catártica cuja interpretação fica a cargo do espetador.

Artigo redigido por Inês Galrito

Artigo revisto por Beatriz Campos

Fonte da imagem de destaque: Netflix

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