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“É p’ra amanhã”: o documentário português sustentável

Inspirado no documentário Demain – uma produção francesa sobre projetos sustentáveis -, o documentário “É p’ra amanhã começou a ser pensado em 2017 e estreou no ano passado. É o primeiro documentário português que, em vez de se focar apenas nas consequências negativas das alterações climáticas, se preocupa em apresentar soluções sustentáveis implementadas em solo português, aplicáveis em seis áreas distintas: alimentação, economia, educação, energia, mobilidade e política. Deu a conhecer escolas que dedicam semanas à exploração dos elementos da floresta, pais que organizam grupos para levar os seus filhos à escola de bicicleta, Câmaras Municipais que dispõem de uma parte do seu orçamento para projetos dos munícipes, marcas de roupa portuguesas transparentes e terrenos de 3 hectares com 230 talhões para hortas biológicas.

 Equipa de produção do “É p’ra amanhã” – fotografia cedida por Verónica Silva. 

A produção dos cinco episódios que constituem o “É p’ra amanhã” contou com uma equipa constituída por seis amigos – Teresa Carvalheira, Luís Costa, Edgar Rodrigues, Pedro Serra, Francesco Rocca e Verónica Silva. Foi esta última, ex-aluna da ESCS e atual professora do Laboratório de Produção de Conteúdos, que nos deu a conhecer melhor o projeto e nos falou sobre como foi o seu percurso profissional.

A área de Audiovisual e Multimédia nem sempre esteve no horizonte das aspirações profissionais de Verónica. Sempre soube que queria de alguma forma salvar vidas ou estar ligada a algum trabalho que lidasse com pessoas, afirma. Contudo, interessou-se pela fotografia e pela escrita, acabando por escolher Humanidades no ensino secundário.

A minha mãe era professora (…) de Biologia e Geologia. No liceu, eu andei na mesma escola onde ela dava aulas e havia (…) um clube de ambiente do qual eu fazia parte”. Ainda que a sustentabilidade não fosse discutida na época, Verónica afirma que sempre esteve mais sensível face ao ambiente pelo facto de ter tido uma mãe bióloga, criadora do clube.

Verónica com a mãe, com a camisola do grupo de ambiente que frequentou no liceu. Fotografia cedida por Verónica Silva.

No último ano do secundário, descobriu a existência da ESCS e do curso de Audiovisual e Multimédia. “O curso ainda era muito recente e não tínhamos grande conhecimento [dele]”. Além disso, era ensino politécnico e não universitário – havia alguma reticência por parte da sua família em ingressar na ESCS. Contudo, hoje confessa: “Foi a melhor coisa que eu fiz”. 

Em 2004, entrou para a ESCS, na qual fez parte da direção da ESCSTUNIS e da Associação de Estudantes. Integrou também o E2, onde teve a experiência de trabalho que a encaminhou depois para o mundo da televisão.

Ainda antes de terminar o curso, surgiu a oportunidade de colaborar num projeto inovador de Fátima Lopes – uma webtv que se chamava “fatima.tv”. A apresentadora estava à procura de ex-alunos e de alunos que estavam a acabar o curso e contactou a ESCS, que sugeriu várias pessoas para gravar o projecto no seu estúdio virtual. “Toda a equipa era escsiana”, explica. E foi assim que, no final de 2007, começou a trabalhar como produtora no projecto “fatima.tv”. Contudo, quando era necessário, desempenhava outras funções: “A vantagem de sermos de AM é sermos uns canivetes suíços. Eu só fazia produção, mas depois, quando era preciso mudar coisas, eu fazia banners no site (…). Depois comecei a fazer fotografia (…) e a fazer produção de conteúdos (…)”.

Produção do projeto “fatima.tv” nas instalações da ESCS. Fotografia cedida por Verónica Silva

Durante um ano, exerceu a função de produtora até que o projeto foi dado por encerrado. No entanto, como colaborava com a apresentadora Fátima Lopes, foi convidada a trabalhar para o programa “Vida Nova”, que ia estrear na SIC. Fez um pouco de tudo, desde escrever as histórias a filmar e editar.  

Quando Fátima Lopes se mudou para a TVI, Verónica passou a trabalhar para a produtora Endemol, onde conheceu Pedro Serra, o realizador do “É p’ra amanhã”.  Depois de muitos anos a trabalhar entre produtoras, Verónica despediu-se da televisão e passou a trabalhar como freelancer em várias áreas, nomeadamente no digital, constituiu a sua própria empresa e começou a dar aulas na ESCS. 

Sete anos depois, Verónica foi contactada por Pedro Serra para integrar a equipa do “É p’ra Amanhã”. Verónica refere que esteve para não aceitar a proposta, pelo facto de não ter tempo – já se encontrava a dar aulas e tinha vários clientes. Porém, aceitou, porque “[criou] equipas e [delegou] trabalho para poder ir”. Havia membros da equipa que não tinham experiência em produção de documentários, como Luís Costa, que, apesar de ser engenheiro biomédico, estava responsável por construir as narrativas para o documentário. Deste modo, foi necessário que todos recebessem formação técnica. Tiveram de ensinar todos os membros da equipa a gravar áudio, a ligar os microfones e a ser assistente de realização.

Para além disso, uma das maiores dificuldades foi a escolha dos projetos que integrariam os episódios finais do documentário. Depois da campanha de crowdfunding que arrecadou cerca de 6800 euros, foi aberta uma campanha de crowdsourcing que recolheu 850 sugestões de projetos sustentáveis portugueses de todas as áreas. 

Na fase de seleção, concluíram que o principal critério era a replicabilidade. Por exemplo, o projeto Mouraria Composta – que consiste na recolha de restos na comunidade que depois são introduzidos numa rede de compostagem – podia ser facilmente replicado em qualquer freguesia do país, a qualquer momento. Acima de tudo, nós queríamos apresentar soluções (…), e que não fosse tudo em Lisboa e no Porto (…). Queríamos dar voz a quem não a tinha e, acima de tudo, mostrar que a mudança era possível. Verónica acrescenta que um dos fatores mais desgastantes foi a realização de parte da pré-produção durante as rodagens, porque tinha de se tomar decisões pouco antes de se fazer as gravações das entrevistas.

 Fase de pré-produção do documentário “É p’ra amanhã”. Fotografia cedida por Verónica Silva.

Ainda assim, houve dois projetos – Cooperativa Terra Chã e Papel D’Ouro – que depois de gravados foram promovidos nas redes sociais do documentário, mas não foram incluídos nos episódios finais. “Eu acho que esses foram os que me custaram mais, porque nós fomos lá, mas (…) avisamos todos os intervenientes que podia acontecer não entrarem”. 

Para Verónica, o que custou mais foi ver que alguns temas não iam ser abordados, como, por exemplo, a preservação e a conservação dos oceanos e das florestas. Outro tema que não foi aprofundado foi a moda. “O principal problema que nós vemos é que há muito greenwashing agora, ou seja, há marcas que são tudo menos sustentáveis, mas que criam linhas sustentáveis para poder vender”. Ainda assim, Verónica acredita que o essencial para conseguir passar a mensagem que definiram inicialmente estava presente nos episódios finais do documentário.

Toda a viagem foi realizada da forma mais sustentável possível. Na mobilidade, a equipa recorreu a autocarros, a comboios, a um carro elétrico e a bicicletas. Esta decisão tornou possível emitir apenas 900 quilos de dióxido de carbono e não os 2600 quilos que seriam libertos caso optassem por um carro movido a combustíveis fósseis. E, ainda assim, a equipa investiu 1500 euros em projetos de energia renovável para compensar as emissões de dióxido de carbono da viagem. Com a associação “Plantar uma árvore”, a equipa também plantou 76 árvores no âmbito da campanha de crowdfunding.

Todos os membros seguiram também uma alimentação vegan durante o processo de filmagens. O controlo da pegada ecológica ao longo da produção do documentário foi levado à letra por todos os membros.

A equipa de produção em Sintra, num dia de plantação de árvores. Fotografia cedida por Verónica Silva

Depois da antestreia do documentário, a 11 de janeiro de 2020, no âmbito do programa de lançamento da “Lisboa Capital Verde Europeia”, a equipa tinha em mente várias iniciativas, como debates e projeções em escolas, para promover a troca de ideias sobre as temáticas que eram apresentadas nos episódios. Contudo, a pandemia impediu a promoção deste tipo de iniciativas que foram substituídas por debates no Facebook em maio e junho. Os episódios foram também transmitidos pela SIC. “Nós queríamos que a informação fosse livre e gratuita (…), por isso é que queríamos que passasse na televisão e que depois ficasse alojado num site aberto”, reforça Verónica. 

A equipa está agora a trabalhar em conteúdos novos, nomeadamente na divulgação de projetos nas redes sociais que ficaram fora dos episódios finais, ou porque já tinham mais visibilidade (como é o caso da “Fruta Feia”), ou porque não encaixavam na narrativa.

Quando questionada sobre o porquê de os portugueses consumirem mais documentários sobre a sustentabilidade que mostram cenários para lá das fronteiras do que aqueles produzidos no país, respondeu: “Nós estamos habituados a grandes produções internacionais, então, as portuguesas são um bocadinho desvalorizadas”. Mas não tardou a acrescentar “que, mesmo assim, nós tivemos um impacto muito positivo”. 

O dia da antestreia do “É p’ra amanhã” no cinema São Jorge em Lisboa, a 11 de janeiro de 2020. Fotografia de Sara Matos, ex-escsiana, e cedida por Verónica Silva.

Receberam vários convites de festivais que acabaram por não acontecer devido à evolução da pandemia, mas em 2019 já tinham sido convidados para fazer parte de várias iniciativas, como o The Ethical Assembly e o programa “Fronteiras XXI” da RTP3. [Queremos] chegar ao maior número de pessoas, para termos também pessoas informadas (…), [capacitadas] para mudar.”

Quando questionada sobre o que é que esta experiência trouxe à sua vida pessoal, Verónica responde: “Sustentabilidade emocional. Mudar é fácil, mas também causa resistência e stress se ficares obcecada por não consumir ou fazer determinadas coisas”. Explica ainda que, no início do caminho de um estilo de vida mais sustentável, deixou de comer carne de vaca, porque chegou à conclusão de que era a forma mais rápida de recuperar algum tipo de impacto que já tinha tido no planeta. Além do mais, pelo facto de ter um compostor ao pé de casa, só cozinha ingredientes que sejam compostáveis, ou seja, legumes, frutas e ovos.  “Eu não sou vegan, sou flexitariana: uma vegetariana flexível, por questões sociais e profissionais”. Na equipa de produção existiam pessoas com diferentes regimes alimentares. “Não és nem melhor nem pior pessoa por fazeres essas escolhas.” 

A hora de almoço entre as gravações do documentário “É p’ra amanhã”. Fotografia cedida por Verónica Silva.

Tudo o que faz atualmente já o fazia antes de ter aceitado colaborar no documentário. Porém, a viagem contribuiu para esclarecer algumas ideias que tinha: “Fiquei com esta sensação de às vezes me ter de perdoar pelas escolhas que tenho de fazer, como comprar uma comida embalada. Às vezes não faz mal.”. Contudo, com a pandemia, foi necessário repensar algumas práticas que já estavam implementadas no seu quotidiano: “Eu usava sempre os transportes públicos, mas por causa da pandemia e da saúde não me posso sentir mal por andar às vezes de carro”.

Como previsão futura do documentário, existe a possibilidade da produção de uma segunda temporada. Contudo, devido à situação que está a ser vivida por todos, a equipa entende que não estão reunidas as condições ideais para iniciar as gravações. Além disso, a pegada ecológica seria maior devido a novas necessidades, como o uso de álcool gel para desinfetar não só as mãos, como também os materiais de captação de aúdio e imagem.

Artigo escrito por Inês Marques, membro da ESCS Mais Limpa

Artigo revisto por Adriana Alves

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