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Dois semestres com demasiada coisa

Até tirei a gravata. Para fazer este texto, desapertei, ao melhor estilo Tsipras, o colarinho, tirei a gravata, saquei de um cigarro, pensativo, e, literalmente no meio de um concerto do Grupo de Sarroncas da Universidade da Terceira Idade de Sintra (longa história), peguei no computador e lá me pus a escrever, perante olhares inquisitórios.

 

E eis que chega ao fim. Termina aqui, hoje mesmo, com estas linhas que estão neste momento exacto lendo, dois semestres de Ensino Superior, dois semestres de ESCS MAGAZINE, dois semestres com demasiada coisa. Eu cheguei no fim, cheguei há coisa de um mês, se tanto.

 

Na última semana, quis o nosso editor que fizéssemos um balanço. Um balanço. Um balanço é sempre giro de se fazer, andamos ali pendulares entre um assunto, e outro e regressamos ao anterior, e voltamos ao posterior e assim numa cadência qualquer que dite, com maior ou menor talento, maior ou menor mérito, aquilo que, para nós, para o mundo e para o resto que há de haver para além disto tudo supra enunciado, merece ficar inscrito nos eternos anais da história, se não do mundo, pelo menos da Escola Superior de Comunicação Social.

 

Durante a última semana, os meus colegas de redacção (e vocês nem imaginam o gosto que me dá dizer uma coisa destas) fizeram o seu balanço. Andaram eles a balançar entre umas coisas e outras – e eu até podia fingir que tinha visto tudo com grande atenção e pôr-me agora a citar uns e outros e os restantes, mas não –, sempre com grande elogio e alegria. Eu, porém, eternamente info-excluído, não estou para fazer um balanço da realidade noticiosa dos últimos doze meses (não é dos últimos doze meses, Pedro, é só desde agosto até este preciso dia sete – oito – de Junho). “Que vais, então, fazer, Pedro?”, hão de perguntar os que ainda restam lendo esta linha que termina já de seguida neste ponto final que vou pôr.

 

E pus mesmo, viram? Sou um miúdo de palavra. Aquilo que vou fazer, por entre tantos rodeios como aqueles que fui desenhando e pincelando até este momento de agora, é não um balanço dos dois semestres da humanidade em geral, e dos escsitos escsianos todos em particular, mas – escutem bem – dos meus, isso mesmo, dos meus dois semestres na ESCS. “Bela treta, Pedro”, dirão aqueles que agora mesmo estão carregando na cruzita ou a desviar o olho para o artigo do lado (que com sorte também é meu).

 

Então, agora que estamos sós, só eu e o querido leitor que, fiel, ficou até este último parágrafo do já longo, e esticado, e deslavado, e colado, recolado, recortado, enfeitado, desenfeitado, inventado, relatado, desrelatado texto que está aqui quase como só para ocupar espaço nos servidores do Instituto Politécnico de Lisboa (se pago propinas, ao menos que lhes dê o prejuízo de ter resmas de nada em dois milhões de caracteres e meio ali em combate aceso contra algo de maior interesse), vai ter o direito de saber, o que foi para mim, num registo altamente opinativo (e em parágrafos de tal modo confusos que ninguém os conseguirá perceber à primeira – nem mesmo eu que o estou a escrever consigo entender o que se está a passar aqui), este ano, estes semestres, que duram três meses cada, que agora findam.

 

Pronto. Era mais ou menos aqui que queria chegar. Este ano para mim, a resumir numa palavra, havia de ser o ano dos atrasos. Não falo do meu inato atraso, antes, de como o Ensino Superior me tornou numa pessoa sempre moribunda, que não consegue, por mais que tente, perceber em tempo real o que está a acontecer. Vivo em diferido. E nunca vivi assim – raios, vim para Jornalismo porque a minha titi dizia que eu andava sempre informado e essas coisas assim que são só o que importam quando se vem para uma área destas.

 

Cheguei atrasado à ESCS. Com algumas semanas de atraso. Vim para aqui atrasado e passei o primeiro semestre completo e três quartos do último à procura de um sentido para aquilo que estava a acontecer (em boa verdade, ainda agora não faço a mínima ideia do que está a acontecer, mas só para isto não parecer totalmente descabido, e eu não ficar aqui como um irresponsável, vamos fingir que sei).

 

Várias semanas consecutivas, consegui perder todos – todos – os comboios. Por mais que tentasse, não havia maneira de chegar a horas ao comboio. E ao metro. E ao autocarro se tivesse de o apanhar. Porque eu não sou como o Ega e o Carlos que papava a irmã às escondidas e às descobertas. Eu não sou como eles e acho que, afinal, nunca vale a pena correr para nada. Correr para alguma coisa é só ir mais depressa para a morte, e a morte é uma chatice. Assim sendo, podia estar o metro ainda a chegar à plataforma, estando eu no cimo das escadas da estação da Cidade Universitária (vamos deslocar a ação só para efeitos dramáticos), que, estando ao meu o redor todos os transeuntes correndo como fogem as zebras do leão, deixava a corrente ir. E iam. E eu ficava.

 

Cheguei atrasado aos núcleos todos da ESCS (aos dois em que me inscrevi), e por isso, só consegui entrar naquele que não é elitista e que dá a oportunidade a toda a gente de experimentar, com grande rigor (nem imaginam as voltas que este texto deu até chegar aqui aonde o estão lendo) e apoio. Dentro da ESCS MAGAZINE, cheguei também atrasado a algumas das secções, mas o tempo é longo.

 

Ignoremos os atrasos. Pensemos só naquilo que realmente aconteceu. E não aconteceu pouco. Aprendi imenso. Não posso dizer que conheci imensas pessoas e tal e isso tudo que sempre se diz do Ensino Superior – futuros caloiros, escutai com atenção: é tudo treta.

 

As pessoas que mais gostei de conhecer foram os professores (que nerd, Pedro). Destaco um especialmente. Um professor que me fez apaixonar finalmente por esta carreira. Um profissional do Jornalismo que representava toda a integridade e se pautava por seguir todas as matrizes éticas da profissão. Oscar Mascarenhas, assim mesmo, sem acento.

 

E muitos mais, obviamente, cujos nomes não vou referir sob pena de ver as minhas notas inflacionadas, levantando suspeitas de favores que não ocorrem.

 

“Não há limites”, disse-me o editor. E quando mo dizem, eu tendo a exagerar. Essa foi outra das coisas que descobri aqui na ESCS. Tenho tendência a exagerar. Muito. E então, lá me vêem a fazer 16 páginas para trabalhos que deviam ter quatro; a fazer teses de mestrado em trabalhos de casa para esclarecer conceitos ou para saber quem foi Marcello Caetano. Ou a escrever, com esta última que aqui fica, 1107 palavras num texto que uma pobre corretora terá de rever e enviar para uns dez mil canais antes de vir a ocupar uns dois gigabytes nos já referidos e escravizados servidores do IPL.

 

Não vale a pena continuar mais. Aquilo que concluo, agora que olho para trás, é que não vos consigo fazer balanço algum. E sei que é frustrante para o leitor chegar aqui ao fim e ver que, depois de tanta promessa, nada lhe é entregue para além do falhanço de um estudante que não sabe bem o que estuda e que anda para aqui só a redundar e repetir por outras palavras a sua tese de sempre e que, por tanta vez já ter sido referida, embora o leitor nem saiba onde (nem o leitor nem o redactor que redige esta redacção que o leitor, por ser leitor e isso o implicar, lê).

 

Posso apenas, e com isto concluo, como dizem sempre as pessoas que têm mais para dizer que tempo para o fazer, confirmar, em jeito de aliciamento a futuros candidatos, que esta ESCS MAGAZINE foi, já no fim, a melhor coisa que me aconteceu neste primeiro ano de faculdade. Não sei se para o ano aqui continuo, mas, até o saber…

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