Opinião

Doçura ou Travessura?

Um dos fenómenos que mais me agrada na globalização é ver europeus tentar ser americanos. Não falo daquelas coisas que foram importadas para a Europa e que entraram de forma natural. Refiro-me àquelas coisas que as pessoas seguem, mesmo sem gostar, só porque vêm dos Estados Unidos. O maior exemplo disto aconteceu esta semana: o Super Bowl.

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Há aquelas pessoas que gostam genuinamente de Futebol Americano e acompanham ao longo de toda a época. Em Portugal, como me parece bastante claro, esta é uma minoria daquelas bem minoritárias. Provavelmente, nem conseguiam o número suficiente de assinaturas para formar um partido. No entanto, há sempre aqueles que assistem ao Super Bowl e, sem perceber nada do assunto, recorrem a algumas técnicas para parecerem mais entendidos.

Em primeiro lugar, é importante utilizar todo o vocabulário que aprendemos naqueles filmes em que a equipa do protagonista ganha sempre no último segundo numa reviravolta épica. Assim que pudermos dizemos touchdown, quarterback e jarda. Escolhe-se uma equipa ao acaso e formula-se uma frase do género: “Temos que marcar touchdown primeiro senão complica-se!”. Ou então: “ Não estamos a conseguir bloquear o quarterback deles!”. Ou ainda: “Devíamos ter ganho mais jardas nesta jogada”. Depois falamos em específico de alguns jogadores, mas apenas dizemos o primeiro nome ou a alcunha para dar um ar mais familiarizado. Algo como “o Tommy hoje não está nos seus dias” ou “eu sabia que o Pete ia estar ao nível de toda a época e não nos ia falhar hoje!”. Isto de alterar a forma de tratamento das pessoas vale também para quando morrem. Por exemplo, desde que morreu, o Eusébio passou a ser o Eusébio da Silva Ferreira e o Mandela passou a ser o Madiba.

Depois também há aquelas pessoas que dizem que vêem o Super Bowl por causa dos anúncios. São os papa-publicidade. Aguentam entre 3 e 4h para verem uns minutos de anúncios. Se eu mandasse neste país, essas pessoas estavam proibidas de instalar o Ad-Block e recebiam na caixa de correio o “Dica da Semana” de toda a gente que não queria.

Posto isto, só me resta perguntar: doçura ou travessura? Ah, desculpem. Isto não é no Super Bowl. Baralhei-me na tradição norte-americana que fingimos que é nossa. Sou um cabeça de abóbora.

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O Francisco Mendes é licenciado em Jornalismo e pauta a sua vida por duas grandes paixões: Benfica e corridas de touros. Encontra o seu lado mais sensível na escrita de poesia, embora se assuma como um amante da ironia e do sarcasmo. Aos 22 anos é um alentejano feliz por viver em Lisboa.

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