Artes Visuais e Performativas

E tu, o que é que sempre quiseste ser?

João Porfírio e Catarina Fernandes, naturais de Portimão, criaram o projecto “Sempre Quis Ser”, uma exposição que começou no metro do Cais do Sodré e já correu meio mundo, literalmente.

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10 fotografias de 10 sem-abrigo que surpresas podem trazer?

Há pessoas e pessoas e mais pessoas. Mas há algumas, no meio dessas tantas, que inspiram. Inspiram a quê? A ser, simplesmente. A ser aquilo que sempre quisemos ser. E a não desistir.

João Porfírio e Catarina Fernandes, dois jovens algarvios, que, com apenas 20 anos, já levaram, através da exposição “Sempre Quis Ser”, o nome e a realidade de Portugal ao Brasil e quem sabe até a mais países.

A ideia, que começou, segundo os próprios, em conversa, ganhou sentido quando, noite após noite, decidiram sair à rua para conversar com pessoas que perderam o sentido da vida.

O objectivo? Perguntar aos vários sem-abrigo o que, durante a sua vida, sempre quiseram ser e não tiveram possibilidade; Fotografá-los segurando uma ardósia onde escreveriam aquilo que gostavam de ter sido.

O mais comovente? Um dos sem-abrigo escreveu que na sua vida queria ter sido feliz.

Um fotógrafo e uma artista juntaram-se
No final de Novembro, já do ano passado, a ESCSMagazine teve o prazer de se sentar com os dois numa agradável esplanada no Mercado de Fusão, no Martim Moniz.

O dia ainda estava a começar e João tinha acabado de chegar do Campus da Justiça. Mandado pelo Correio da Manhã para conseguir a melhor fotografia, foi no emblemático dia da prisão do nosso ex-primeiro ministro, José Sócrates. Além de estudante de fotografia na ETIC, João colabora também com o Correio da Manhã, trabalha em regime de part-time na loja Bairro Arte e ainda tem tempo para lutar pelos seus sonhos.

Por outro lado, Catarina, que estuda no Chapitô, dedica-se a projectos de caridade, ajudando associações em regime de voluntariado e auto-intitula-se de artista pois é a arte, de todos os tipos, que a preenche e faz feliz.

Amigos de longa data, juntaram-se aquando da vinda para a capital. Mesmo já se conhecendo há mais tempo, apenas há cerca três anos começaram a ser companheiros de todas aventuras. João afirma que Catarina é, sem dúvida, um grande apoio que tem. Mais do que uma amiga, tornou-se família.

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Como tudo começou?
No meio de tantas ideias que começaram a ganhar forma numa lista, surgiu a ideia de retratar Lisboa e os sem-abrigo pois para estes dois jovens é uma realidade da qual não podemos fugir. Está aos olhos de toda a gente. Parecia mais difícil do que aquilo que foi, dizem.

Começaram por sair à rua, à noite, e meter conversa com quem encontravam. Por vezes foi difícil, mas nem esse obstáculo os fez parar. Depois de algum tempo de noites mal dormidas, tinham em sua posse mais de dez fotografias de pessoas que não tiveram sorte na vida. A preto e branco e carregadas a fundo no contraste, João diz que “só assim as pessoas poderiam parar e ver”. As emoções, particularmente a tristeza, eram aquilo que queriam que todos não ficassem indiferentes.

O Metro do Cais do Sodré foi o local escolhido para a exposição. A primeira, na realidade. Através da ETIC, que facilitou os contactos e prestou, desde o início, um grande apoio, quando deram por si já estavam sentados com a Relações Públicas do Metro para discutir pormenores.

Acordou-se a data: um mês – de 28 de Novembro a 28 de Dezembro -; imprimiram-se as fotografias; colocaram-se nos quadros, e, pouco tempo depois, iniciam a frenética montagem, que, no meio de ansiedade e felicidade, correu bastante bem.

As expectativas? Imensas. João já tinha realizado exposições antes na sua cidade natal, mas nunca uma com este porte de importância. Já para Catarina, esta seria a primeira. Mais do que um trabalho que lhes poderia trazer visibilidade, estava em jogo a realização de um sonho de ambos.

No dia da inauguração não poderiam estar mais felizes. “Todas as nossas expectativas foram superadas”. O apoio incondicional e as inúmeras mensagens que receberam a partir daí foram algo que nunca pensaram que pudesse acontecer.

Do Metro do Cais do Sodré para os media e para o Mundo
Ainda antes de a exposição estar ao alcance de todos, o jornal Oje publicou uma entrevista aos jovens. Depois vários órgãos dos media também a noticiaram.

O primeiro foi o P3 do Público. Actualmente com uma imensa visibilidade, o P3 promove a arte em Portugal e vários artistas anónimos. Ainda a exposição estava no início e o Público diz ““Sempre Quis Ser”: sonhos que ficaram pelas ruas de Lisboa”.

Mais tarde, é a vez do Correio da Manhã, que intitula a exposição como “retratos dos sem-abrigos da capital”. Segue-se o Metro Lisboa. Até sair dos media de Portugal e chegar aos media do mundo, particularmente do Brasil, foi um instantinho. Vários sites, depois de as fotografias terem sido disponibilizadas online, pegaram nelas e publicaram-nas nas suas páginas. Sites como Chiado Editora, Hypeness, Catraca Livre e Amor pela Fotografia, os últimos três com sede no Brasil e vistos por milhares de pessoas todos os dias, fizeram com que o nome de Portugal chegasse ao outro lado do mundo.

João e Catarina, de coração cheio, não têm palavras para agradecer, pois isto “foi algo que nunca, mas mesmo nunca pensámos que acontecesse”, dizem.

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Alguns percalços que encorajam
Ainda a exposição estava no metro do Cais do Sodré quando foi vítima de vandalismo. Quadros partidos, fotografias escritas e outras roubadas foi só um pouco daquilo que sofreu, por duas vezes diferentes. No entanto, não foi por isso que desistiram.

Mudada de lugar para o 1º piso da estação do Cais do Sodré, esta continuou firme depois de recolocadas novas fotografias.

Os dois jovens artistas prometeram não desistir e, passados três meses, a exposição voltou. Desta vez para Portimão, a cidade natal de ambos.

Integrada no programa da Câmara Municipal de Portimão “Março Jovem”, a exposição está patente no maior centro comercial do Barlavento Algarvio, Aqua Portimão, e foi inaugurada no passado dia 8 de Março e estará disponível durante todo o mês de Março para quem a queira visitar.

Este foi um dos muitos convites que já receberam. Prometem cumpri-los e este foi só o primeiro. Em conversa com a ESCSMagazine, João diz que “talvez haja a possibilidade de levar a exposição até Paris”.

Dois jovens que dizem que são aquilo que sempre quiseram ser e, neste momento, através daquilo que parecia ser apenas mais uma ideia utópica, estão a levar o nome de Portugal mundo fora.

“Nunca desistam dos vossos sonhos”, afirmam.

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