7ª Arte

A crítica em declínio e a educação como fator

Na presente conjuntura, acabou por aparecer um tipo de texto que, na melhor das hipóteses, é uma informação. Ocorreu uma desvalorização do trabalho crítico”, estas são palavras extraídas de uma entrevista que o crítico João Lopes deu à revista universitária de Coimbra “Rua Larga”.

O contexto da conversa é de cariz digital, focado na generalização do vídeo e do DVD como fator da mudança do visionamento e, posteriormente, da crítica de cinema. No entanto, decido acrescentar a educação a este panorama.

Ao longo de três anos de faculdade, poucos foram os professores com que me cruzei que tivessem prazer em debater a 7ª Arte. O que é infeliz, dado que lecionam cadeiras audiovisuais que, inevitavelmente, evocam o cinema. É de compreender que, em muitos dos casos, não existem horas letivas disponíveis para analisar os filmes que possam contribuir para uma maior compreensão prática da matéria. No entanto, isto deixa a incerteza sobre a valorização que é dada ao cinema e ao sentido crítico.

Em tempo de confinamento geral, deparei-me com uma unidade curricular que soube, à priori, que me traria ferramentas para apurar o sentido crítico acerca da arte cinematográfica. As aulas intercalavam a análise de cenas com o desafio de adivinhar quem seriam os diretores de fotografia dos respetivos filmes de autor. Por desejo de conflito, ou de descontentamento, um dia criei uma disputa com o docente da disciplina. O propósito das aulas seria mesmo esse, apesar de, por vezes, não haver colaboração dos alunos.

Imagem retirada do filme Before Sunrise. Fonte: Parkcircus. com

O filme escolhido nesse dia, como alvo de reflexo, foi o primeiro da sequela Before Sunrise. É certamente um bom exemplo de que o cinema não se resume a argumentos alucinantes e que, na maior parte das vezes, não precisa deles. A trilogia é, na verdade, inspirada num acontecimento que se sucedeu com o realizador, Richard Linklater. Numa ida a Filadélfia, o cineasta conheceu uma jovem com quem viria a passar apenas uma noite e que nunca mais voltaria a encontrar. Este breve encontro levou Richard a desenvolver o romance entre Jesse (interpretado por Ethan Hawke) e a francesa Céline (Julie Delpy). Só em 2010, o realizador veio a descobrir que a jovem musa falecera pouco antes de o filme, em si inspirado, ter sido lançado.

Sem criar spoilers, o romance da trilogia de Before Sunrise acompanha o casal em fases diferentes da vida, mostrando algumas mudanças de maturidade na sua relação. Relembro que, para o propósito da aula – demonstrar que até as histórias mais simples podem ser cinema -, o filme encaixava quase perfeitamente. No entanto, o tabuleiro mudou no momento em que decidi dar a minha opinião sobre o mesmo.

Para além de expor alguns aspetos desfavoráveis, como a pobreza na escolha do casting, e o facto de estarmos perante um guião fraco, acrescentei um pormenor: afirmei que aquele filme era procedente de um bocejo.

Não sou alérgica a filmes românticos que não pertençam à gama de obras do autor, contrariamente à opinião da qual fui alvo, no momento em que liguei o microfone para opinar. Os meus colegas aparentavam discordar de mim. Para eles e para o meu professor, tratava-se de mais uma birra da minha parte.

Como contra-argumento, foi explicado que o fator que tinha provocado o meu desagrado quanto ao filme de Linklater era a minha jovialidade e a falta de experiência. Vejamos, no seguimento desta opinião: só quem tivesse experiência em relações amorosas ou, porventura, já se tivesse divorciado iria gostar deste filme. Esta linha de pensamento quase que se equivale a um “Não gostas do Marriage Story, porque os teus pais não são divorciados”, o que é descabido afirmar.

Imagem retirada do filme Marriage Story. Fonte: Timesofisrael.com

O nosso sentido crítico não pode depender das nossas experiências pessoais ou limitar-se à aprovação do reflexo das vivências. Se um filme precisa obrigatoriamente desse fator para ser considerado legítimo na área, então é porque sem os adereços não faz o seu trabalho-base. O facto de um filme ser bom só porque vai ao encontro das nossas vivências é o mesmo que o facto de um músico ser apenas admirado porque as suas melodias relembram a nossa cara-metade. No fundo, já não estamos a avaliar a obra em si, mas o quanto ela se aproxima de nós.

A crítica cinematográfica deixou de ter foco no produto do realizador para dar lugar à criação feita pelo espetador. Receio estarmos perante um instante em que nem a educação conseguirá impulsionar um reerguimento do sentido crítico.

É um assunto que dá pano para mangas. Para o abordarmos, teremos de escolher quais os critérios que devem ser tidos em conta numa crítica, explicar de forma breve tanto as melhores alturas em que devemos deixar o nosso passado interferir, como de que forma voltaremos a possibilitar a ascensão da crítica, por entre as opiniões de corredor.

Começando pelos critérios, deve ser o próprio indivíduo a estabelecer os panoramas mais convenientes ao seu propósito e qualificação. O ideal será, antes de mais, perceber que abordagem se quer adotar nas críticas e pesar na balança a componente teórica, analítica e crítica do texto. Excluindo, claro, os apartes da forma de discurso que se escolhe ter.

Um dos critérios em extinção, por entre as críticas, é a instrução sobre a técnica de cinema. Debater sobre a qualidade do processo criativo, produção, pós-produção, através da atribuição dos nomes das funções que são analisadas é algo que parece já não fazer parte da lista, mas que continua a ser essencial. É impossível adicionar credibilidade ao nosso ponto de vista quando não temos qualificação suficiente para saber como os processos funcionais agem no momento anterior à divulgação de um filme. Por exemplo, se queremos opinar sobre a paleta de cores de um filme, referimo-nos à direção de fotografia.

Creio que o crescimento da ausência de termos técnicos na crítica vai além da falta de qualificação que se vê nos recentes críticos de cinema. Acredito que, em muitos casos, haja essa qualificação por parte do redator, no entanto, é posta em prática uma ocultação dessa vertente por desinteresse do leitor. Leitor este que, à partida, já não é estimulado a ler algo que o desafie e, portanto, adere a conteúdo mais leve e, consecutivamente, menos qualificado e analítico. A parte técnica pode, então, incentivar o retorno da crítica da arte do artista e não só aquilo que o espetador absorve.

Para pôr em prática um sentido analítico, é de extrema importância que seja capaz de comparar obras ao longo da história do cinema, visto que é precisamente um dos pilares que cria tanto a crítica, como o nosso ponto de vista acerca do filme sobre o qual nos debruçamos. No caso em questão, a opinião que criei em volta do filme Before Sunrise foi, intrinsecamente, fundamentada numa comparação com outros filmes que já vi do mesmo caráter ou género.

Imagem retirada do filme Marriage Story. Fonte: Twitter.com/FilmsImages

No processo de visionamento de um filme, é inevitável que parte das nossas vivências interfira na nossa opinião. Não censuro as pessoas que gostam de Marriage Story pelo facto de se sentirem identificadas no meio da disputa entre o casal Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson). É também trabalho do cinema espoletar esse sentimento de representatividade. No entanto, este caráter pessoal só deve entrar na equação quando necessário, como é o caso de uma crítica especializada no cinema como fator de criação de emoções. E, mesmo assim, será sempre preferível vermos de uma perspetiva em que não tenhamos atrelados a nós passados que influenciem a nossa tomada de posse.

O trabalho da educação começa no apoio à exteriorização do indivíduo e das suas emoções, em proveito do sentido crítico. A frase mítica de Saramago torna-se numa motivação para esta prática: “É preciso sair da ilha para ver a ilha”. A concretização de textos de opinião, nas escolas, é um passo nesta direção. No entanto, deve ser mantido e verbalizado entre colegas e docentes. E, principalmente, incentivado de forma a manter-se essa prática na faculdade.

Para além disso, tal como o sentido crítico não é incentivado para o escritor, também o mesmo acontece para o leitor. O ensino deve aplicar-se na estimulação de um leitor que possa estar à altura e habituado a absorver conteúdo realmente adicional ao conhecimento. Rapidamente nos vemos assim, encurralados numa sociedade que acaba por ter opiniões muito semelhantes, pelo facto de não ser instruída de forma estimulante e pelo facto de ver indivíduos com um problema semelhante a escrever sobre opiniões que inevitavelmente se tornam homogéneas.

Em suma, é importante mantermo-nos fiéis às nossas emoções, pois, no fundo, são um dos pilares que nos possibilitam a conexão com o cinema. No entanto, não são estas que devem estar em destaque quando o sentido crítico é exposto. Por muito que a educação tenha um trabalho fulcral na criação de indivíduos críticos, parte muito do crítico o facto de tentar manter-se fiel às suas ideias e de tentar contrariar o cariz superficial e leviano para o qual caminhamos.

Artigo redigido por Margarida Ramos

Artigo revisto por Beatriz Campos

Fonte da imagem de capa: 50 Anos de Filmes